CAPA
A FASCINANTE CONSTRUO DO EU 
Como desenvolver uma mente saudvel em uma sociedade estressante
AUGUSTO CURY
Academia

CONTRACAPA
      Voc teria coragem de entrar num avio sabendo que o piloto no tem experincia para usar os instrumentos de navegao para levantar voo ou aterrissar? Certamente no! O problema  que, inacreditavelmente, a mais complexa das aeronaves, a mente humana, tem um piloto frequentemente imaturo e despreparado para dirigi-la: o Eu.
      Escolas e universidades dificilmente ensinam os mecanismos para construir um Eu inteligente e saudvel. Sem conhecer e desenvolver tais mecanismos, fica muito mais complicado ser emocionalmente maduro, estvel, profundo e construir um raciocnio complexo em uma sociedade estressante como a nossa. Eis alguns resultados; dois teros das pessoas tm sintomas de timidez, 26% dos jovens tm, caractersticas depressivas, 50% dos pais no dialogam com seus filhos e mais de 90% das pessoas no conversam consigo sobre seus conflitos.
      Augusto Cury, a partir de sua teoria da Inteligncia Multifocal, instiga o leitor deste livro a conhecer os fascinantes mecanismos de formao do Eu. Um assunto vital para jovens e adultos, Apresenta os segredos da memria, os fenmenos que constroem os pensamentos e formam pensadores.
O ser humano pode dirigir uma empresa ou uma nao, mas definitivamente no  fcil dirigir o planeta psquico que,  semelhana do planeta Terra, nunca para de se movimentar, mas com um srio agravante, nem sempre segue a mesma rbita e possui rotas imprevisveis.

Augusto Cury
Mdico psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor.  um dos autores mais publicados no mundo. Considerado o autor mais lido da dcada (2001-2010) no Brasil  Folha de S. Paulo, Veja On Line, Isto . Seus 30 livros ultrapassaram 15 milhes de exemplares somente no Brasil. Autor da teoria da Inteligncia Multifocal, usada em diversas universidades, que estuda a formao do Eu, os papis da memria, a construo de pensamentos.  um dos poucos pensadores vivos da atualidade cuja teoria tem alunos de ps graduao, master internacional e doutorado. Tambm  autor do programa Escola da Inteligncia. Seu romance O Vendedor de Sonhos recebeu, em 2009, na China, o prmio de Livro de Fico. Acompanhe o autor no twitter (@augustocury) e no site www.augustocury.com 
Publicado em mais de 60 pases

A FASCINANTE CONSTRUO DO EU
Como desenvolver uma mente saudvel em uma sociedade estressante
Academia

Copyright  Augusto Cury, 2011
Reviso: Norma Marinheiro, Tulio Kawata, Gabriela Ghetti
Diagramao: Triall
Capa: Karine Hermes
Imagem da capa: Howard Kingsnorth/Gerty Images

CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
C988f
Cury, Augusto, 1958-
A fascinante construo do Eu / Augusto Cury - So Paulo: Planeta, 2011. 192p.
ISBN 978-85-765-753-8
1. Autoconscincia. 2. Filosofia da mente. 3. Teoria do autoconhecimento. 4. Memria. I. Ttulo.
11-6759
CDD: 158.1 
CDU: 159.95

2011
Todos os direitos desta edio reservados  EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA.
Avenida Francisco Matarazzo, 1500  3 andar  conj. 32B 
Edifcio New York
05001-100  So Paulo  SP 
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vendas@editoraplaneta.com.br 

Oferecimento
Temos a possibilidade de ficar na superfcie ou penetrar nas camadas mais profundas da nossa mente. Ofereo este livro a todos os que se arriscam a sair da superfcie e procuram conhecer os mecanismos de formao do Eu saudvel e inteligente. Sem conhecer e desenvolver tais mecanismos, temos grandes chances de ser imaturos, ainda que portadores de ilibada cultura; miserveis, ainda que tenhamos grandes somas de dinheiro; frgeis, ainda que investidos de poder.

Sumrio
Introduo, 9
CAPTULO 1 - O Eu deveria ficar assombrado com a mente humana, 13
CAPTULO 2 - As tcnicas inadequadas do Eu como gerente psquico, 23
CAPTULO 3 - A definio do Eu e suas funes vitais, 35
CAPTULO 4 - A memria gentica, central e perifrica, 45
CAPTULO 5 - As classes de raciocnio, 73
CAPTULO 6 - Os tipos de pensamentos, 99
CAPTULO 7 - A natureza virtual dos pensamentos, 119
CAPTULO 8 - A autoconscincia, 149
CAPTULO 9 - O Gatilho da Memria: uma festa para a qual o Eu no se convidou, 169
CAPTULO 10 - O Eu construtor e reconstrutor, 179

Pg 9
      Voc teria coragem de subir num avio e fazer uma longa viagem sabendo que o piloto no tem experincia, que tem poucas horas de voo? Relaxaria se soubesse que ele desconhece os instrumentos de navegao? Dormiria se ele no tivesse habilidade para desviar de rotas turbulentas, com alta concentrao de nuvens e descargas eltricas? 
      Fiz essas perguntas simples numa conferncia que dei sobre A Educao do Sculo XXI para cerca de 300 coordenadores de faculdade, reitores e pr-reitores do pas, que representam um universo de mais de 100 mil alunos universitrios.  bvio que todos responderam que se sentiriam completamente desconfortveis. Muitos nem sequer ousariam pisar nessa aeronave. Mas os abalei ao afirmar que embarcamos diariamente na mais complexa das aeronaves, comandada por um piloto frequentemente despreparado, mal equipado e mal-educado e, portanto, sujeito a causar inmeros acidentes. Essa aeronave  a mente humana, e o piloto  o prprio Eu. 

Pg 10
      Se voc entrar num avio de ltima gerao, ficar perplexo com a quantidade de instrumentos de apoio  navegao. Mas de que adianta haver tais instrumentos se o piloto no sabe us-los? De que adianta o Eu ter recursos para dirigir o psiquismo ou o intelecto humano se durante o processo de formao da personalidade no aprende os conhecimentos bsicos desses instrumentos nem desenvolve as mnimas habilidades para oper-los? 
      Ningum  to importante quanto os professores no teatro social, embora a dbil sociedade no lhes d o status que merecem. Mas o sistema em que eles esto inseridos  ingnuo e estressante. A educao moderna no forma coletivamente seres humanos que tm conscincia de que possuem um Eu, de que esse Eu  construdo atravs de mecanismos sofisticadssimos, de que esses mecanismos deveriam desenvolver funes vitais nobilssimas, e de que, sem o desenvolvimento dessas funes, ele poder estar completamente despreparado para pilotar o aparelho mental. E, por estar despreparado, ser conduzido pelas tempestades sociais e pelas crises psquicas como um barco  deriva, sem leme. 
      Um Eu malformado ter grandes chances de ser imaturo, ainda que seja um gigante na cincia; sem brilho, ainda que seja socialmente aplaudido; de viver de migalhas de prazer, ainda que tenha dinheiro para comprar o que bem desejar; engessado, ainda que tenha grande potencial criativo. 
      O que o seu Eu faz com as turbulncias emocionais? Deixa-as passar, desvia-se delas ou as enfrenta? Se fssemos um piloto de avio, a melhor conduta talvez fosse fugir das formaes densas de nuvens, mas, como pilotos mentais, 

Pg 11
essa seria a pior atitude, embora seja a deciso mais frequentemente tomada. 
      Em primeiro lugar, porque  impossvel o Eu fugir de si mesmo. Em segundo, porque, se o Eu exercitar a pacincia para deixar as emoes angustiantes se dissiparem espontaneamente e seguir em frente, ele cair na armadilha da autoiluso. A pacincia, to importante nas relaes sociais,  pssima se significar a omisso do Eu em atuar nas crises psquicas. Apenas aparentemente, elas se dissiparo. Sero arquivadas no crtex cerebral e faro parte das matrizes de nossa personalidade. Em terceiro lugar, porque podero formar janelas traumticas com alto poder de atrao e agregao. Estudaremos esse assunto com mais calma, mas vale dizer que tais janelas encarceram o Eu e o desestabilizam como gerente da mente humana. 
      O Eu deveria saber usar instrumentos para o enfrentamento e a reciclagem de suas mazelas emocionais. Mas que tipo de ferramentas ele usa diante dos medos que lhe furtam a tranquilidade? Os medos, ou fobias, vm e aparentemente vo embora, mas, no fundo, ficam, vo sendo depositados nos bastidores da memria e pouco a pouco vo desertificando o territrio da emoo. E que tipo de atitude o Eu toma diante do humor depressivo que esmaga o encanto pela existncia? E dos estmulos estressantes que nos tira do ponto de equilbrio? E dos pensamentos antecipatrios, da ansiedade e irritabilidade? 
      Infelizmente, o Eu  treinado a ficar calado no nico lugar em que no se admite ficar quieto.  adestrado para ser submisso no nico lugar em que no se admite ser um servo.  aprisionado no nico ambiente em que s se  inteligente, saudvel e feliz se se for livre. 

Pg 13 
CAPTULO 1 

O EU DEVEREI FICAR ASSOMBRADO COM A MENTE HUMANA

EJETADOS PARA O MUNDO EXTERNO

      A educao moderna nos ejeta para o mundo externo. Como j expressei e reafirmo, conhecemos tomos que nunca veremos e planetas em que nunca pisaremos, mas no conhecemos minimamente o planeta onde todos os dias andamos, respiramos, existimos e nos acidentamos, o planeta psquico. No reflete isso um paradoxo inaceitvel? Que tipo de educao  essa e que tipo de Eu queremos formar? Se quisermos formar um Eu lcido, dosado, coerente, generoso, ousado, precisamos questionar para onde caminha a educao. 

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      O ranking dos pases que possuem a melhor educao clssica tem estreita relao com o ranking da eficincia profissional, mas no tem grande relao com a maturidade do Eu e com o desenvolvimento das suas funes vitais. 
      No temos ideia de que, no aparelho mental, um pensamento, por mais tolo que seja,  construdo com maior engenhosidade do que um edifcio com milhes de tijolos e que demora anos para ser acabado. Exagero? No. Engenheiros sabem quais tijolos usar para uma construo fsica, mas o Eu, como engenheiro da psique, no sabe sequer como entrar no crtex cerebral e utilizar os materiais disponveis para a construo de cadeias de pensamentos. 
      Um Eu imaturo no perceber que cor de pele, religio, sexo, cultura e raa jamais serviro de parmetros para discriminar dois seres humanos com a mesma complexidade psquica. Um Eu maduro e, portanto, profundo, deveria ficar no mnimo embasbacado com o processo de construo de pensamentos. Mas quem fica? Produzimos pensamentos como se tal tarefa fosse uma banalidade. 
      Einstein produziu uma das teorias mais complexas da cincia, mas, se vivssemos em seu tempo e tivssemos a oportunidade de lhe perguntar como os fenmenos nos bastidores da sua mente conseguiram varrer milhares de vezes as janelas do seu crtex cerebral e costurar as informaes para produzir as suas imagens mentais que deram luz aos pressupostos de sua teoria, ele provavelmente no saberia responder. Usamos o pensamento para pensar o mundo, mas se o usarmos para pensar como pensamos, entenderemos que todos somos meninos diante de to insofismvel complexidade. 

Pg 15 
      Entre um paciente portador de uma psicose e Einstein, ou mesmo Freud, h diferenas na rapidez, coerncia, sntese, esquema e originalidade do raciocnio. Mas todas essas diferenas esto na superfcie da inteligncia. Nas profundezas, somos iguais. Como autor de uma teoria sobre essa rea, assombro-me diante dessa complexidade e diante da relutncia que temos em conhecer nossa essncia. Quando estudarmos aqui os mecanismos de formao do Eu, no teremos dvidas sobre isso. 
      Agrnomos discutem microelementos para nutrir as plantas, mdicos debatem sobre molculas medicamentosas, economistas discorrem sobre medidas para controlar o fluxo de capitais internacionais, mas no discutimos quase nada sobre como formar o Eu como diretor psquico. O sistema acadmico nos prepara para exercer uma profisso e para conhecer e dirigir empresas, cidades ou estados, mas no a ns mesmos. Essa lacuna gerou dficits gritantes na formao do Eu, que, por sua vez, se tornou um dos importantes fatores que fomentaram as falhas histricas do Homo sapiens. 
      No  loucura um mortal produzir guerras e homicdios? O caos dramtico da morte perpetrado na solido de um tmulo deveria produzir um aporte mnimo de sabedoria para o Eu controlar sua violncia, mas no  suficiente. Um Eu infantil, pouco dado a interiorizao, postula-se como deus. No  estupidez um ser humano que morre um pouco a cada dia ter a necessidade neurtica de poder como se fosse eterno? No  estupidez um homem que no sabe como gerenciar seus prprios pensamentos ter a necessidade ansiosa de controlar os outros? 

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      No  uma barbaridade querer ser o mais rico, o mais famoso ou o mais eficiente profissional no leito de um hospital? Ningum quer isso. Mas por que muitos que tm espetacular sucesso social e financeiro, em vez de relaxar e se deleitar, continuam num ritmo alucinado, procurando atingir metas inalcanveis? Um Eu competente no quer dizer um Eu bem formado. Um Eu malformado pode ser eficientssimo para o sistema social, mas, simultaneamente, ter uma pssima relao consigo mesmo. 
      H pessoas que tiveram pais fascinantes, uma infncia maravilhosa e privada de traumas, mas tornaram-se tmidas, pessimistas, mal-humoradas, ansiosas. A base de sua personalidade no justifica sua miserabilidade. Para entend-las, temos de observar os mecanismos de formao do Eu. E, para que elas superem essa miserabilidade, no adianta tratar uma doena, mas o Eu doente, o Eu como gerente da psique. 


A EDUCAO E OS MECANISMOS DE FORMAO DO EU 

      No livro O Cdigo da Inteligncia, comento sucintamente os papis do Eu como gestor da emoo e do intelecto. Nesta obra, vamos expandir muito mais essa exposio e, em destaque, vou discorrer sobre os sofisticadssimos mecanismos conscientes e inconscientes de formao do Eu. 
      Qualquer motorista tem de passar por um treinamento educacional para se habilitar a dirigir um veculo. A educao do sculo XXI e do prximo milnio deveria contemplar

Pg 17
sistematicamente a educao do Eu como diretor do script do nosso psiquismo e como autor de nossa histria. Estou falando de muito mais que valores, como tica, cidadania, respeito pelos direitos humanos. Estou enfatizando uma educao que procura formar pensadores. 
      Podemos no ter doenas clssicas catalogadas pela psiquiatria, como depresso maior, depresso bipolar, TOC (transtornos obsessivos compulsivos), sndrome do pnico, anorexia, bulimia, psicoses, doenas psicossomticas, ansiedade, mas raramente no desenvolvemos defeitos na estrutura do Eu. 
      No  sem razo que 27% dos jovens esto apresentando sintomas depressivos; [1. Organizao Mundial da Sade OMS).] mais de dois tero deles, 66%, tm sintomas de timidez; [2. Instituto Academia da Inteligncia.] 50% das pessoas cedo ou tarde desenvolvero um transtorno psquico; [3. Institute of Social Research da Universidade de Michigan] 90% dos educadores esto com trs ou mais sintomas de estresse profissional; [4. Instituto Academia da Inteligncia.] 80% das demisses dos executivos no ocorrem por problemas tcnicos, mas por dificuldades em lidar com perdas, presses, desafios e conflitos nas relaes com colegas de trabalho; [5. Consultoria Catho.] 50% dos pais no dialogam com seus filhos sobre eles mesmos.[6. Instituto Academia da Inteligncia.] A maioria dos pais no consegue transferir a eles seu capital intelectual, suas experincias; eles transferem bens e dinheiro. Por isso, no poucos jovens se tornam torradores de herana, vivem  sombra desses pais, no so capazes de construir uma bela histria socioprofissional. Tambm no  sem razo que estamos diante da gerao mais frgil. 

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      As escolas de ensino fundamental e mdio, bem como as universidades, deveriam funcionar como academias de inteligncia para o desenvolvimento das habilidades do Eu. Sei que h diversas excees, mas o pensamento corrente do sistema educacional : transmita milhes de dados para os alunos sobre o mundo exterior, estimule-os a assimil-los incorpor-los e ter bom rendimento intelectual que l na ponta, quando sarem com um diploma nas mos, sero atores sociais e profissionais que sabero dirigir bem o aparelho psquico. 
      Acreditar nisso equivale a acreditar que  possvel pegar vrios tipos de tinta e pincel, coloc-los numa mquina e esperar que do outro lado saiam obras-primas, como a Mona Lisa, de Da Vinci, Guernica, de Picasso, O Filho Prdigo, de Rembrandt. No  possvel. Ento, como esperar que milhes de informaes de matemtica, qumica, fsica, biologia, histria, lnguas e das reas especficas dos cursos universitrios, incorporadas durante dez, 15 ou 20 anos no crebro humano, sejam suficientes para que l mais adiante o Eu expresse espontaneamente obras-primas da inteligncia? No  possvel, pelo menos no de forma coletiva. 
      As obras-primas da mente humana, como proatividade, flexibilidade, generosidade, solidariedade, adaptabilidade, ousadia, capacidade de libertar o imaginrio, raciocnio esquemtico, abstrao intuitiva, pensar como espcie, colocar-se no lugar dos outros, trabalhar frustraes, desenvolver resilincia, filtrar o estresse, debater ideias e gerenciar a ansiedade, no so apenas sofisticadas, mas tambm difceis de ser incorporadas, assimiladas e reproduzidas pelo Eu. 

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      Ser que  possvel colocar farinha, acar, ovos e inmeros outros ingredientes numa mquina e esperar que do outro lado saiam os mais elaborados pratos franceses, alemes, italianos, brasileiros, japoneses, chineses?  uma afronta a qualquer chef de cozinha essa crena. Essa metfora deveria igualmente chocar os educadores. 


A INTELIGNCIA MULTIFOCAL 
      
      A reao dos diretores de faculdade e dos reitores aps ouvirem essa explanao foi como uma poesia para mim, deixou-me animado. Eles aplaudiram de p. Mas no aplaudiram a mim, pois sou apenas um ser humano em construo, aplaudiram a possibilidade de reciclarem seu Eu e de reverem os currculos acadmicos. 
      Os currculos que nos ensinam a conhecer o relevo, mas no a geografia de nossas mentes, que nos revelam os segredos das minsculas clulas, mas no o processo de desenvolvimento do Eu e as armadilhas psquicas que podem nos traumatizar e nos encarcerar, precisam ser reinventados. Claro que  fundamental estudar e entender bem o cosmo exterior, mas jamais deveramos deixar em segundo plano o cosmo psquico. 
      Todos os assuntos relativos ao Eu que descreverei nesta obra so pertinentes  teoria da Inteligncia Multifocal, que engloba a psicologia multifocal (o funcionamento da mente, o desenvolvimento da personalidade, a construo de pensamentos, a formao do Eu), a sociologia multifocal (o processo de construo das relaes sociais), 

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a psicopedagogia multifocal (o processo de aprendizagem e de formao de pensadores), a filosofia multifocal (o processo de interpretao e a lgica do conhecimento). J h mais de trs dcadas desenvolvo essa teoria, e a cada dia fico mais fascinado com a mente humana. 
      Embora seja um eterno aprendiz, alegro-me que a Inteligncia Multifocal esteja adentrando os muros das universidades e hoje seja objeto de mster internacional, chancelado por uma universidade americana, e especializao lato sensu em universidades brasileiras. Agora dever haver doutorado, chancelado por universidade espanhola [1. Para majores informaes, acesse: www.psicologiamultifocal.com.br ; www.brightminds.net.br ; www.projectbrightminds.com].  bom saber que alguns alunos esto cursando a ps-graduao no apenas pelo interesse profissional, mas tambm para investir em sua sade psquica e inteligncia. Cuidar de nosso futuro emocional e interpessoal  de capital relevncia. 
 muito mais fcil desenvolver um Eu com defeitos estruturais: radical, extremista, robotizado, fbico, obsessivo, tmido, inseguro, omisso, dissimulador, intolerante, impulsivo, ansioso, hipersensvel, insensvel, controlador, punitivo, autopunitivo, com necessidade neurtica de poder, de evidncia social, de estar sempre certo. Quem no tem alguns desses defeitos, ainda que minimamente? Que psiquiatra, psiclogo, mdico no tem avarias em seu arcabouo psquico? O problema no  t-las, mas reconhec-las.

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A questo no  s reconhec-las, mas saber o que fazer com elas. 
      S se acha perfeito quem nunca se arriscou a sair da superfcie. Temos a possibilidade de ficar na superfcie ou de entrar em camadas mais profundas da nossa mente.  uma escolha fascinante. Uma coisa  possvel afirmar: quem procurar conhecer os mecanismos bsicos da formao do Eu ter grande chance de nunca mais ser ou pensar da mesma maneira... 

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CAPTULO 2 

AS TCNICAS INADEQUADAS DO EU COMO GERENTE PSQUICO

      Quantos pensamentos relativos ao futuro que imprimem dramticas preocupaes, ou sobre o passado que promovem marcantes culpas, so produzidos pela fbrica psquica sem passar pelo controle de qualidade do Eu? Muitos. E quais tcnicas o Eu usa normalmente para qualificar os pensamentos e se livrar do lixo psquico? As mais ineficientes e inadequadas. No poucos mestres timos para ensinar ou psiclogos eficientes para tratar dos outros nem sempre o so para dar um choque de governabilidade em sua mente e se proteger. Seres humanos cordiais com os outros nem sempre o so consigo mesmo. Voc ? 
      As tcnicas que o nosso Eu usa frequentemente para administrar a psique e remover o lixo psquico so as mesmas que os primeiros humanos usavam nos primrdios da civilizao, e elas so ineficientes ou de baixo nvel de eficcia. Vamos comentar algumas delas. 

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A - TENTAR INTERROMPER A CONSTRUO DE PENSAMENTOS 

 impossvel que o Eu interrompa a produo de pensamentos, se desligue, at porque a tentativa j  um pensamento em si. Alm disso, o que  de uma engenhosidade sem precedente  que no apenas o Eu  um fenmeno que l a memria e produz pensamentos numa direo lgica e consciente como tambm h outros fenmenos inconscientes a serem comentados, como o Gatilho da Memria e o Autofluxo, que produzem cadeias de pensamentos, imagens mentais e fantasias sem a autorizao do Eu. 
      Portanto, a grande tese : pensar no  uma opo do Homo sapiens, mas uma inevitabilidade. Pensar no  apenas um desejo consciente do Eu, mas o fluxo vital da psique. 
      As tcnicas de meditao, de relaxamento ou de psicoterapia ajudam, mas no interrompem o processo construtivo. Mesmo no sono, quando o Eu tira frias, esses fenmenos esto extremamente ativos, criam personagens, ambientes e circunstncias com altas performances que podem nos fazer sorrir ou nos aterrorizar. 
      O Gatilho da Memria ou Autochecagem  o primeiro fenmeno que inicia o processo de interpretao. Ele abre as janelas ou reas de leitura do crtex cerebral a partir de algum estmulo fsico, social ou psquico e produz as primeiras reaes, emoes, impresses, pensamentos. Enquanto o leitor est lendo estes textos, ele est detonando milhares de vezes o Gatilho da Memria para abrir as janelas, checar as informaes que possui e realizar o processo 

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de assimilao e entendimento. Sem o Gatilho da Memria, o Eu ficaria completamente confuso, desorientado. 
      Mas o Gatilho da Memria torna-se um problema para o Eu quando ele abre em fraes de segundos alguma janela killer ou traumtica. Como j comentei em outros livros, essa classe de janelas sequestra ou aprisiona o Eu, produz claustrofobia, fobia social, insegurana, reaes impulsivas, angstias, dissimulao, intolerncia, radicalismo, individualismo. 
      De outro lado, o fenmeno do Autofluxo se ancora na janela que o Gatilho abriu e comea a produzir inmeros pensamentos e imagens mentais com dois grandes objetivos: entreter o Homo sapiens atravs dos sonhos, inspiraes, aspiraes e prazeres mentais e alargar as fronteiras da memria, pois tudo que ele produz  novamente registrado. O Autofluxo , portanto, um mordomo para o Eu desde a aurora da vida fetal. E, no tero social, se torna um ator coadjuvante do Eu para entret-lo, expandir-lhe a memria e enriquec-lo. 
      Mas o fenmeno do Autofluxo pode se tornar um srio problema para o Eu quando o domina ou controla. Pode, por exemplo, fomentar uma mente hiperacelerada e hiperpreocupada, expandindo os nveis de ansiedade. Estudaremos esse assunto quando discutirmos os mecanismos de formao do Eu. 
      Quantas vezes o Eu no quer pensar numa pessoa que o ofendeu, mas falha em seu intuito? Essa falha ocorre porque o fenmeno do Gatilho da Memria abriu uma janela do crtex cerebral, onde est arquivado o ofensor e sua ofensa.

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Em seguida, o fenmeno do Autofluxo se ancora nessa janela e constri milhares de pensamentos e imagens mentais relativos a ela. Se o Eu for ingnuo e permanecer como mero espectador desse processo, ele se alimentar de um prato psquico produzido pelo inconsciente, o qual ele no elaborou e, ainda por cima, detesta. Aqui esto alguns dos mais notveis segredos do funcionamento da mente humana, que demonstra a conversa ou interao do inconsciente com o consciente. 
      Concluindo, a tcnica de interromper o pensamento  uma atitude infantil de um Eu que desconhece o planeta psquico. O ser humano pode dirigir uma empresa ou uma nao, mas definitivamente no  fcil dirigir o planeta psquico que,  semelhana do planeta Terra, nunca para de se movimentar, mas com um srio agravante, nem sempre segue a mesma rbita e possui rotas surpreendentes. No reclame se eu, voc ou as pessoas que o rodeiam so imprevisveis, ilgicas e complicadas. Isso se deve ao complexo e belo aparelho psquico. O problema so os excessos. 


B - TENTAR DESVIAR O PENSAMENTO OU SE DISTRAIR 

      Assistir a um filme quando se est tenso, tirar frias quando se est estressado, sair do clima agressivo quando se est atritando so atitudes que podem aliviar o Eu. At quando estamos de olhos fechados na cama, assaltados por algum pensamento perturbador, podemos ser aliviados ao abrir os olhos, pois as imagens do ambiente deslocam o territrio de leitura para outras janelas do crtex cerebral. 

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      Desviar ou tentar se distrair para superar o estresse e os conflitos  a prola das tcnicas populares utilizadas pelo Eu.  a tcnica mais usada por chineses, coreanos, russos, europeus, americanos. Mas tm baixo nvel de eficincia. Infelizmente, milhes de pessoas que foram vtimas de bullying sofreram perdas, traies e rejeies ou atravessaram crises depressivas e ansiosas tentaram usar essa tcnica e falharam. 
      H pelo menos trs complexas causas bsicas com diversas subdivises que justificam essa ineficincia. Para compreend-las temos de adentrar em algumas reas que esto no epicentro do funcionamento da mente. 

1. AS JANELAS DUPLO P 
      A primeira causa da baixa ineficincia da tcnica de distrao decorre do alto poder de algumas janelas estruturais da personalidade, que chamo janelas killer power ou duplo P. Como o nome indica, elas tm duplo poder: poder de atrao do Eu e poder de agregao de novas janelas. O poder de atrao  a capacidade de ancoragem ou fixao do Eu numa determinada janela. E o poder de agregao  a capacidade de agregar novas janelas ao redor do seu ncleo, formando plataformas. 
      Quando h uma janela killer ou traumtica solitria, eu a chamo de janela pontual ou puntiforme, mas quando h uma plataforma de janelas chamo de zona de conflito, que financia espontaneamente uma caracterstica da personalidade. As pessoas expressam irritabilidade, impulsividade, afetividade, tolerncia, ponderao ou radicalismo porque possuem essas plataformas de janelas. Um trauma 

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para adoecer tem de gerar uma zona de conflito, ter inmeras janelas ao redor do ncleo de uma janela killer duplo P. 
      As janelas killer duplo P tm alto poder de ancoragem. Elas ficam no epicentro da memria. Quando o Eu faz um mnimo mergulho introspectivo, ele as encontra em meio a centenas de milhares de janelas. Estudaremos esses sofisticados mecanismos que esto na base do processo de formao da personalidade como um todo, e do Eu em especial. Aqui apenas comentarei que o poder de atrao dessas janelas tanto do Eu como de outros fenmenos que leem a memria  surpreendente. Parece um buraco negro que atrai com sua altssima fora gravitacional planetas e estrelas que esto ao seu redor. 
      Veja um exemplo. Um garoto de seis anos foi zombado na escola por um adolescente na frente de outros meninos por ter um pnis pequeno. Perturbou-se, sentiu-se diminudo, humilhado. Vivenciou o fenmeno bullying. O fenmeno RAM (registro automtico da memria) arquivou de maneira privilegiada a experincia dolorosa como uma janela killer power ou duplo P. Passado certo tempo, nunca mais encontrou seu agressor, mas isso no era necessrio para continuar seu adoecimento. 
      Essa janela sequestrou seu Eu inmeras vezes, gerando ideias constrangedoras e agregando novas janelas, tornando-se uma zona de conflito. No conseguia mais urinar prximo de seus colegas. Achava que os outros garotos o estavam observando e o diminuindo. O tempo passou, e toda vez que ia fazer um exame mdico, entrar num banheiro de um aeroporto ou de um restaurante, abria justamente a janela duplo P e ficava perturbado. S conseguia urinar se se isolasse.

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      At suas relaes sexuais perderam a espontaneidade, foram comprometidas. 
      Lembro-me de um caso interessante e incomum. Uma pessoa comentou que toda vez que ia urinar dava um pulinho. Eu nunca tinha ouvido algo parecido. Pedi que contasse a histria da sua infncia. At que chegamos a um ponto em que ambos compreendemos a origem desse comportamento. Quando menino, estava urinando num terreno, aliviando prazerosamente sua bexiga, e, de repente, um cachorro veio por detrs e latiu raivosamente. O menino interrompeu o jato urinrio e deu um pulo. Registrou simultaneamente na mesma janela o prazer de urinar, o medo do co e sua reao. A partir da, toda vez que ia urinar, penetrava naquela janela e reproduzia o comportamento, dava um pulinho. Isso parece engraado, e nesse caso no gerou um trauma grave, mas em muitos casos ocorre a formao de extensas reas de janelas traumticas que sequestram o Eu, o tornam vtima da sua histria e geram graves acidentes psquicos. 
      Todas as escolas do mundo deveriam ensinar esses processos aos seus alunos, O Eu deve ter o direito de possuir conhecimento dos mecanismos bsicos da sua formao e das emboscadas que podem aprision-lo para que desenvolva habilidades a fim de se proteger, amadurecer, se tornar resiliente. Caso contrrio, esperaremos as pessoas adoecerem para depois trat-las. Nada to injusto. 
      Aprender a circular no psiquismo humano  to fundamental quanto aprender a caminhar sobre o solo onde pisamos. Sem saber o que so as janelas duplo P, como o Eu poder evitar que uma janela solitria se transforme numa zona de conflito? Como reeditar o seu poder de ancoragem 

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ou o seu sequestro? Olhe para sua experincia e verifique se possui janelas duplo P. O que o faz perder o autocontrole? O que lhe causa medo? E o que o deprime ou o deixa ansioso? 

2. O REGISTRO NA MEMRIA NO DEPENDE DO EU 
      Nos computadores, o Eu tem controle da qualidade do registro das informaes. O Eu  um deus da memria deles, ele arquiva o que bem entende. No crtex cerebral, o Eu no tem essa liberdade. O arquivamento no est sob sua responsabilidade,  exercido involuntria e inconscientemente pelo fenmeno RAM de que falamos. Mesmo que voc saiba disso pela leitura de outros textos, nunca se esquea que seu Eu no seleciona o que quer registrar. 
      H muitas pessoas, inclusive pesquisadores, que j ouviram falar do fenmeno RAM, mas ainda insistem na tcnica errada. Tudo que voc ansiosamente evita ser arquivado intensamente. Saber disso  fundamental para o Eu operar certas ferramentas e no agir estupidamente. Uma pessoa foi caluniada injustamente. Odiar o caluniador asfixia o hospedeiro, forma janelas duplo P que o escravizaro. Compreend-lo, consider-lo imaturo, dar descontos a ele e no gravitar na sua rbita, ainda que o caluniador no merea, alivia o caluniado, liberta-o, recicla as janelas da memria. 
      Um Eu maduro d aos outros o direito de abandon-lo ou critic-lo, um Eu imaturo tem ataques de raiva quando isso acontece. Parece heri, mas  um pssimo dirigente da 

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sua psique, vende sua tranquilidade por um preo vil. A que preo voc vende sua tranquilidade? Voc d s pessoas o direito de o contrariarem?  extremamente relaxante no ter a necessidade de ser perfeito ou inatacvel. 
      Infelizmente, os alunos ficam anos nas escolas e o Eu deles no aprende as tcnicas bsicas para promover a liberdade psquica. Estudam sobre os escravos do passado, as loucuras cometidas por reis que venceram guerras e dominaram com mo de ferro os vencidos ou a insanidade dos senhores de engenho que escravizaram os negros, mas, sem o saber, o Eu deles continua produzindo escravos. Que escravos? Eles mesmos se escravizam no territrio da emoo. 
      A cada hora algumas pessoas se suicidam na Terra. A autopunio  uma das formas de crcere psquico e est em plena expanso nas sociedades de consumo em que as pessoas vivem marcadamente solitrias. Falamos o trivial, mas no o essencial, sobre ns mesmos. Se o Eu aprendesse a criar pontes com os outros e consigo mesmo, os ndices de suicdio despencariam. Se o Eu deixasse de ser passivo e aprendesse a gritar e discordar dos pensamentos perturbadores e das emoes angustiantes, certamente formaria janelas light, que iluminariam suas habilidades e o retirariam da condio de servo. 
      Um Eu passivo e frgil  pior do que uma grave doena psquica. No  recomendvel gritar fora de ns, mas  recomendvel faz-lo dentro de ns. Seu Eu  passivo? Sabe virar a mesa diariamente em seu psiquismo ou  submisso? 

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3. NO  POSSVEL ANULAR OS ARQUIVOS 
      A terceira causa que mostra a ineficincia da tcnica de tentar se distrair quando se est sob um foco de tenso  a impossibilidade de apagar os arquivos da memria. O Eu desconhece os locos das janelas traumticas porque penetra na cidade da memria no escuro, sem mapa ou orientao tempoespacial. Elas esto pulverizadas em mltiplos bairros do crtex cerebral. 
      E mesmo se o Eu soubesse exatamente onde esto arquivados fobias, humor depressivo, apreenses, raivas, timidez, cimes, sentimentos de inferioridade, comportamentos autopunitivos, ele no teria ferramentas fsicas para apagar os arquivos do crtex. Nos computadores, voc apaga o que bem entende, mas, na sua memria, nunca. 
      Essa falta de ferramenta  tanto uma grave limitao como uma grande proteo. J pensou se voc pudesse apagar as pessoas que o aborrecem? Num momento, seus filhos ou seu parceiro(a) deixariam de participar da sua histria, no outro, decepcionado consigo mesmo, voc se apagaria, suicidaria sua histria, voltaria a ser um beb. O Eu de nenhum ser humano seria to maduro para saber usar essa ferramenta. 
      Muitos intelectuais, desconhecendo o funcionamento da mente e os papis bsicos do Eu, tentam deletar os arquivos da memria. So cultos para atuar no mundo social, mas toscos e frgeis para atuar no mundo psquico. Lembro-me de um filsofo que pensava que os professores da sua universidade conspiravam contra ele. Seu Eu, no comeo de sua doena, queria se livrar das suas ideias paranoicas, extingui-las ou esquec-las. Passou anos tentando 

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deletar o inapagvel. E quanto mais o fazia, mais entrava nas janelas killer, mais seu Eu sentia-se perseguido, mais expandia seu trauma e mais dava crdito s pessoas que falavam dele e engendravam-lhe o mal. Usou uma funo inadequada do Eu, adoeceu muito. 
      Grande parte do esforo que executivos, mdicos, psiclogos e pacientes fazem para se livrar dos seus focos de tenso (inimigos, desafetos, dificuldades) no tem grande eficcia. S enferma mais ainda o Eu, forma janelas duplo P, que os aprisionam e ampliam as zonas de conflito. Colocam, desse modo, mais combustvel nos fantasmas que os assombram, Voc supera ou nutre os seus fantasmas? 
      Quanto mais uma pessoa que foi trada tenta anular a pessoa que a traiu, mais raiva sentir e, consequentemente, mais a dor da traio ser arquivada no centro de sua memria. Quanto mais uma pessoa tentar esquecer a crise financeira que atravessa, mais penetrar nas janelas que financiam sua hiperpreocupao, mais se perturbar, perder o sono e descarregar sua ansiedade em seu corpo, gerando sintomas psicossomticos. Essas defesas do Eu no apenas so ineficientes, mas tambm aumentam os nveis de estresse. 
      Nunca tente deletar seus arquivos. No conseguir. No gaste energia tentando esquecer as pessoas que o magoaram. Seu desgaste as tornar inesquecveis. A melhor tcnica, como veremos,  assumir a dor sempre, recicl-la com maturidade, jamais se colocar como vtima, conversar sem medo com nossos fantasmas, rev-los por outros ngulos e reescrever as janelas onde esto inscritas. 

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UMA MENTE COMPLICADSSIMA 
      
      Qual seria sua reao se, ao dirigir seu carro, voc virasse  esquerda e ele se movesse para a direita? Ficaramos completamente aflitos. E se quisssemos desacelerar o carro e ele, em vez disso, se acelerasse? Talvez entrssemos em pnico. Lembro-me deque uma grande empresa automobilstica fez um recall com dezenas de milhares de seus carros nos Estados Unidos. O acelerador emperrava, fazendo com que os proprietrios no tivessem controle sobre sua velocidade. Uma mulher, ao depor no Congresso americano sobre esse defeito, relatou aos prantos o pavor que sentiu. 
      Isso, que se acontecesse com um automvel pareceria mais com um filme de terror, ocorre frequentemente com o veculo da mente humana. Quantas vezes voc quer frear ou desacelerar seus pensamentos e no consegue? Quantas vezes queremos negar ou esquecer nossos pensamentos angustiantes, mas nosso Eu se sente impotente? 
      No  fcil dirigir a mente humana, ela  muito mais complexa que qualquer empresa, aeronave, computador, mquina que o homem j produziu ou produzir.  possvel ser um executivo altamente eficiente e inovador, que administra milhares de funcionrios, que sabe qualificar seus produtos e servios e que leva sua empresa a ter todos os anos bilhes de dlares de lucro e, ao mesmo tempo, ser um pssimo dirigente da sua mente, ter uma emoo  beira da falncia: fatigada, exaurida, instvel, lbil, irritadia, com baixssimo limiar para a frustrao. 

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CAPTULO 3

A DEFINIO DO EU E SUAS FUNES VITAIS

      Usamos a palavra eu cotidianamente sem ter compreenso de sua dimenso, suas habilidades e suas funes vitais. O Eu  o centro da personalidade, o lder da psique ou da mente, o desejo consciente, a capacidade de autodeterminao e a identidade fundamental que nos torna seres nicos. Como a definio do Eu  ampla e suas funes ou papis fundamentais so mltiplos, vou sistematiz-los. 
      H pelo menos 20 habilidades vitais que caracterizam o Eu. No basta o Eu ser saudvel, tem tambm de ser inteligente, precisa desenvolver suas funes fundamentais. Creio que a grande maioria das pessoas de todos os povos e culturas tem menos de 10% dessas funes bem trabalhadas. E talvez eu esteja sendo generoso com essa estatstica. 

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      1. Capacidade de autoconhecimento e autoconscincia. 
      2. Capacidade de escolha e autocrtica. 
      3. Identidade psquica e social. 
      4. Gerenciar os pensamentos. 
      5. Qualificar os pensamentos e as ideias. 
      6. Qualificar as imagens mentais e as fantasias. 
      7. Gerenciar as emoes. 
      8. Proteger e qualificar as emoes. 
      9. Reciclar como autor da sua histria as influncias instintivas e impulsivas da carga gentica. 
      10. Reciclar como autor da sua histria as influncias doentias do sistema educacional, como preconceitos, radicalismos, fundamentalismos, dogmatismos. 
      11. Reciclar como autor da sua histria os conflitos, perdas, privaes e caractersticas doentias incorporadas na infncia e adolescncia. 
      12. Ser uma fonte gestora da leitura da memria logo aps a iniciao do processo de interpretao ser desencadeada pela atuao inconsciente do Gatilho da Memria ou fenmeno da Autochecagem. 
      13. Ser fonte gestora dos efeitos das janelas killer fortes (duplo P), mdias e fracas. 
      14. Ser fonte construtora consciente das janelas da memria, em especial das saudveis janelas light duplo P. 
      15. Reeditar o filme do inconsciente. 
      16. Gerenciar o fenmeno da psicoadaptao. 
      17. Gerenciar a lei do menor esforo e do maior esforo. 

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      18. Modular o fenmeno do Autofluxo. 
      19. Desenvolver sua histria psquica atravs das funes intelectuais mais complexas, como pensar antes de reagir, resilincia, pensamento abstrato, raciocnio esquemtico, arte da observao, da deduo, da induo, da dvida, de contemplar o belo. 
      20. Desenvolver a histria social atravs das funes psicossociais mais complexas, como solidariedade, altrusmo, generosidade, cidadania, interao social, trabalho em equipe, debate de ideias, pensar como espcie. 
 
      Se uma pessoa tiver um Eu saudvel e inteligente, com as funes vitais bem desenvolvidas, ter substancial conscincia de si e da complexidade do psiquismo e portanto jamais se inferiorizar ou se colocar acima dos outros. Poder estar em frente de um presidente ou rei de sua nao que no se sentir diminudo nem ter impulsos de supervaloriz-lo. Poder valoriz-lo e respeit-lo, mas no ter deslumbramento irracional. A maioria dos jovens que se encantam diante de uma personalidade de Hollywood ou de um cantor no tem um Eu maduro, autoconsciente, autocrtico. 
      Um Eu saudvel e inteligente tambm enxerga que todos os seres humanos so igualmente complexos no processo de construo de pensamentos, embora essa construo tenha diferentes manifestaes culturais, profundidade, coerncia, sensibilidade. Um Eu inteligente tambm enxerga a complexidade e a brevidade da existncia, sabe que todos somos meninos brincando no teatro do tempo, comprando, vendendo, relacionando-se, envoltos num mar de segredos que ultrapassa os limites da compreenso do psiquismo. 

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      Um Eu saudvel e inteligente pauta sua agenda social pela flexibilidade, pela capacidade de expor seus pensamentos e nunca imp-los. Tem conscincia de que todo radicalismo  fruto de imaturidade e insegurana. Sabe, por exemplo, que quem defende radicalmente suas ideias ou sua religio depe contra aquilo que cr, no est convencido do que cr, pois se estivesse no precisaria de presso. Sabe tambm que quem defende radicalmente o atesmo  emocionalmente imaturo. Precisa de coao para dar relevncia a suas convices. 
      Um Eu maduro e autoconsciente no tem a necessidade de controlar o outro. Expe suas convices religiosas, polticas, cientficas e at esportivas sem medo, mas com brandura e generosidade, dando ao outro o direito de aceit-las ou rejeit-las. Sabe que no tem poder de mudar ningum. O Eu do outro s mudar se ele o permitir, se construir novas janelas. 


O FASCINANTE MUNDO DA MENTE HUMANA 
      
      Para mim, o processo de construo de pensamentos, formao do Eu e organizao da conscincia  a fronteira mais complexa da cincia. Quem a estudar e a compreender minimamente ter vontade de conversar com mendigos, doentes mentais, idosos, pessoas humildes, enfim, seres humanos que no chamam a ateno social e a quem ningum d importncia. H um universo dentro da mente de cada ser humano. 
      Mas nosso Eu, viciado em marketing de produtos das empresas, no consegue avaliar que os produtos ou construtos 

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produzidos pelo mais complexo dos mundos, a nossa mente, so os mais sofisticados e mais importantes do grande mercado da existncia. Um Eu malformado no tem autoconscincia. Deslumbra-se com as vitrines das lojas, mas no com as vitrines da sua psique. No percebe que  um ser humano nico vivendo uma existncia espetacular, apesar das lgrimas e falhas que nos acompanham. 
      Estamos na era primitiva da compreenso dos mecanismos de formao e das funes vitais do Eu. Voc conhece os fenmenos produzidos pelo fenmeno da psicoadaptao que enredam o Eu? Raramente algum admite sair sem casaco em um dia frio ou sem protetor solar se vai tomar sol. Mas por que samos sem proteo emocional nas relaes com nossos colegas de trabalho ou com nossos filhos? Ningum em s conscincia compraria um produto sem verificar o prazo de validade e a qualidade desse. Mas qualificamos nossos pensamentos ou os deixamos soltos? 
      Muitos no sabem que seu pior inimigo nunca esteve fora de si, mas pode ser seu prprio Eu, que no exerce suas funes vitais, em especial um notvel gerenciamento dos pensamentos. A produo incontrolvel de pensamentos desgasta excessivamente seu crebro. Algumas pessoas esto to fatigadas que no andam, carregam seu corpo. 
      Qualquer empresa, por menor que seja, precisa de um lder que cuide das finanas e da qualidade dos seus produtos e processos, caso contrrio, ir  falncia. Mas, por incrvel que parea, a mais importante das empresas, a mente humana, no possui um executivo maduro. No  sem razo que grande parte das pessoas tem uma srie de Sintomas psquicos e psicossomticos. 

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      Brilhantes pensadores como Scrates, Plato, Aristteles, Spinoza, Hegel, Marx, Freud, Jung, Skinner, Piaget, Gardner, usaram o pensamento como matria-prima para produzir filosofia, o processo de formao da personalidade, o processo de aprendizagem, as cincias sociopolticas. Mas raramente tiveram a oportunidade de estudar o processo de construo de pensamentos e os papis vitais do Eu como gerente psquico. Apesar disso, intuitivamente trabalharam algumas dessas suas funes vitais, libertaram seu imaginrio e construram brilhantes ideias. 
      Desvendar a anatomia e a fisiologia do Eu  importantssimo para que possamos ser pais melhores, educadores que formam pensadores, profissionais mais eficientes, pesquisadores mais criativos. Potencializaremos nossas habilidades e teremos mais chances de reciclar nossa histria: 
      
      1. Seremos menos deuses e mais humanos e, como tais, mais conscientes de nossas imperfeies e limitaes. 
      2. Teremos menos necessidade de evidncia social e mais necessidade de contemplar as pequenas coisas. 
      3. Seremos menos assaltados pela necessidade neurtica de poder e mais abarcados pelo prazer de contribuir com os outros. 
      4. Julgaremos menos, abraaremos mais e elogiaremos muito mais. 
      5. Cobraremos menos dos outros e seremos mais tolerantes. Exigiremos menos de ns mesmos sem perder a eficincia e seremos mais romnticos conosco. 
      6. Seremos mais flexveis e menos radicais. 

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      7. Enclausurar-nos-emos menos e falaremos mais de ns mesmos e de nossos sonhos sem medo de sermos tachados de loucos, insanos ou dbeis. 
      8. Seremos menos vtimas das angstias, fobias e insegurana e mais protetores e promotores do jbilo, da liberdade e do encanto pela vida. 
      9. Seremos mais ousados e menos escravos do medo de errar. 
      10. Andaremos por trajetrias jamais percorridas, teremos mais prazer de nos aventurar. 
      11. Libertaremos mais o imaginrio e construiremos mais ideias, seremos mais criativos e proativos. Danaremos a valsa da existncia com a mente desengessada. 
      12. Pensaremos mais como espcie e como humanidade, menos como grupo social e muito menos ainda como indivduo. 


PARADOXOS DE UM EU IMATURO 
      
      Ambientalistas, que no admitem nenhum entulho no meio ambiente, podem violar o meio ambiente de suas mentes e conviver com a poluio de pensamentos angustiantes e emoes devastadoras. Lderes religiosos dosados, serenos, acostumados a cuidar dos outros, podem colocar-se em ltimo lugar na sua prpria agenda, tornar-se uma mquina de atividade ou ser vtima de decepes dos seus pares mais ntimos e arquivar janelas killer poderosas que os encarceram. Brilhantes psiquiatras que so eficientes ao tratar seus 

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pacientes podem no o ser ao administrar seus pensamentos, proteger sua emoo e gerenciar seus focos de estresse. 
      Esses paradoxos sempre fizeram parte do Eu mau estruturado mas, felizmente, o Eu pode e deve reciclar suas mazelas e reescrever as janelas da memria em qualquer poca. Estudaremos esse tema. Apenas me antecipo, dizendo que ningum  obrigado ou est condenado a conviver com seus conflitos, fobias, impulsividade, ansiedade, humor depressivo, pessimismo, comportamento autopunitivo. Mas, para isso, o Eu deve ganhar musculatura, deixar de ser inerte, passivo, frgil, conformista. Como est a musculatura do nosso Eu? 
      Se o Eu no se estruturar e no desenvolver algumas de suas habilidades fundamentais, poder viver estes paradoxos: 
      
      1. Poder adoecer, ainda que tenha vivenciado o processo deformao da personalidade sem importantes traumas na infncia e na adolescncia. 
      2. Ser um escravo, ainda que viva em sociedades livres. 
      3. Viver miseravelmente, ainda que seja rico e possa viajar o mundo. 
      4. Ser frgil e desprotegido, ainda que tenha guarda-costas e faa todo tipo de seguro: casa, vida, empresa. 
      5. Bloquear a produo de ideias e de respostas inteligentes no ambiente socioprofissional, ainda que tenha um potencial criativo excelente. 
      6. Ser autodestrutivo, ainda que seja bom para os outros. 

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      7. Poder causar bloqueios no psiquismo dos seus filhos e alunos, ainda que seja professor bem-intencionado ou pai apaixonado. 
      8. Poder destruir seu romance ainda, que proclame que encontrou o parceiro ou a parceira da sua vida. 
      
      Quando vemos pessoas inteligentes em ao, como um mdico discutindo um diagnstico, um intelectual expondo uma rea do conhecimento, um empresrio gerindo pessoas, uma celebridade dando uma entrevista, pode-se ter a falsa impresso de que elas so boas dirigentes da sua psique. Mas o Eu, como piloto, no  seriamente testado sob o clamor dos aplausos ou dos assuntos lgicos. 
      Ao analis-lo diante das perdas materiais, decepes, desafios profissionais, crticas, frustraes conjugais,  que vamos aferir os nveis de sua gerenciabilidade. Talvez fiquemos decepcionados nessa anlise. 
      E se nos mapearmos, passaremos nessa anlise? Teremos um Eu nobre ao atravessar o caos, que maneja bem a arte da reflexo e no da reao agressiva? Um Eu imaturo enxerga a pequenez dos outros, mas um Eu inteligente enxerga primeiramente a sua prpria pequenez. Um Eu imaturo d as costas para quem o decepciona, um Eu inteligente procura compreend-lo. Um Eu imaturo se enraivece diante das crticas, um Eu inteligente as agradece e, se possvel, as utiliza para crescer. Um Eu imaturo no abre mo das suas convices, um Eu inteligente  um caador de novas ideias. 

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CAPTULO 4 

A MEMRIA GENTICA, CENTRAL E PERIFRICA

      A partir deste captulo entraremos no cerne desta obra, nos mecanismos de construo do Eu. O primeiro deles  a memria. No segundo livro [1. O Eu estressado  mecanismos de superao.], que completar esta obra, continuarei a falar dos mecanismos de construo do Eu e destacarei os vrios tipos de Eu doentes ou estressados, como o Eu ansioso, intolerante, dissimulador, radical, tmido, hipersensvel, pessimista. 
      Cada um dos mecanismos que estudaremos nutre o Eu, possui uma srie de ferramentas capazes de torn-lo saudvel e inteligente. Eles tambm possuem de maneira evidente ou subliminar uma srie de emboscadas ou armadilhas que podem adoec-lo e contrair sua capacidade de ser autor da sua histria. Qualquer avano na incorporao desse conhecimento poder ser significativo para nosso futuro psicossocial. 

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      A memria global, tanto gentica como existencial,  a matriz bsica para a formao do Eu. Ela  a fonte da grande maioria das construes que o Eu e outros fenmenos inconscientes realizam diariamente no ambiente psquico: emoes, pensamentos, imagens mentais, ideias, desejos. 
      A partir da memria  que o Eu exerce sua liderana sobre a psique. Ele tem facilidade de us-la para construir pensamentos ao seu bel-prazer, mas no o tem para construir emoes. Tente construir um pensamento sobre a Primavera rabe (levante de povos rabes que querem sair do jugo dos seus ditadores) ou o deserto do Saara. Voc provavelmente o far com facilidade. Agora tente produzir uma emoo agradabilssima nesse momento tal qual o primeiro beijo. Provavelmente no ter grande xito. Tente dar uma ordem para sua emoo dizendo que de hoje em diante ser tranquilo, que no se perturbar com as turbulncias da existncia. Provavelmente falhar. 
      Uma pessoa pessimista poder dizer que no suporta mais seu mau humor, que daqui para sempre ser otimista, contemplativa e saturada de prazer. Dificilmente ter xito com facilidade, ainda que leia todos os livros de autoajuda do mundo e seja um multimilionrio que tenha tudo e todos aos seus ps. Frases positivas ou de efeito no mudam a estrutura do Eu, no formam plataformas de janelas que alavancam o processo de formao da personalidade. 
      Meus livros no so de autoajuda, embora algumas pessoas que no os leram os possam classificar assim. Eles se embasam numa teoria psicossocial que democratiza o acesso a ferramentas para que o Eu possa desenvolver suas funes 

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vitais e ser gestor da sua histria. No h mgica em mudar o psiquismo. A emoo em particular  difcil de ser governada. Nesse aspecto,  democrtica. Tanto mendigos como abastados, tanto pacientes depressivos como mdicos tm dificuldade de estabiliz-la, gerenci-la, domin-la. 
      E por que o Eu no consegue atuar com eficincia no psiquismo humano? Quais as causas da sua fragilidade? Em que fases do processo de sua formao ele pode encarcerar seu desenvolvimento, desenvolver defeitos estruturais, debilitar-se, tornar-se doente? Eis algumas grandes teses da psicologia e da psiquiatria. Precisamos estudar os mecanismos de formao do Eu em detalhes. Um assunto que, infelizmente, mesmo na formao de psiquiatras e nas escolas de psicologia  pouqussimo estudado. Os atores coadjuvantes (nossos comportamentos) so estudados em primeiro plano e o Eu, diretor do teatro psquico,  deixado em segundo plano. Erro crasso. 
      Os leitores devem ficar atentos, pois, mesmo quando acharem que estou tratando de um assunto que j leram em alguns dos meus livros, a aplicabilidade foi direcionada para outro contexto. Esses mecanismos so to surpreendentes que preciso l-los com frequncia para no cair ou cair menos nas armadilhas que encerram. 


OS TRS TIPOS DE MEMRIA 
      
      A memria se divide em trs grandes reas: a memria gentica, a memria de uso contnuo ou central (MUC) e a memria existencial ou perifrica (ME). 

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      Tanto a MUC como a ME so memrias existenciais, adquiridas atravs das experincias psquicas vivenciadas desde a aurora da vida fetal. Mas as diferencio porque a MUC, como memria de uso contnuo,  a fonte de matrias-primas para se ler, escrever, falar, pensar, interpretar, enfim, realizar atividades intelectuais e emocionais dirias e contnuas. A ME, por sua vez, representa todos os bilhes de experincias que foram arquivadas ao longo da histria de cada ser humano. 
      Vou usar uma metfora, a de uma cidade, para explicar os trs grandes tipos de memria e como ocorrem a coexistncia e a cointerferncia entre elas, como se comunicam ou danam juntas a valsa do desenvolvimento da personalidade e da formao do Eu. 
      Nessa metfora, a memria gentica representa o solo da cidade (a estrutura fsica do crtex cerebral e o metabolismo). Tudo que foi edificado no centro da cidade ser a MUC, e a imensa periferia ser a ME. 
      Vamos comentar primeiro a memria gentica. Herdada dos nossos pais biolgicos, a partir da unio do espermatozoide com o vulo, a carga gentica  nica para cada ser humano, tanto na construo do bitipo, expresso pelo tamanho, forma, peso, altura, cor da pele, como na construo da complexa fisiologia, expressa, entre outros elementos, pelo metabolismo, hormnios, neurotransmissores cerebrais (serotonina, adrenalina, noradrenalina, acetilcolina e outros), anticorpos, etc. 
      A memria gentica tambm  nica para o comportamento. Em especial atravs dos neurotransmissores cerebrais e do metabolismo no interior dos neurnios, 

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ela produz pelo menos 11 grandes caractersticas que influenciam o processo de formao da personalidade e, consequentemente, de desenvolvimento do Eu: 
      1. nveis de reatividade aos estmulos estressantes; 
      2. nveis de sensibilidade nas relaes sociais; 
      3. limiar de suportabilidade  dor fsica e emocional; 
      4. pulsaes ansiosas; 
      5. manifestaes instintivas: sede, fome, libido; 
      6. capacidade de armazenamento de informaes no crtex cerebral; 
      7. dimenso da rea que far parte da ME; 
      8. dimenso da rea que far parte da MUC; 
      9. quantidade e qualidade das redes entre os neurnios; 
      10. quantidade e qualidade das conexes entre as janelas da memria; 
      11. qualidade da receptividade de arquivamento das informaes pelo fenmeno RAM. 
      
      J se foi o tempo em que ser gnio significava ter uma excelente memria, uma capacidade de armazenamento espetacular. Hoje, qualquer computador medocre tem melhor capacidade que esse tipo de gnio. J se foi o tempo em que para ter sucesso profissional bastava recitar e reproduzir informaes. Tambm j se foi o tempo em que para construir um grande romance bastava ser gentil e trazer flores. Hoje so necessrias outras habilidades assimiladas e 

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armazenadas na MUC e na ME para se ter sucesso emocional, afetivo, social, profissional, cientfico. 
      Mas no h dvidas de que a influncia gentica pode ser marcante. Cada uma das caractersticas genticas para o comportamento pode produzir uma reao em cadeia que influenciar o processo de interpretao e as experincias emocionais do feto, do beb, da criana, do adolescente e do adulto. O solo e o clima da cidade da memria, ou seja, a carga gentica, influenciam os alicerces, a estrutura, o padro de segurana e a acessibilidade de casas e edifcios que representam as informaes e experincias arquivadas na MUC e ME ao longo da existncia. 


O CENTRO E A PERIFERIA DA MEMRIA 
      
      Na metfora da cidade, a MUC, ou memria consciente, ou central, representa as ruas, avenidas, lojas, farmcias, supermercados, local de trabalho, teatro, que o Eu frequenta rotineiramente. A MUC representa talvez menos de 1% de toda a memria, mas ela  a memria de uso contnuo, constante. Se voc mora numa cidade grande, note que circula apenas num pequeno espao. Grande parte das ruas, farmcias, lojas no faz parte da sua rotina. 
      Todos os dias eu e voc acessamos as informaes da MUC para desenvolver e dar respostas sociais, tarefas profissionais, comunicao, localizao tempoespacial, operaes matemticas usuais. Para assimilar as palavras deste livro, voc est usando grande parte das informaes da MUC. Os elementos da lngua corrente esto no centro da memria.

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Se voc sabe outra lngua, mas faz anos ou dcadas que no a fala, ter dificuldade de acess-la porque as informaes referentes a ela foram para a periferia, para a ME. Com o tempo, ao exercitar a lngua, voc trar os elementos dessa lngua novamente para o centro, para a MUC, e ter fluncia. 
      Todos os dados e experincias novas so arquivados na MUC atravs, como vimos, do fenmeno RAM. O fenmeno RAM atua essencialmente na MUC, na regio central do crtex cerebral. Por regio central quero dizer o centro de utilizao e resgate de matrias-primas para a construo de pensamentos, e no o centro anatmico do crtex cerebral. 
      Certa vez, um pai e um filho tinham um belssimo relacionamento. Trabalhavam e se divertiam juntos. Eram dois grandes amigos. O pai, infelizmente, teve um tumor na cabea do pncreas e logo veio a falecer. O filho, ficou perturbadssimo. Desenvolveu uma depresso reativa frente  perda. Perdeu pouco a pouco o encanto pela vida, o prazer de trabalhar, a motivao para criar. Quanto mais se angustiava pela ausncia do pai, mais produzia janelas com alto poder de atrao, que, consequentemente, agregavam novas janelas traumticas. Adoeceu. 
      Ao me procurar, expliquei-lhe esse mecanismo. Falei-lhe da masmorra das janelas duplo P construda no epicentro da MUC. E disse que seu Eu deveria sair da passividade e ser proativo. Deveria usar a perda no para se mutilar, mas para proclamar diria e continuamente que honrar a bela histria que teve com seu pai, que por amor a ele seria mais feliz, ousado e determinado. Superou-se. 

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      Um Eu lcido, que se torna autor da sua histria, no enfia a cabea debaixo do tapete das suas crises. Ele gerencia seus pensamentos e torna-se um excelente construtor de janelas light no centro da sua memria. Produz sua liberdade. Pais que perderam seus filhos, em vez de se sentirem os mais infelizes dos seres humanos, deveriam honrar a histria que viveram com eles. A dor pode ser indecifrvel, mesmo para os mais experientes psiquiatras, mas o Eu pode reescrever o centro da sua histria, pode voltar a se tornar um sonhador, pode construir um jardim depois do mais custico inverno. 
      A ME, ou memria existencial ou inconsciente, representa todos os extensos bairros perifricos edificados no crtex cerebral desde os primrdios da vida. So regies do inconsciente ou subconsciente que o Eu e outros fenmenos que constroem cadeias de pensamentos no utilizam frequentemente. Mas tais regies no deixam, em hiptese alguma, de nos influenciar. 
      Fobias, humor depressivo, ansiedade, reaes impulsivas, inseguranas, que no sabemos de onde vm ou por que vieram, foram emanadas da ME. A solido do entardecer ou do domingo  tarde, a angstia que surge ao amanhecer ou a alegria que aparece sem nenhum motivo aparente tambm vm dessas regies. 
      Uma pessoa que voc nunca viu na frente mas que lhe parece familiar, um ambiente onde voc nunca esteve mas que jura que conhece emanam dos imensos solos da ME. H milhares de personagens e ambientes semelhantes na periferia inconsciente que no so acessados pelo Eu. Quando fazemos uma varredura nessas reas e resgatamos 

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essas imagens, construmos complexas composies que parecem identificar pessoas e ambientes desconhecidos. No h nada de supersticioso nesse processo, embora o Eu tenha uma tendncia, uma atrao pela superstio e pelo sobrenatural. 


SEPULTANDO PESSOAS VIVAS E QUERIDAS 
      
      Quem forma a ME  a MUC. Todas as experincias adquiridas pelo feto, beb, criana, adulto, e que deixam de ser utilizadas de maneira diretiva e constante aos poucos so deslocadas da MUC para a ME, do consciente para as reas isoladas. Bons amigos, se no forem cultivados, vo para o ba da ME. Por vivermos numa sociedade ansiosa, tornamo-nos especialistas em sepultar pessoas vivas muito caras a ns. 
      H filhos que sepultam seus pais em sua memria. Quase no os visitam e, quando o fazem, nunca perguntam sobre as aventuras e lgrimas deles. Colocam-nos na periferia do seu psiquismo. Embora haja aqueles que esto sempre presentes, h pais separados que sepultam os filhos. Raramente os visitam e, quando o fazem, no penetram no mundo deles. Por inacreditvel que parea, tambm h muitos pais que, mesmo vivendo com seus filhos, os sepultam, mas, claro, no nas regies inconscientes da ME, pois diariamente os veem, mas nas regies escarpadas da MUC. Dividem a mesma casa, mas esto muitssimo distantes uns dos outros. No sabem chorar, se aventurar ou sonhar juntos. 
      Enquanto estava escrevendo este texto, minha filha Cludia, a mais nova, sempre muito amorosa, entrou em 

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meu escritrio e me deu um beijo prolongado na face. Interrompeu meu texto e disse que seu beijo iria me inspirar. Em seguida, pediu que almoasse com ela, mas eu estava num emaranhado de ideias. Disse-lhe que logo iria. Passados alguns minutos, ela, sentada  mesa, bradou para eu me apressar. Toda vez que escrevo, fico completamente concentrado e absorto. Rapidamente encerrei essas palavras e fui ter com ela. Afinal de contas, ela  preciosa demais para mim e sei que  muito fcil um pai superocupado enterrar seus filhos nos escombros de suas atividades. 
      H casais que se tornaram mquinas de trabalhar, sepultam o que jamais imaginariam que um dia enterrariam: o romance. Prometeram que na sade e na doena, na fortuna e na misria se amariam, mas se esqueceram de prometer que no excesso de trabalho tambm o fariam. Cito uma srie de acidentes entre casais no livro Mulheres inteligentes, relaes saudveis. 
      A ME se torna tambm um cemitrio dos sonhos. Adiamos projetos, esquecemos aquilo que nos toca e nos motiva. Quem voc sepultou? Quem voc precisa resgatar e trazer de volta para o centro da sua memria, a MUC? Que sonhos precisam ser reanimados? Eu preciso rever minha histria. Deixei pessoas caras pelo caminho, principalmente amigos, mesmo jamais querendo abandon-las. O excesso de ocupaes sempre conspira contra as relaes que ns mais amamos. 


MECANISMOS DE INTERAO 
      
      Onde esto as apreenses e os prazeres que vivenciamos no desenvolvimento fetal? Estiveram na MUC, no consciente, 

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hoje se localizam na ME, no inconsciente. Onde esto as aventuras, os medos, os riscos, as travessuras dos bebs e das crianas na primeira infncia? Tambm se deslocaram da MUC para a ME. Existe uma enorme dana ou um deslocamento da MUC para a ME e vice-versa. 
      Um exemplo. Uma professora atirou a prova de um aluno no cho por ele ter errado todos os dados. Ela errou muitssimo. O bullying na relao professor-aluno, pelas enormes diferenas de poder, traz consequncias gravssimas. Em vez de exaltar seu potencial, sua ousadia de escrever, ela o humilhou, plantou uma janela killer duplo P na MUC dele. O Eu do garoto leu e releu a atitude da professora constantemente e arquivou novas janelas, formando uma zona de conflito. 
      Os anos se passaram e nunca mais lhe foi confortvel fazer uma prova. Diante delas, acessava a zona killer, que produzia alto volume de tenso, que estressava seu crebro, levava-o a ter taquicardia e a suar frio e, pior ainda, bloqueava o acesso s janelas que continham as informaes que aprendera. Chorou sem derramar lgrimas. Tinha de estudar o dobro dos seus colegas para ter um desempenho intelectual mnimo. Pagou um preo altssimo. Muitos pensadores morreram no sistema escolar. 
      Formou-se na faculdade e logo conseguiu um emprego. Aparentemente no se lembrava mais do seu conflito, mas este no desapareceu. Deslocou-se da MUC para o inconsciente, a ME. Sem que seu Eu tivesse conscincia, essa zona de conflito passou a interferir na dinmica do processo de interpretao. Tornou-se gerente, mas no sabia gerir pessoas.

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No suportava ser contrariado e sempre reagia desproporcionalmente. Uma crtica tinha um impacto enorme. No administrava sua impulsividade. Pautava suas relaes pelo binmio bateu-levou. Seu Eu reagia sem pensar, no tinha ginga, flexibilidade. 
      Certo dia, escreveu um plano de negcios de que o presidente da empresa no gostou. Embora gostasse de seu gerente, esse presidente pegou o documento e na frente de outros gerentes o atirou sobre a mesa e, sem que tivesse a inteno, os papis foram parar no cho. O Eu dele no se interiorizou e desenvolveu um silncio proativo, no foi capaz de gritar dentro de si Agora  que vou fazer o melhor plano de negcio. Agora vou dar tudo de mim para surpreender meu presidente e os outros colegas. Mas no foi essa a sua atitude. 
      Ficou refm do seu passado. Detonou o Gatilho da sua memria, que abriu a zona de conflito da sua infncia, onde estava a atitude grosseira da professora. Trouxe seu conflito dos solos da ME para o centro da MUC. Sentindo-se aviltado, diminudo, perdeu o autocontrole. Levantou a voz e ofendeu o presidente. Perdeu o emprego. 
      As experincias com altos impactos dolorosos, como privao prolongada da me ou do responsvel, rejeies, abusos, humilhao social, podem gerar janelas poderosas, que estruturam a personalidade. Mas como a construo da MUC  dinmica, elas podem se deslocar para a periferia, para as regies inconscientes (ME), mas no se despedem jamais do hospedeiro, a no ser que sejam reeditadas. 

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      Sabe aquelas pessoas calmas que juramos que nunca perdero a pacincia mas que, de repente, por um estmulo estressante, se descontrolam, perdem a serenidade? Elas tinham janelas traumticas na ME em reas de difcil acesso e que no foram reeditadas. H um lado bom nessa histria. H algumas janelas na ME que no nos perturbam muito, so solitrias, no chegaram a formar zonas de conflitos, por isso s eclodem em situaes especiais. Felizmente, a MUC tem preponderncia na construo de pensamentos e emoes.  uma proteo no plena, mas, sem dvida, importante. 
      As janelas que formaram zonas de conflitos, bairros com centenas de janelas killer, ainda que no sejam resgatadas conscientemente, fornecem matrias-primas para o mau humor, preocupaes descabidas, medos inexplicveis, irritabilidade, timidez, obsesses, transtornos sexuais. 
      Uma pessoa portadora do mal de Alzheimer se lembra muito mais do passado do que do presente. Por qu? Porque a quantidade de informaes na ME  muitssimo maior do que na MUC. E tambm porque essas informaes foram arquivadas de mltiplas formas e em diversas reas ou janelas do crtex cerebral. Os dados da ME no foram apagados com o passar da idade, apenas estavam sublimados pelo acesso fcil  MUC. A degenerao cerebral atinge mais facilmente a ME, mas no  percebida, devido  sua grande extenso no crtex cerebral.  mais difcil ela atingir a MUC, pois, como eu disse, talvez seja menos do que 1% de toda a memria. Mas, quando atinge o Eu, este fica confuso, desorientado, perde os parmetros de realidade, a autoconscincia e a capacidade de identificar as pessoas que o rodeiam. 

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      A tcnica da teatralizao da emoo pode ser muito til.  fundamental elogiar, valorizar e teatralizar com palmas e gestos o sucesso de uma pessoa com comprometimento cerebral em responder e reagir, para que seu Eu forme tanto quanto possvel uma nova MUC ou seja mais eficiente em encontrar os endereos na cidade da memria que atravessou o terremoto de uma degenerao cerebral, tumor ou acidente vascular. Essa tcnica provoca o fenmeno RAM para formar novas janelas, resgata a autoestima do Eu como piloto da psique e pode at prevenir depresso. 


A CARGA GENTICA E O FETO 
      
      Em que estgio o ser humano deixa de ser vtima exclusiva da carga gentica e comea a desenhar a sua histria? A resposta  difcil. A partir da fecundao, se todos os cromossomos estiverem preservados, h uma carga gentica para construir um ser humano completo. Mas  a partir do primeiro trimestre de desenvolvimento embrionrio que o ser humano como fenmeno gentico comea a perder espao para se tornar um humano como fenmeno existencial. O fenmeno existencial se inicia a partir da concepo, mas  no final do primeiro trimestre, quando o crebro razoavelmente formado  um solo capaz de receber registros, que esse fenmeno se acelera. 
 nesse perodo de iniciao da fase fetal que a MUC comea a receber os estmulos existenciais e arquivar rpida e intensamente as experincias advindas da contrao da parede uterina, da viscosidade do lquido amnitico, 

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do estresse da me, dos malabarismos fetais. Tudo  registrado automtica e involuntariamente pelo fenmeno RAM na memria central ou MUC, mas ainda no  a memria consciente, pois o Eu ainda no est formado.  um simples, mas espetacular comeo. 
      Inmeras experincias so vivenciadas no tero materno. Tudo que no  acessado na MUC  deslocado para a formao da ME. Quando a criana nasce, talvez j tenha milhares de janelas com milhes de experincias nas duas grandes memrias existenciais. Mas devemos lembrar que os fatores genticos, como o grau de suportabilidade  dor,  sensibilidade e s pulsaes ansiosas do feto interferem na maneira como ele interpreta os estmulos dentro do tero materno e os arquiva. 
      Na infncia, juventude e vida adulta, a carga gentica continuar influenciando a construo de experincias. Mas se o ambiente educacional estimular as funes complexas da inteligncia, se o processo de formao da personalidade for saudvel e se o Eu for bem construdo como gerente da psique, a carga gentica no ter prevalncia, ainda que os pais tenham transtornos psiquitricos de fundo gentico. 
      No h condenao gentica em psiquiatria. Essa  minha convico. Pais portadores de depresso, obsesso, psicoses, psicopatias no condenam seus filhos a reproduzirem a mesma histria psiquitrica, embora possam influenciar seu desenvolvimento. H mais mistrios entre a influncia e a determinao gentica do que imaginam a nossa frgil psiquiatria e psicologia preventiva. 

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      Os maiores erros da psiquiatria e psicologia clnica foram investir mais de um sculo em tratamentos, mas pouqussimo em mecanismos preventivos. Esperar o ser humano adoecer para depois trat-lo  financeiramente caro e emocionalmente injusto. E no h como falar em preveno psicolgica sem passar pelos mecanismos de formao do Eu como gestor psquico, qualificador dos pensamentos, protetor da emoo, gerente do fenmeno da psicoadaptao, filtrador de estmulos estressantes, editor e reeditor das janelas da memria. 
      A preveno, que  a estrela da medicina biolgica, sempre foi colocada em segundo plano pela medicina psicolgica. Com muita humildade, digo que em todos os meus textos, inclusive em meus romances, fao um esforo intenso para produzir ferramentas preventivas. At mesmo quando abordo conflitos entre professor e alunos, crise na formao de pensadores, a formao de psicopatas, estou procurando fornecer ferramentas preventivas. O que me move no  fama, que  tosca, dbil e voltil, mas a contribuio, ainda que mnima, para a humanidade. 
      Fico felicssimo com mensagens frequentes que recebo de pessoas que reciclaram seus conflitos, que estavam beira do suicdio ou j tinham praticado diversos atos suicidas e aprenderam a estruturar seu Eu como gerente da sua psique. Livros jamais devem substituir o processo psicoteraputico e psiquitrico quando estes forem necessrios. Mas  fascinante descobrirmos que o Eu pode e deve usar ferramentas para deixar de ser vtima e se estruturar como protagonista da sua histria. 

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A EDUCAO SE INICIA NO TERO MATERNO 
      
      Toda vez que um feto ou um beb vivencia uma experincia existencial, como tocar o palato com seus dedos e ter prazer oral, o fenmeno RAM forma uma nova janela ou expande uma anterior. 
      Imagine um pai que acabou de atritar com a me grvida. Subitamente, o tero materno se contrai. O beb sofrer um impacto. Poder sentir um desconforto pelo corte sbito de prazer gerado pela contrao da musculatura uterina ou por uma descarga de metablicos estressantes que atravessou a barreira placentria. 
      Os educadores devem ter conscincia de que a educao no se inicia no tero familiar ou escolar, mas no tero materno. A me, em destaque, deve ter conscincia deque precisa preparar um ambiente saudvel e estvel durante a gravidez para que o fenmeno RAM do beb forme um grupo de janelas na MUC que subsidiar uma emoo tranquila, serena, sem grandes pulsaes ansiosas. 
      Citarei 12 atitudes pedaggicas das mes que podem contribuir para o desenvolvimento fetal saudvel e que refletiro no desenvolvimento da criana aps o nascimento: 
      1. Nutrir-se bem. 
      2. Dormir bem, no mnimo oito horas. 
      3. No fumar, nem tomar bebidas alcolicas ou usar outras drogas psicotrpicas. 
      4. Preservar-se de estmulos estressantes. A me no deveria entrar em disputas, atritos familiares, confrontos sociais. Deveria evitar ao mximo as brigas e discusses com o parceiro. 

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      5. Acariciar a barriga com frequncia, como se estivesse acariciando o beb em formao. 
      6. Cantar diariamente para o feto. O prazer e a tranquilidade da me so passadas de diversas formas para o feto, desde a presso do lquido amnitico e a contrao da parede do tero at as substncias que atravessam a barreira placentria. A me deveria continuar a cantar para o beb depois do nascimento e ao longo dos anos. A msica desacelera a agitao mental. Ensinar as crianas a cantar e desfrutar do universo das artes pode ser muito importante para a formao de um Eu tranquilo. 
      7. Conversar com frequncia com o beb. Ainda que o feto no entenda a mensagem intelectual, ele sentir a mensagem emocional da me. Aps o nascimento, a me, bem como o pai ou responsveis deveriam construir uma pauta de dilogo frequente. Mas, infelizmente, muitos pais s falam com seus filhos quando estes ainda no sabem falar. Depois que esses aprendem, eles se calam. O dilogo aberto  uma excelente matria-prima para a formao de janelas e pontes saudveis no relacionamento. 
      8. Passear por jardins, cultivar plantas, sentir o perfume das flores e contemplar o belo.  fundamental que, durante a gravidez, a me tenha atividades que excitem sua emoo e desacelerem sua ansiedade. Os pais ou responsveis deveriam tambm estimular as 

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crianas e os pr-adolescentes a descobrir o prazer nas pequenas coisas. Desse modo, o fenmeno RAM formar plataformas de janelas light na MUC que se deslocaro para a ME. 
      O resultado desse processo  um financiamento espontneo do bom humor, capacidade de se alegrar, contentar, satisfazer. Nunca se esquea de que um Eu rico no  o que tem muitos bens materiais, mas o que tem notvel prazer nas coisas mnimas. 
      9. Desenhar, pintar, reunir-se com amigos, contar histrias, fazer atividades ldicas e tranquilizadoras que induzam  introspeco.  fundamental que as mes durante a gravidez faam atividades que estimulem a arte da observao, interiorizao, relaxamento, imaginao e o pensamento abstrato. As crianas a partir do segundo ou terceiro ano tambm deveriam treinar sua emoo com esses exerccios. 
      10. Fazer planos para o beb e construir sonhos saudveis. A me deve fazer planos para o filho, libertar seu imaginrio para estimular sua emoo. O Eu das crianas tambm deve aprender a construir sonhos e saber que sonhos no so desejos superficiais ou consumistas, mas projetos de vida. 
      11. No se submeter ao crcere dos pensamentos pessimistas e mrbidos. Durante a gravidez, a me deve cuidar no apenas do meio ambiente social, mas tambm do meio ambiente de sua mente, pois ele interfere no meio ambiente uterino. O Eu das grvidas no deve ser passivo, subserviente, permissivo em seu psiquismo. Deve ser forte e gerenciador. Impugnar seus pensamentos perturbadores e discordar de tudo que a controla e asfixia sua tranquilidade. 

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      12. Realar a autoestima, sentir-se privilegiada, intensamente bela, e no deformada.  fundamental que as mes sintam-se bonitas, belas, encantadoras. Deveriam at proclamar-se assim. Para isso,  igualmente fundamental que aceitem as mudanas no seu corpo no como uma deformao que esmaga sua autoestima, mas como um presente de inigualvel prazer. A depresso ps-parto no decorre apenas de alteraes metablicas da me, mas da autoagresso e autopunio que ela impe a si mesma durante a gravidez. 
      
      Quando vemos bebs nos dias e semanas que se seguem ao nascimento agitados, irritadios, insones, ficamos atnitos sem saber as causas. O parto foi bem, a criana chorou ao nascer, mas, infelizmente, a me no realizou prticas pedaggicas adequadas. Claro que fatores genticos, fisiolgicos, metablicos ou at existenciais, alm do controle da me, podem ter contribudo para desenvolver esse comportamento. Mas jamais devemos esquecer que mes tensas, pessimistas, irritadias, inseguras, cobradoras, ciumentas, com baixa autoestima, produzem uma srie de estmulos que estressam seus bebs. 
      Crianas prematuras costumam, em tese, ser mais agitadas que a mdia dos outros bebs, pois a gravidez foi interrompida no pico das atividades, quando a criana estava se movimentando prazerosamente na piscina de lquido amnitico.

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No conseguiu se encaixar no colo uterino e aquietar seus movimentos no ltimo ms de gravidez. No conseguiu, portanto, se psicoadaptar, se preparar para o ambiente agressivo do meio externo. 


O COMPLEXO DESPERTAR DO EU 
      
      Na formao da memria do feto, o centro vai para a periferia da cidade da memria, e a periferia volta ao centro. Uma contrao uterina sbita num momento em que a me discutiu fortemente com seu parceiro foi arquivada na MUC do feto. Mas, se essa contrao no for mais reproduzida, poder ir para a ME. Todavia, semanas ou meses depois, se a crise materna se repetir, o feto poder detonar o Gatilho da Memria, resgat-la e traz-la novamente para a MUC. Poder ter um impacto emocional maior (medo, apreenso, insegurana) nessa segunda vez, pois dilatou o processo de interpretao. Formando, assim, janelas estruturais da personalidade. 
      O feto produz pensamentos, mas no tem conscincia de que pensa, no tem autoconscincia, embora j seja uma mente complexa. Seus pensamentos ainda no tm grande complexidade dialtica e antidialtica, no possui abstrao e reflexo, como estudaremos no prximo mecanismo de formao do Eu. O Eu se organizar como ser autoconsciente no tero social, aps assimilar, arquivar e utilizar bilhes de informaes. 
      A dana dos fenmenos inconscientes que Icem a memria, em destaque o fenmeno do Gatilho da Memria e o Autofluxo, e a dana das janelas entre a MUC e a ME no 

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feto e depois no beb e na criana propiciar um espetculo cada vez mais complexo da construo de pensamentos e imagens mentais, acelerando a estruturao do Eu. Precisaria de centenas de pginas para entrar em todos os textos inditos dessa rea contidos na teoria da Inteligncia Multifocal. 
      Em sntese, o feto, depois o beb e, posteriormente, a criana expandem a MUC e a ME num processo contnuo e incontrolvel. As janelas sero lidas e relidas formando pouco a pouco pensamentos que daro voz s necessidades instintivas (sede, fome), s necessidades afetivas (abrao, segurana, proteo, interaes). Aos poucos surgem a racionalidade mais complexa pautada pelas ideias, opinies, compreenso, autoconhecimento, dilogos e autodilogos. 
      O beb comea a dar respostas aos pais e a todos os estmulos ao redor, em especial pela ao do Gatilho da Memria. Sorri, brinca, faz festa, chora, se irrita. Um dos fenmenos mais belos do psiquismo humano e que demonstra o aceleramento da construo do Eu  a utilizao tempoespacial dos smbolos verbais para expressar a intencionalidade, uma ao ou vontade.  seu grande despertar. 
      No  o uso correto do tempo verbal que faz do Eu um brilhante engenheiro psquico, mas sua ousadia de considerar que a palavra expressar seus desejos, tambm  sua habilidade fenomenal de exercer a leitura multifocal das janelas e manipular dados subjacentes para expressar uma inteno e crer que o outro (pai, me ou responsvel) o compreender.  preciso para isso uma f ou crena que nem os religiosos mais ardentes j tiveram. A habilidade 

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do Eu de penetrar no escuro da mais complexa cidade, a cidade da memria, encontrar endereos, e acreditar que de fato os encontrou, usar smbolos lingusticos, e acreditar que os est usando adequadamente, para se expressar e se fazer entender,  surpreendente... 
      Tente encontrar objetos na sua casa quando a energia eltrica acabar. Ser uma tarefa difcil. Agora, tente encontr-los em endereos na periferia da cidade. No conseguir. Mas o Eu encontra tais endereos no insondvel psiquismo sem esbarrar em nada e tem certeza de que os encontrou. Qualquer linguista que estudar o processo de construo de pensamentos nessa perspectiva ficar embasbacado. 
      O adolescente e o adulto realizaro essas notveis tarefas milhares de vezes por dia, mas, como estamos drogados pela sociedade de consumo e asfixiados por uma existncia superficial e ansiosa, no conseguimos nos encantar com a engenhosidade do nosso Eu. No  sem razo que a autoestima e o prazer esto em nveis baixssimos na atualidade. Nunca tivemos uma gerao to infeliz tendo uma indstria to poderosa para excitar a emoo. 
      Para uma criana expressar para sua me, ainda que com a fonao truncada, que quer gua, inmeros fenmenos conscientes e inconscientes entram em ao. No foi apenas uma informao ou um ensinamento superficial que contribuiu para a construo desse pensamento, mas milhares de dados existentes em diversas janelas na MUC. 
      Veja algumas das complexas etapas em jogo. A sede, a conscincia da sede, a convico de que a sede emana da criana, a intencionalidade da ao com objetivo de satisfao,

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a focalizao do agente (a me) para quem a intencionalidade  dirigida, a expectativa de receptividade e recompensa. Em todas essas etapas, inmeras, janelas so abertas e lidas para confeccionar mltiplas cadeias de pensamentos. 
      A criana sacia sua sede de gua, e seu Eu sacia sua sede de nutrientes intelectuais, emocionais e sociais, pois novas janelas sero formadas durante todo o processo de construo da ao e do mecanismo de recompensa. 
      Algumas cadeias de pensamentos produzidas em todo o processo no sero verbalizadas. No ganharo sonoridade, por exemplo, os pensamentos que financiam a conscincia da sede, a convico de que a sede  pertinente  criana, a focalizao do agente, a expectativa da receptividade. Esses pensamentos so extremamente complexos, chamo-os de pensamentos antidialticos (imagens mentais). O que ganhar sonoridade ser o pensamento dialtico mame, eu quero gua, que  o menos sofisticado dos pensamentos. 
      Estudaremos isso. Mas  bom que saibamos que tudo que ouvimos dos outros ou tudo que falamos pertence  classe dos pensamentos mais pobres e restritivos. Os mais complexos ficam no silncio do psiquismo. Quando tentamos express-los, temos dificuldade de nos fazer entender. Da a expresso voc no me entende. 


O COMPORTAMENTO DOS BEBS 
      
      O beb nasce num ambiente altamente estressante por mais cuidado que se tenha. Logo nos primeiros momentos de vida,

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a histria intrauterina adquirida pelo beb afetar sua interpretao das mos indelicadas dos mdicos, dos cobertores speros dos beros, dos estmulos sonoros e visuais agressivos, da dor do instinto da fome, da fermentao dos alimentos no intestino. 
      O tero social ser sempre mais agressivo do que o tero materno, mas  nesse tero que o Eu deve se formar, se adaptar, crescer e deixar de ser vtima.  provvel que a maior fonte de estresse que ele enfrentar no venha das frustraes e dificuldades que normalmente ter de lidar, mas dessa sociedade agitada e ansiosa em que vivemos. A sociedade dos excessos. 
      Submeter as crianas a um excesso de informao e de atividade  quase um crime contra a formao de um Eu saudvel. As crianas da atualidade so superespertas, tm atitudes, respostas e reaes que as fazem parecer verdadeiros gnios. Seus pais tm orgulho de mostr-las. Eles no entendem que essa superinteligncia  frequentemente consequncia do excesso de estimulao e atividades a que so submetidas, que alargou demasiado a MUC e estressou excessivamente o Eu e o fenmeno do Autofluxo a construrem cadeias de pensamentos numa velocidade nunca antes vista. Isso gera a sndrome do pensamento acelerado e, consequentemente, uma mente estressada. 
      Meus livros tambm so usados em institutos de gnios para ajud-los a incorporar habilidades psicossociais para que se tornem saudveis, estveis, produtivos. O excesso de pensamentos em alguns gnios desgasta o crebro deles e asfixia a imaginao, a tranquilidade e a sociabilidade. 

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      Cuidado. Provavelmente, a maioria das crianas de sete anos das sociedades atuais tem mais informao do que um imperador romano tinha quando dominava o mundo no auge da Roma antiga. Informaes empilhadas de forma inadequada na MUC no subsidiam a construo de pensarnentos lcidos, altrustas, coerentes e teis para libertar o imaginrio. 


A DANA ENTRE A MUC E A ME 
      
      A teoria das janelas da memria pode contribuir tanto com a psicanlise como com a psicoterapia comportamental/cognitiva. Como estuda a base da construo de pensamentos, produz material que no compete ou substitui nenhuma delas. Toda psicoterapia, seja ela de fundo analtico, comportamental ou cognitivo, reorganiza em especial a MUC. 
      A psicoterapia comportamental/cognitiva intervm diretamente nas janelas traumticas ou na reconstruo de janelas light paralelas. Levando, por exemplo, uma pessoa que tem claustrofobia para dentro de um elevador. A exposio ao estmulo estressante e a consequente racionalizao pode reeditar a janela ou criar janelas paralelas saudveis. 
      Na psicanlise, procura-se resgatar com a tcnica de associao livre as janelas killer do inconsciente (ME) que financiam o conflito com o objetivo de reedit-las, o que  nobre. Entretanto, todo resgate psicanaltico do inconsciente, sua racionalizao e consequente superao so arquivados 

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pelo fenmeno RAM na MUC. Os conflitos, independentemente da tcnica psicoteraputica, no ltimo estgio so reciclados no consciente, ainda que depois retornem para a periferia da memria, o que  desejvel, pois a vida precisa seguir seu curso. 
 mais importante ter uma MUC saudvel do que uma ME saudvel, pois aquela representa o centro da cidade da memria, a rea de maior acessibilidade e circulao do Eu. Uma MUC saudvel pode contrabalanar o peso de uma ME ou memria perifrica doentia, embora, dependendo das janelas killer duplo P na ME, o psiquismo possa ser encarcerado, O ideal  ter as duas memrias profcuas. Mas enfatizo que quem teve uma infncia catica pode ter uma vida adulta primaveril, em especial se o Eu construir na MUC zonas de janelas light que produzam prazer, generosidade, tranquilidade, resilincia, onde as perdas e decepes so encaradas por outras perspectivas. 
      Crianas que tiveram histrias dilaceradas por abuso sexual, atos terroristas, sequestro, podem desenvolver uma emoo saudvel e, de outro lado, crianas que tiveram uma histria sem traumas podem desenvolver uma emoo ansiosa, tmida, fbica. Tudo vai depender da reedio das janelas traumticas da ME e, como disse, em especial da construo da MUC. Uma pessoa no precisa ter um passado saudvel sem traumas e privaes para ter um futuro razoavelmente saudvel. Se o Eu funcionar como autor da sua prpria histria e exercer com maestria seus papis vitais, ele transformar o caos em oportunidade criativa, far da sua memria de uso contnuo um jardim. 

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      A ME influencia muitssimo o Eu, mas grande parte dos nutrientes que financiam a arte da contemplao do belo, da autoconscincia, da capacidade de fazer escolha, proteger a psique, filtrar estmulos estressantes, bem como de pensar antes de reagir, imaginar, ousar, intuir, ser altrusta,  extrada da MUC. 
      A melhor maneira de reescrever o passado  reconstruir o presente. Devemos retornar ao passado apenas para recicl-lo, reorganiz-lo, mas no para nos fixarmos nele. Mas muitos tm um Eu saudosista, que se fixa nos fatos que j ocorreram, seja para se autopunir pela culpa, seja para reclamar o que perdeu. Reclamar e se culpar esgotam a energia do Eu, fragilizam-no como engenheiro do presente. Nada mais triste do que ser refm da histria e nada to prazeroso quanto ser um construtor de um novo tempo. 

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CAPTULO 5

AS CLASSES DE RACIOCNIO 

      O segundo grande mecanismo deformao do Eu est ligado s classes de raciocnio. A memria Gentica, Existencial e de Uso Contnuo, como primeiro mecanismo, representa os alicerces da formao do Eu, e as classes de raciocnio desenvolvidas, bem como os demais mecanismos que estudaremos, representam as construes que sero edificadas sobre esses alicerces. 
      As classes de raciocnio esto relacionadas ao contedo dos pensamentos e podem ser classificadas em raciocnio simples/unifocal, complexo/multifocal, lgico, abstrato, dedutivo e indutivo. Estudaremos nos prximos dois captulos fenmenos diretamente ligados aos tipos e  natureza dos pensamentos. De acordo com a Teoria da Inteligncia Multifocal, h trs tipos de pensamentos: o pensamento essencial, o dialtico e o antidialtico. O primeiro  inconsciente, e os dois ltimos so conscientes. Quanto  natureza 

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dos pensamentos, ela  classificada em real/essencial e virtual/imaginria. 
      Tudo o que eu abordar sobre as classes de raciocnio neste captulo tem estreita relao com as formas do pensar e a natureza do pensar. Como o assunto  extenso, me aterei mais ao raciocnio simples/unifocal e ao raciocnio complexo/multifocal. Quanto s demais classes de raciocnios, farei apenas uma sntese. Existem vrias sub-classes que sero estudadas no futuro em outros textos. Cada raciocnio  um construto. 


A PAUTA DO RACIOCNIO SIMPLES/UNIFOCAL E DO COMPLEXO/MULTIFOCAL 

      O raciocnio simples  produzido por pensamentos simples, que, por sua vez, usam uma base quantitativa e qualitativa limitada de dados e uma eficincia reduzida na organizao das informaes. Sua construo  linear, pautada pela ao-reao, estmulo-resposta, unifocalidade, por isso tambm  chamado de raciocnio unifocal. O raciocnio unifocal v os fenmenos por um nico ngulo, portanto atravs de um campo intelectual reduzido, enquanto o raciocnio multifocal abrange mltiplos focos e mltiplas formas de organizao dos dados, por isso ele pode ter baixa, mdia e alta complexidade. 
      Para se encaixar na categoria de raciocnio simples/unifocal, ele tem de ter a menor taxa possvel de inferncia, induo, intenes subjacentes, paralelismos, sentimentos subliminares, concluses multiangulares e a maior taxa 

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possvel de objetividade, lgica, linearidade. Para se encaixar na categoria de raciocnio complexo/multifocal, as taxas dos elementos citados devem se inverter. 
      O pedido/ordem de uma criana ao observar um brinquedo numa loja, mame, eu quero esse brinquedo, expressa um raciocnio simples, pois tem elevada taxa de objetividade, mas um pedido/pergunta/solicitao que diz mame, voc pode me comprar esse brinquedo?,  um raciocnio que tende  complexidade, pois tem significativa taxa de subjetividade e inferncia, decorrentes de rpida e sofisticada anlise dos seus limites e da necessidade de concordncia da me. A quantidade de janelas abertas e a qualidade da organizao dos dados so muito maiores no raciocnio complexo/multifocal. 


AS GRITANTES DIFERENAS ENTRE O RACIOCNIO UNIFOCAL E MULTIFOCAL 

      No raciocnio simples/unifocal, enxergam-se somente as prprias necessidades. No complexo/multifocal, coloca-se no lugar dos outros e tambm enxerga-se as necessidades deles.
      No raciocnio unifocal, a felicidade dos outros no afeta a minha emoo,  a fonte do egosmo. No raciocnio multifocal, contribuir com a felicidade do outro irriga a minha prpria felicidade,  a fonte do altrusmo. 
      No raciocnio unifocal, enxergam-se apenas os seus prprios direitos; no multifocal, enxergam-se tambm os direitos dos outros. 

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      No raciocnio unifocal, desencadearam-se guerras, genocdios, homicdios, excluso social. No raciocnio multifocal, desencadearam-se as luta pela igualdade, fraternidade e liberdade. 
      No raciocnio unifocal, h uma liberdade sem limites; no complexo/multifocal, enxerga-se que s h liberdade dentro de certos limites. 
      No unifocal, procura-se o prazer a qualquer custo; no multifocal, procura-se o prazer que preserve a vida. 
      No raciocnio unifocal, liberta-se o instinto e fere-se quem nos feriu; no multifocal, liberta-se a generosidade e se pensa antes de reagir. 
      No raciocnio unifocal, toda ao provoca uma reao; no multifocal, toda ao provoca a razo/ato de pensar. 
      No raciocnio unifocal, ama-se a resposta; no multifocal, ama-se a orao dos sbios, o silncio proativo. E, nesse intrigante silncio, liberta-se a arte da pergunta: quando?, por qu?, como?, ser que no h outra forma de pensar e reagir?. 
      No raciocnio unifocal, detestam-se os fracassos e ama-se o sucesso; no multifocal, tem-se plena conscincia de que ningum  digno do sucesso se no usar seus fracassos para conquist-lo. 
      No raciocnio unifocal, procuram-se o sorriso e os aplausos, mas, no raciocnio multifocal, sabe-se que o drama e a comdia, os aplausos e as vaias fazem parte da historicidade humana. 
      O raciocnio unifocal leva o Eu a ter a necessidade neurtica de estar em evidncia social; o raciocnio multifocal liberta o Eu para encontrar prazer no anonimato. 

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      O Eu unifocal quer ter o controle dos outros, o Eu multifocal sonha em ter de si mesmo o controle. 
      O Eu unifocal pune quem erra, o multifocal d sempre uma nova chance. 
      O Eu unifocal recita as ideias dos outros, o multifocal as cria. 
      O Eu unifocal obedece a ordens, o multifocal pensa pela empresa. 
      O Eu unifocal corrige erros, o multifocal os previne. 
      O Eu unifocal impe suas ideias, o multifocal as expe gentilmente. 
      O Eu unifocal recua diante do caos, o multifocal v nele uma oportunidade de iniciar uma nova etapa. 
      O Eu unifocal curte o fim da trajetria, o multifocal curte o processo. 
      O Eu unifocal precisa de muitos eventos para sentir migalhas de prazer, o Eu multifocal explora as insondveis riquezas das pequenas coisas. 
      O Eu unifocal  sequestrado pela ansiedade, o multifocal procura gerenci-la. 
      O Eu unifocal  vtima das circunstncias, o multifocal no abre mo de ser autor da sua histria. 
      O Eu unifocal pensa como indivduo, o Eu multifocal pensa como humanidade. 
      
 provvel que muitos jovens saiam das universidades com o Eu fragilizado, sem aprender a raciocinar com complexidade. Alguns s aprendem a raciocinar unifocalmente, 

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e por isso tm mentes radicais, estreitas, tmidas, com baixa capacidade de suportar contrariedades, de lidar com novas situaes ou de se reinventar. 
      O que determinar o nosso futuro profissional/social/emocional ser o desenvolvimento do raciocnio complexo, e no o raciocnio simples gerado pelas informaes no crtex cerebral, que foram reproduzidas unifocalmente nas provas. 
      Alguns tipos de prova escolar, em destaque as de mltipla escolha, podem fomentar o raciocnio simples! unifocal. O debate, a troca, a interao social, se praticadas, seriam mais estimuladoras do raciocnio complexo/multifocal. 
      As provas existenciais so muito mais exigentes do que as provas escolares. Nas provas escolares, dividir  sempre diminuir; nas existenciais, dividir pode aumentar. Nas escolares, os erros so punidos; nas existenciais, eles so os alicerces da maturidade. Nas escolares, ousar, emitir opinies e correr riscos so atitudes desencorajadas; nas existenciais, so essenciais. Nas escolares, colar  proibido; nas existenciais, transmitir o que se sabe  fundamental. Que tipo de prova nossos filhos esto preparados para realizar? Que tipo de Eu esto formando? 


AS CLASSES DE RACIOCNIO COMO MATRIA-PRIMA 
      
      O Eu usa o raciocnio simples/unifocal para executar tarefas, copiar dados, fazer solicitaes, realizar interaes corriqueiras. Embora todos os raciocnios, simples ou complexos, sejam produzidos por fenmenos sofisticadssimos, grande parte de nossas atividades mentais e sociais no necessita de pensamentos com contedos altamente complexos.

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Quem se perde num explicacionismo sem fim, quem se emaranha em detalhes, torna complexo aquilo que  simples, perde a objetividade 
      Qualquer criana, ainda que tenha alteraes genticas, como a Sndrome de Down, com preservao significativa do crtex cerebral, possui nos bastidores de sua mente atores inconscientes (o Gatilho da Memria e o Autofluxo) e um ator consciente (o Eu) que produzem raciocnios simples/unifocais. A ao contnua do fenmeno RAM forma as janelas na MUC e na ME com milhares de informaes, que sero lidas por esses atores. O Eu, em especial, l as janelas da memria, resgata verbos em fraes de segundos, os conjuga tempoespacialmente, insere um sujeito e outros elementos para produzir milhares de cadeias de raciocnios unifocais diariamente. 
      Raciocnios simples, portanto, so produzidos pela atuao de fenmenos sofisticados e no simplistas. Recorde que, como disse, um beb precisa de dinamismo intelectual e uma grande base de dados para seu Eu produzir um pensamento simples como mame, eu quero gua. Recapitule algumas das complexas etapas em jogo. A sede, a conscincia da sede, a convico de que a sede emana da criana, a intencionalidade da ao com objetivo de satisfao, a focalizao do agente (a me) para quem a intencionalidade  dirigida, a expectativa da receptividade e a consequente recompensa. Em todas essas etapas, inmeras janelas so abertas e lidas para confeccionar um raciocnio simples/unifocal Grande parte dos pensamentos que esto na base desse raciocnio no  traduzida por palavras, no ganha sonoridade, pois, como veremos,  antidialtica. Somente o pensamento dialtico, que copia a linguagem dos sinais,  expresso pelas palavras. 

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 medida que ocorre o processo de formao da personalidade,  necessrio aumentar a base de informaes para que o Eu possa l-las e utiliz-las para expressar as mltiplas intenes e aes tempoespaciais, como Amanh irei a tal lugar, Perturba-me este ambiente, Hoje tenho um compromisso, Voc pode realizar esse trabalho?, Por favor, sente-se aqui. 
      Para produzir raciocnios simples/unifocais, o Eu, como gerente da psique, l reas limitadas de janelas do crtex cerebral. Essa leitura pode causar vcios graves. O Eu pode se viciar em penetrar e ler de maneira reduzida, preguiosa, estreita, a MUC e construir pensamentos simples em atividades que exigem raciocnios complexos, como julgar, excluir, incluir, analisar sentimentos, trocar experincias. Pessoas irritadias, impulsivas, excessivamente crticas, extremistas, intolerantes, que detestam ser contrariadas, so viciadas em determinados circuitos de janelas. Tm grande potencial, mas reagem estupidamente como se fossem intelectualmente limitadas. 
      Se  necessria uma razovel quantidade de janelas para subsidiar a produo de raciocnios unifocais, imagine para subsidiar a construo dos complexos, como Senti-me ofendido por seus comportamentos. Talvez voc no tenha percebido, mas seu tom de voz muito mais do que o contedo das suas palavras machucou-me. 
      Mltiplos elementos esto em jogo nesse raciocnio. Vou comentar apenas a primeira parte dele Senti-me ofendido por seus comportamentos. O verbo senti-me expressa a conscincia do sentir e a relao existencial com meu prprio ser  sou Eu quem sentiu, e no milhes de pessoas.

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Ofendido expressa a conscincia da dor e sua relao temporal  senti-me ofendido, a ao j ocorreu e provavelmente ainda est em curso subliminar, embora as palavras no o declarem. Por seus comportamentos indica uma relao de causalidade objetiva e subjacente. Objetiva, porque apontei a causa, os comportamentos; subjacente, porque no expressei quais foram esses comportamentos, mas tenho a expectativa de que o agente ofensor faa um mapeamento da sua histria, detecte os comportamentos a que me refiro, assuma que os produziu e que eles geraram consequncias no territrio da minha emoo. 
      S nessas etapas da construo da primeira parte desse pensamento complexo milhares de janelas foram abertas em mim e muito provavelmente no outro, processando dezenas de milhares de informaes. Um rob poder dizer a mesma coisa, a diferena  que suas palavras teriam um centmetro de profundidade, e a de um ser humano, rios subterrneos. 


O EU PODE VICIAR SUA LEITURA DO CRTEX CEREBRAL 

      Que tipo de raciocnio voc usa quanto entra em atritos? O seu Eu faz a orao dos sbios, pensa antes de reagir ou ataca quem o atacou? E quando algum o decepciona? O seu Eu raciocina multifocalmente, coloca-se no lugar do outro e entende que por trs de uma pessoa agressiva h uma pessoa agredida em sua histria ou dispara seu julgamento e o exclui da sua agenda social? E quando necessita mudar de rota?

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Voc tem coragem de comear tudo de novo ou vai at as ltimas consequncias, mesmo que l no fundo saiba que est errado? 
      Todos ns temos um Eu viciado, em maior ou menor grau, em ler reas restritas da MUC e da ME nos focos de tenso, seja por sermos prisioneiros das janelas killer, seja por no desenvolvermos habilidades para ampliar o campo de leitura da memria e consequentemente superar o crcere do raciocnio simples/unifocal. 
      No basta ter uma base maior de dados, um crtex cerebral com bilhes de dados, se o Eu no desenvolveu a capacidade para acess-los e organiz-los. Sem essas habilidades, um crebro culto no produzir uma mente madura. Como disse e reafirmo, j foi o tempo em que ser gnio era ter uma excelente memria, uma capacidade de armazenamento espetacular. Hoje, qualquer computador tem melhor capacidade de armazenar ou pelo menos de acessar os dados que o mais brilhante dos gnios. Ns nos diferenciamos das mquinas fundamentalmente pelo raciocnio complexo/multifocal, e no pelo raciocnio simples/unifocal. 
      No apenas drogas podem viciar o Eu, mas os circuitos de leitura da memria tambm, O Eu, dependendo da educao a que  submetido, vicia-se na construo de pensamentos com estreitas dimenses intelectuais, emocionais, sociolgicas, filosficas, O senso comum sabe que cada pessoa tem uma ndole, s que no sabe que essa ndole so os vcios de leitura da memria, O senso comum acredita que a ndole no muda. Mas, em tese, o ser humano no  imutvel. Acredito nisso no apenas como humanista, mas tambm como pensador da rea. 

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 possvel romper esse crculo vicioso de leitura e reorganizar o psiquismo. Difcil? Sim, mas possvel. Depende de o Eu aprender a ser transparente, desenvolver um raciocnio abstrato, reconhecer sistemtica e continuamente seus erros, reeditar o filme do inconsciente e ser protagonista da sua histria. 
      Exemplos de vcios de leitura da memria, a) Uma pessoa impulsiva no suporta ser contrariada, tem um Eu dependente de algumas janelas do crtex cerebral. Reage pela pauta da razo unifocal, bateu-levou. b) Uma pessoa dissimuladora, especialista em no assumir seus comportamentos, quando questionada, seu Gatilho da Memria entra em zonas de conflito e ela mente com a cara mais deslavada, Seu Eu  viciado em pensar unifocalmente, tem medo de ser transparente, no leva em considerao as consequncias do seu comportamento nem a dor dos outros. c) Uma pessoa portadora de fobia, diante de determinado estmulo fbico, se torna refm de uma determinada janela killer prvia. 
      Toda vez que viciamos a leitura num determinado grupo de janelas da memria reduzimos a complexidade do nosso raciocnio, contramos de maneira simplista a interpretao de um objeto de estudo, que pode ser uma coisa ou pessoa. Muitos cientistas, artistas, esportistas, destoem sua criatividade depois de alcanarem o sucesso por causa dos vcios de leitura dos circuitos da memria. Contraem a capacidade de arriscar-se, aventurar-se, debater, imaginar. Se voc teve sucesso em determinadas reas, cuidado, o risco de um engessamento intelectual inconsciente  grande. 
      Existem circuitos de leitura da memria que determinam especialidades da inteligncia, como descritas na teoria das 

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inteligncias mltiplas de Howard Gardner: inteligncia musical, interpessoal, lgico-matemtica, etc. Mas as especialidades podem trazer srios riscos. Se o Eu no ampliar o territrio de leitura para desenvolver habilidades fundamentais, um ser humano, especialista numa rea, pode tropear vexatoriamente em outra. Devemos ser especialistas com vis generalista. 
      Certa vez orientei um grande esportista mundial a potencializar e resgatar a liderana do Eu, reeditar o inconsciente, superar alguns conflitos e se tornar autor da sua histria. Era brilhante, mas as leses fsicas o levaram a arquivar janelas psquicas traumticas duplo P, que sequestravam sua autoconfiana, determinao e habilidade. As crticas e sua autocobrana o invadiam. Reafirmo: toda pessoa que atinge o pice pode se psicoadaptar a ele e levar o Eu a se viciar em determinados circuitos de janelas, dificultando o acesso a reas que contm aventura, ousadia, rebeldia ao crcere da mesmice. 
      Como ele tinha uma mente brilhante, entendeu que, primeiramente, se ganha o jogo no complexo campo da prpria mente, e s depois na arena esportiva. Compreendeu que o Eu deve sair das raias da passsividade, identificar as janelas que o controlam, proteger sua emoo, administrar sua ansiedade e ser lder da sua psique nos focos de estresse. Como era disciplinado, fez exerccios intelectuais continuamente para deixar de ser servo e se transformar no autor da sua histria. E conseguiu. Nada  to belo e relaxante quanto alcanar essa meta. 
      Os aplausos, reconhecimentos e a notoriedade levam inconscientemente o Eu a procurar zonas de segurana para 

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preservar o sucesso, o que engessa sua flexibilidade, rebeldia, inventividade. Essa zona de segurana  evidenciada por duas coisas: reas restritas de leitura da MUC e uso excessivo do pensamento dialtico/previsvel, que  traduzido pelo raciocnio lgico/linear. Estudaremos que o pensamento antidialtico/imprevisvel transgride a mesmice, liberta o imaginrio e fomenta a criatividade. No  exagero dizer que 90% do raciocnio humano  bloqueado pela educao simplista-unifocal-lgica do Eu. 
      Um psiquiatra ou psiclogo clnico que quer enfiar o paciente na sua teoria no est exercendo o pensamento complexo, mas sim o simplista. H histrias de professores de psicologia, psicanalistas ou cognitivistas radicais que dizem aos seus alunos que a teoria que abraaram  a top e as demais so irrelevantes. Eles no sabem que a verdade  um fim inatingvel na cincia, desconhecem as classes dos raciocnios e as variveis que entram no seu processo de construo e menos ainda as armadilhas que podem ocorrer nos mecanismos de formao do Eu. 
      A pedagogia do radicalismo  grave. Tem chance de formar psiclogos que no desenvolvero um raciocnio complexo/multifocal no set teraputico, mas um pensamento simples/unifocal, levando-os a enquadrar radicalmente os pacientes na teoria que abraaram, desrespeitando a individualidade e a variabilidade da personalidade de cada paciente. O paciente sempre ser maior do que uma teoria psicoteraputica.  a teoria que deve servir ao paciente, e no ele  teoria. O Eu de um psiquiatra ou de um psiclogo clnico tem de ser livre e maduro para pensar com complexidade, para se colocar no lugar do paciente e dar 

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ferramentas para que o Eu dele se reorganize e reconstrua sua histria. 


ERROS DE UM EU ENCARCERADO/ESTRESSADO 
      
      Cimes, atritos, discrdia, raiva, mgoas e medos so com frequncia frutos de mentes estressadas, equipadas para pensar sem complexidade. Um Eu viciado em construir raciocnio unifocal poder transformar uma barata num monstro, uma frustrao numa experincia inaceitvel, uma traio em dio mortal. Os piores inimigos do Eu no esto frequentemente fora dele, e sim nas emboscadas existentes em seus mecanismos construtivos. 
      Uma pessoa que tem autoconscincia slida e habilidade para aumentar a base de leitura da memria jamais vender sua dignidade e tranquilidade por um preo vil. Se algum a quem ela ama a trai ou frustra, lhe d liberdade para partir sem vingana e sem grandes mgoas. No existem pessoas intelectualmente limitadas, mas mentes estressadas e viciadas em raciocinar de maneira estreita e unifocal. 
      Um professor que, ao analisar a prova dos seus alunos, s d nota em funo da repetio dos dados objetivos est exercitando o pensamento simples/unifocal, e no o complexo/multifocal, pois est desconsiderando a inventividade, o raciocnio esquemtico, o imaginrio e a ousadia deles. Sua atitude contribui para formar repetidores de ideias e no pensadores. Pode contribuir inclusive para destruir gnios. 
      Lembro-me de uma jovem especial que tirou zero numa redao. Ser que apenas o esforo intelectual de participar 

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no valia alguma nota? O raciocnio dela era to limitado que no merecia ser minimamente considerado? Que base se usa para aferir dados subjetivos de uma redao? Para mim, ela era inteligente, inventiva, ousada, mas levou um zero do seu professor, uma punio to grave como uma humilhao pblica. Ela chorou, achou-se incapaz e plantou no centro da sua memria uma janela killer que poderia abortar sua criatividade. Mas a encorajei a reescrever sua histria, a desenvolver inmeros raciocnios complexos/multifocais para libertar seu imaginrio, deixar de ser escrava dessa punio, libertar-se do seu conformismo, O resultado? Superou-se. Hoje ela  uma brilhante escritora. H pouco tempo a vi dar uma conferncia para 1.800 professores, e todos a aplaudiram de p. Frequentemente, ela discute com notveis intelectuais suas ideias e  muitssimo admirada. Mas quantos alunos morrem intelectualmente na trajetria escolar. 
      Pais que so especialistas em criticar os comportamentos de seus filhos, mas so incapazes de perguntar as causas que financiam suas reaes e de dialogar abertamente e trocar experincias com eles, tm mais aptido para formar servos do sistema social do que autores da sua prpria histria. Tais pais podem detestar as drogas e ter medo de que seus filhos as usem, mas no sabem que o seu Eu tem um grave vcio, o da crtica e das respostas prontas e previsveis. Voc tem esse vcio? 
      Executivos que controlam seus pares e no exploram seu potencial, bem como mulheres e homens que so extremamente controladores de seus parceiros tm um Eu encarcerado 

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pelo raciocnio unifocal. O raciocnio multifocal no domina ningum,  generoso, doador, apoiador. 
      Em casos mais graves, o pensamento simples/unifocal, ancorado em janelas killer duplo P que contm extremismos, radicalismos, insensibilidades, pode financiar o desenvolvimento de ditadores, sociopatas, psicopatas, cujo Eu tem a necessidade neurtica de poder, de estar acima dos outros e de que o mundo gravite na sua rbita. O autoritarismo no nasce no solo de uma racionalidade complexa, mas simplista. Por mais poderoso que um ditador possa ser no terreno social, ser sempre frgil em seu psiquismo. 


O RACIOCNIO INDUTIVO E DEDUTIVO 
      
      O raciocnio dedutivo usa a anlise sequencial para tirar concluses e fazer avaliaes. Ele  fundamental na produo cientfica. Quando o raciocnio dedutivo  lgico-matemtico, ele est menos sujeito a erros, mas no isento. Quando  psicossocial, pode estar sujeito a muitas falhas. Em situaes complexas, o raciocnio dedutivo tem uma abertura de janelas maior do que o raciocnio simples/unifocal porque  sustentado por uma capacidade de observao multilateral dos dados, 
      Deixe-me dar um exemplo. Se eu digo: Um garoto comprou 12 laranjas e chegou em casa com oito. Essa expresso  um raciocnio unifocal, declara o personagem (o garoto), os objetos (as laranjas), a ao tempoespacial (chegou em casa). E o raciocnio dedutivo, onde se encontra? Ele entra em cena quando abrimos algumas janelas da 

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memria e deduzimos que, se o garoto comprou 12 e chegou em casa com oito laranjas, logo perdeu quatro. 
      E o raciocnio indutivo, onde se encontra? Vai alm da imagem das laranjas. O Eu amplia o nmero de janelas abertas e questiona as verdades dedutivas: se o garoto chegou com oito, pode no ter perdido nenhuma. Mas como? Pode ter chupado duas, doado uma para um amigo e ter jogado outra fora porque estava podre. O raciocnio indutivo amplia o leque de possibilidades, questiona a lgica imediata, transgride os paradigmas. O raciocnio dedutivo tem muita afinidade com o pensamento dialtico, e o indutivo, com o pensamento antidialtico. 
      Hitler usava o raciocnio simples/unifocal para exterminar judeus, homossexuais, marxistas e outras minorias. Sua mente insana usava dados falsos para deduziu suas concluses dbeis. Para ele, seus inimigos contaminavam a raa ariana superior, logo concluiu que tinham de ser exterminados. 
      Ele disse num discurso: Nenhuma personalidade militar ou civil poderia me substituir, Aps esse raciocnio simplista/unifocal verbalizado com voz imponente para seus asseclas ou seguidores, que o endeusavam, afirmou: Estou seguro da fora do meu crebro e da minha capacidade de deciso. E alicerado nessa autoconfiana psictica, concluiu: As guerras nunca devem terminar a no ser pela capacidade de total aniquilamento do adversrio... [1. FEST, Joachim, Hitler Nova Fronteira, Rio Janeiro, 25.] Fiel ao seu raciocnio delirante, ele levou a guerra at as ltimas consequncias. No apenas exterminou milhes de pessoas das mais diversas naes, mas tambm levou a juventude 

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alem a um verdadeiro suicdio, mesmo quando sabia que era um fraco. 
      No dia 14 de maio de 1934, um alemo fascinado por Hitler escreveu uma pea teatral, Irmos de Sangue, que seria encenada pelos meninos hitleristas. 
      Seu raciocnio simplista/unifocal apontou Hitler como messias  O Fhrer foi enviado pela misericrdia de Deus. No apenas para a Alemanha Tambm para outras naes!. Se Hitler  uma espcie de messias, deduziu: Somos profetas do Fhrer. E vamos acabar com as religies! Podemos construir as pontes para o futuro da Alemanha, que nossos filhos olhem, orgulhosos, para o alto!. 
      O raciocnio unifocal/dedutivo foi e tem sido a fonte das grandes tragdias humanas. No livro O Colecionador de Lgrimas versus Hitler, um romance histrico-psiquitrico a ser publicado em breve, comento esse raciocnio nazista e suas inimaginveis atrocidades. Ele pode adestrar mentes frgeis. Himmler, que era o todo-poderoso chefe da polcia secreta SS, a tropa de elite de Hitler, a mesma que controlava com incrvel severidade os campos de concentrao, era uma mente adestrada. Tremulava na frente de Hitler. No tinha um raciocnio complexo/multifocal, mas unifocal, dedutivo, servial. 
      O problema  que, quando se usa uma base de dados errada, as dedues podem ser completamente irracionais. Diante dessa anlise, devemos nos perguntar: os colegiais e os universitrios esto desenvolvendo coletivamente o raciocnio complexo/multifocal/indutivo? Tm eles um Eu que possui conscincia dos seus papis vitais? Esse Eu  

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gerente de seu psiquismo? Tm conscincia das classes de raciocnio? Qualificam sua racionalidade? So questionadores das verdades ideolgicas e cientficas? Sabem colocar-se no lugar dos outros? So altrustas? Pensam antes de reagir nos focos de estresse? Tm resilincia para trabalhar e superar suas angstias e frustraes? 


O RACIOCNIO ABSTRATO 
      
      O raciocnio abstrato  a classe de raciocnio mais ntima e introspectiva do Eu. Ele envolve a classe multifocal e indutiva, mas o classifico separadamente devido  sua arquitetura e prxis especfica. , ou deveria ser, a ferramenta intelectual bsica do Eu para conhecer a si mesmo, se interiorizar, se observar e se mapear. Como abordarei extensa- mente o raciocnio abstrato no captulo sobre o mecanismo da autoconscincia, aqui apenas farei uma sntese dele. 
      J manifestei em um dos meus livros que, quanto pior a qualidade da educao, mais importante ser o papel da psiquiatria e da psicologia. Infelizmente, como a educao mundial foca o exterior, alm de perder oportunidades educativas preciosas, contribui indiretamente para formar pessoas doentes.  quase inacreditvel que alunos fiquem tantos anos sentados nas escolas sem serem ensinados sobre as classes dos pensamentos.  inconcebvel tambm que no aprendam a exercitar o raciocnio abstrato, que  imprescindvel para a preveno dos transtornos psquicos e para a formao do Eu e dos seus papis vitais. 

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      Como o Eu far uma higiene mental, proteger a emoo, gerenciar a ansiedade, reciclar o poder dos pensamentos mrbidos e dos fantasmas do medo se ele no sabe desenvolver minimamente o raciocnio abstrato? As crianas, os adolescentes e universitrios no sabem sequer que tm um Eu que deve dar um choque de lucidez em seus pensamentos perturbadores e emoes angustiantes. No se admite que os alunos joguem o lixo na carteira e no cho, mas nos silenciamos sobre o lixo psquico que acumulam. Parece que os pensamentos e emoes doentias no nos infectam. Sinceramente, espero no ser uma voz solitria no teatro social, que cada vez mais se levantem profissionais de todas as reas apontando esses paradoxos e declarando que a humanidade tomou o caminho errado. 
      No basta desenvolver um raciocnio abstrato,  necessrio desenvolv-lo saudavelmente. Pelo menos dois teros das pessoas apresentam sintomas de timidez, uma parte delas desenvolve um raciocnio abstrato doentio que gera uma introspeco inadequada, que gera baixa autoestima e que, por sua vez, desestabiliza a emoo, no gerencia os pensamentos, no abranda a ansiedade. 
      Dentre tais pessoas, algumas se punem frequentemente, no admitem seus erros, so algozes de si mesmas, acham-se sempre incapazes e indignas de ser felizes. So generosas com os outros, mas excessivamente crticas consigo mesmas. Outras, ao contrrio, punem os outros, so miserveis e infelizes, pois vivem em funo deles. So especialistas em apontar os erros das pessoas que as rodeiam, mas nunca os seus. Ainda outras acham frequentemente que os outros - falam delas e tramam contra elas, isso porque o seu Eu tem 

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ideias paranoicas ou de perseguio. So capazes de manipular as pessoas ao seu redor, de mostrar que so vtimas de determinados algozes. No comeo, por serem persuasivas, conseguem arrebatar mentes inocentes, mas pouco a pouco caem em contradio. 
      Todas essas pessoas, ainda que tenham excelente potencial para brilhar e se reciclar, tm defeitos na construo do Eu. O Eu coloca-se como servo dos conflitos delas, e no como autor da sua histria. A introspeco inadequada  uma bomba contra a sade psquica.  cultivadora de janelas killer duplo P, que contraem a sociabilidade, o prazer de viver, a capacidade de filtrar estmulos estressantes. 
 provvel que a maioria das pessoas que desenvolve um raciocnio abstrato no o desenvolva de maneira saudvel. Veja os contrastes. Muitos sabem falar com exatido sobre as partculas atmicas e subatmicas, mas no estruturaram seu Eu para falar minimamente das montanhas dos seus medos e temores, nem dos penhascos que aliceram suas angstias. Outros descrevem com detalhes os mais variados tipos de carro, suas marcas, modelos e particularidades do motor, mas no conseguem falar nada sobre as particularidades de sua mente, sobre como constroem seus pensamentos e por que sofrem por antecipao. Ainda outros, preocupados com sua segurana, fazem todo tipo de seguro, mas no sabem segurar minimamente sua mais importante propriedade, o territrio da emoo. Qualquer estmulo estressante ou contrariedade os leva aos vales da irritabilidade e da agressividade. 

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      Mas essas pessoas mudaro ou continuaro eternamente complicadas e complicando a vida de quem as rodela? J vi pessoas se levantarem das cinzas aps desenvolver um raciocnio abstrato saudvel. J presenciei psicopata aprendendo a se interiorizar e ter atitudes altrustas. Raro? Sim, mas possvel. Claro que um psicopata cair fatalmente em depresso se entrar em contato com seus dramticos erros e aprender a se colocar no lugar das suas vtimas. E sua dor asfixiante no ser ruim, mas um estgio necessrio para seu Eu se reciclar e se reorganizar, caso contrrio estar simulando, ficar intocvel. 
      Como veremos no prximo volume desta obra, muitos no superam seus conflitos e no mudam sua histria emocional porque seu Eu no  transparente, tem medo de entrar em contato com seus erros, infantilidade, radicalismo, agressividade. Seu Eu, por ser vtima da necessidade neurtica de se defender, no olha para si, no  transparente, esquiva-se ansiosamente da dor emocional, fica, portanto, imutvel. 
      A meditao, a espiritualidade e em destaque as tcnicas psicoteraputicas, podem ajudar na formao do raciocnio abstrato. Mas, de acordo com a teoria da Inteligncia Multifocal, so necessrios outros importantes nutrientes: doses elevadas de uma educao inteligente, que conduza o educando a conhecer os mecanismos de formao do Eu, e o desenvolvimento e treinamento dos seus papis vitais. 
      O raciocnio abstrato contribui para desenvolver o Eu, e, depois de formado, o prprio Eu se torna uma fonte excelente dessa classe de raciocnio. No  possvel viajar para dentro de ns mesmos de maneira inteligente e velejar nas 

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guas da emoo de maneira saudvel sem desenvolver um raciocnio abstrato penetrante. Navegar  preciso; estressar-se e afogar-se, no. 


TRS TCNICAS PEDAGGICAS PARA EXPANDIR O RACIOCNIO MULTIFOCAL/INDUTIVO/ABSTRATO 
      
      A pedagogia da cultura geral. Ela expande a qualidade das janelas da MUC. Uma MUC restrita diminui a fluncia do raciocnio, a interao social, o prazer do dilogo e do debate. De outro lado, uma MUC extremamente alargada pelo excesso de informao, consumo, atividades e preocupaes gera uma mente agitadssima, fatigada, esquecida, irritadia, flutuante, impaciente, caracterizada pela sndrome do pensamento acelerado. A maioria dos jovens e adultos cai nesses extremos. 
      Uns, por terem medo de se expor e serem socialmente alienados, enfim, por terem uma MUC limitada, se isolam em seu mundo, tm uma mente lenta. Outros, por serem plugados em computadores, internet, consumo, e se entulharem de informaes sem qualidade, ou seja, por terem uma MUC superexpandida, no relaxam, desenvolvem uma mente superestressada. 
      Para se ter uma MUC qualitativamente expandida deve-se selecionar as informaes, O crebro humano no  depsito de dados. Suas janelas no so ilimitadas, o que indica que cultura intil estressa a mente. Deve-se ler livros e jornais impressos que tenham qualidade. Particularmente, acho muito importante ler jornais que abordem muito 

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mais do que miserabilidade social, que comentem a agenda social local, o movimento dos povos, os grandes temas internacionais, as artes, os esportes. 
 estranho que muitos jovens no saibam com detalhes o que est acontecendo no mundo. Desconheam os conflitos no Oriente Mdio, a crise econmica mundial, o aquecimento global, a insegurana alimentar. Parece que vivem em outro planeta. Formar apenas especialistas que s saibam cada vez mais sobre cada vez menos pode ser perigoso. Pode comprometer a construo do raciocnio multifocal! indutivo/abstrato e contrair a liberdade do imaginrio e a produo de novas ideias.  necessrio formar especialistas que tenham cultura geral. 
      Alguns cientistas no sabem falar de nada alm dos temas da sua rea de pesquisa. Alguns religiosos no sabem discorrer sobre nada alm da sua religio. Alguns polticos no tm outro assunto a no ser comentar sobre a prpria ideologia, eleies e polticos que esto no poder. Contraram o centro mais importante da memria, a Memria de Uso Contnuo, que liberta o Eu e financia a sociabilidade, o prazer do dilogo e da criatividade. Por isso s se relacionam com seus pares, pois s eles os suportam. Ainda que sejam pessoas notveis, possuem, como comentei, um Eu viciado em determinados circuitos cerebrais. 
      
      A pedagogia da arte da dvida. A arte da dvida  uma ferramenta que leva o Eu a explorar, abrir o subsolo da psique e as reas mais nobres da MUC ou regio central da memria, e da ME ou regies perifricas. Essa nobilssima ferramenta leva o prprio Eu a questionar sua interpretao

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dos eventos da vida, reciclar suas verdades, revisar Seus paradigmas, expandindo a complexidade do seu raciocnio. 
      Quem comear a usar sistematicamente essa ferramenta tem grande possibilidade, uma semana depois do seu uso, de expandir em pelo menos 20% o seu raciocnio multifocal/abstrato/indutivo. Faz-se necessrio no apenas o Eu se autocriticar e se reciclar, mas tambm questionar-se de diversas formas sobre um assunto ou fenmeno antes de dar uma resposta. 
      No basta ter cultura se, como eu disse, ela  inacessvel para o Eu viciado em ler reas estreitas da memria. Conhece pessoas cultas, mas que so pouco sociveis, que no podem ser questionadas ou contrariadas? Ter empilhado milhes de tijolos, cimentos, pisos no crtex cerebral no quer dizer ser um bom engenheiro de pensamentos. 
      
      A pedagogia da crtica. Cultura geral  importante, e a arte da dvida  excelente, mas  fundamental usar a tcnica da pedagogia da crtica. A arte da dvida alarga o territrio de leitura da memria, e a arte crtica refina o processo de leitura, processa os dados. A arte da dvida abre o leque de possibilidades do pensamento, e a arte da crtica qualifica e organiza essas possibilidades. Essas duas artes so dois grandes papis do Eu para reciclar o lixo acumulado na MIJC e ajardin-la, plantar flores no centro da memria que nutre a primavera emocional. A arte da dvida amplia a produo de conhecimento, a crtica o elabora, o aplica e o leva mais longe. 

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      A crtica nos tira da condio de espectadores passivos e nos transforma em atores do processo de construo das ideias. Certa vez dei uma conferncia num congresso de pesquisa e ensino. Comentei com os alunos de graduao e ps-graduao que quem no aprender a desenvolver um raciocnio abstrato e multifocal/indutivo e no utiliz-lo para repensar suas verdades, o contedo dos seus livros e os ensinamentos dos seus professores ter grande chance de ser servo, e no construtor do conhecimento. 
      Estimulados pela preleo, muitos universitrios e mestrandos vieram conversar comigo, dizendo que queriam um dia reciclar os paradigmas das universidades e alavancar o processo de formao de pensadores. Foi um bom comeo. Alegrei-me com aqueles rebeldes. Descobriram que, no brevissimo palco da existncia, se intimidar na plateia no  a atitude mais saudvel. O Eu tem duas grandes responsabilidades histricas: reciclar a sua histria e reciclar, tanto quanto possvel, a histria social. 

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CAPTULO 6 

OS TIPOS DE PENSAMENTOS

Os PENSAMENTOS DIALTICOS, ANTIDIALTICOS E ESSENCIAIS 

      As classes de raciocnio simples/unifocal, complexa/multifocal, indutiva, dedutiva e abstrata utilizam os tipos de pensamento para se expressar, se expandir ou se contrair. Os tipos ou formas de pensamentos so, portanto, um importante mecanismo de construo do Eu. Us-los inteligente ou desinteligentemente traz uma srie de consequncias para a criatividade, soluo de conflitos, capacidade de reao, qualidade das relaes sociais e intrapsquicas. 
      Algumas pessoas, inclusive intelectuais, podem estranhar a afirmao de que os pensamentos tm formas distintas. Imaginam que s existe um tipo de pensamento para ler, escrever, falar, se expressar. De acordo com a teoria da 

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inteligncia Multifocal, h trs tipos de pensamentos: o pensamento essencial, o dialtico e o antidialtico. 
      Aqui mora uma das clssicas armadilhas que deformam a estruturao do Eu. Professores transmitem milhes de informaes para que seus alunos aprendam a pensar, mas raramente tiveram a oportunidade de pensar sobre o material bsico fundamental da educao, o prprio pensamento (classes, tipos, natureza), e o resultado do processo educacional, o Eu. Nesse processo, as chances de o Eu no ser bem formado so grandes; de no conhecer seus papis vitais, so maiores ainda; e de no saber como intervir no seu psiquismo e nas relaes socioprofissionais, tambm. Em minha opinio, a educao do sculo XXI exige essas respostas. 
      Brilhantes tericos da psicologia, como Freud e Jung, usaram o pensamento como produto pronto para produzir conhecimento e desenvolver teorias sobre o processo de formao da personalidade, dos transtornos psquicos e de aprendizagem. O que atualmente vem completar e atualizar essas e outras teorias  o estudo do processo de construo de pensamentos, sua natureza e formas. Quais so os limites, alcances e validade do conhecimento? No estou me referindo ao levantamento de dados, anlise e metodologia da pesquisa. Refiro-me aos fenmenos que edificam o conhecimento na mente do pesquisador, a validade desse conhecimento e as armadilhas que ele encerra. 
      O pensamento expressa a verdade? Essa  uma grande questo. E o que  a verdade? Essa  outra grande questo, O conhecimento que um psicoterapeuta produz sobre 

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um paciente  a matria-prima do prprio terapeuta ou do paciente? A psicologia  uma das mais belas cincias, mas faltou estudar os tijolos bsicos que aliceram toda a sua complexa produo de conhecimento, que so os prprios pensamentos. Errar nessa rea  faclimo. 
      Perdi a conta de quantas vezes me perguntei como penso?, o que penso?, que fenmenos constroem os pensamentos?, qual sua natureza e validade?. Perdi a conta de quantas vezes fiquei confuso e me senti apenas um pequeno aprendiz com sede de conhecimento sobre o conhecimento. Foi e tem sido uma bela aventura. A melhor maneira de tratar o nosso orgulho no  tentar ser humilde, mas descobrir nossa ignorncia. A humildade s  consistente como reconhecimento concreto de nossa pequenez. Tive belas noites de insnia nesses 30 anos de produo terica. 


USAMOS  EXAUSTO UMA MATRIA-PRIMA QUE DESCONHECEMOS 

      Pais usam o pensamento como ferramenta fundamental para educar de acordo com sua cultura, religio, cdigo de tica, experincia de vida. Executivos usam o pensamento para conhecer sua empresa, as limitaes e vantagens competitivas dos seus produtos, o potencial dos funcionrios. Mas provavelmente nem um, nem outro usa o pensamento para desvendar o prprio pensamento. 
      Doutores defendem teses, professores ensinam seus alunos, todos usam a cada instante os pensamentos. Mas sua natureza  real ou virtual? So produzidos de maneira 

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pura ou sofrem inmeras contaminaes? Os pensamentos so confiveis ou inconfiveis? Podem ser usados para fundamentar a verdade ou so destitudos de realidade? O Eu incorpora a essncia intrnseca do objeto pensado ou vive numa solido insupervel? Questes vitais. 
      Embora este captulo estude as formas ou tipos de pensamentos, e, no posterior, a natureza deles, gostaria de me antecipar e dizer que os pensamentos conscientes no so reais/concretos, mas virtuais. Usamos os pensamentos com uma alta taxa de confiabilidade, um status que eles no merecem. Eles, por incrvel que parea, no incorporam a realidade do objeto pensado. Alm disso, so produzidos com mltiplas contaminaes e, por isso, jamais poderiam ou deveriam servir como matria-prima para fundamentar a verdade irrefutvel. Afirmo, portanto, que tanto intelectuais como iletrados, tanto escritores como crticos literrios, tanto professores como alunos, tanto lderes religiosos como fiis, tanto psiquiatras como pacientes usam frequentemente o pensamento sem conhecer as inumerveis armadilhas na sua forma, natureza e construo. Todos ns cometemos erros finos e grosseiros sem o saber. 
      Nenhum cozinheiro de bom-senso usaria matrias-primas que desconhece para fazer seus pratos. Mas o Eu, como cozinheiro da mente humana, desconhece as matrias-primas que utiliza para julgar, criticar, excluir, se irritar, dialogar, entender, sofrer, amar. Por desconhecer os instrumentos de navegao da aeronave mental, o Eu tem possibilidade de ser um piloto imaturo, e, por desconhecer as matrias dos nutrientes psquicos, tem possibilidade de ser um mau cozinheiro do conhecimento. 

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      Exemplo: o orgulho. Uma celebridade pode achar-se acima dos mortais, apenas porque est em evidncia social. Um poltico pode acreditar que  dotado de poder apenas porque est na liderana social. Um multimilionrio pode se considerar autossuficience, achar que pode comprar o que quiser e que no precisa de nada nem de ningum. Todos foram trados pela sua superficialidade intelectual, por desconhecer que os pensamentos que financiam seu orgulho so irreais, produzidos por mecanismos que eles no controlam e contaminados por uma srie de variveis inconscientes. S temos a tendncia de ser deuses por desconhecermos o funcionamento da mente que nos torna humanos... 
      Se h uma rea do conhecimento que pode mudar o modo como interpretamos a existncia e enxergamos a ns mesmo  o processo de construo de pensamentos. Estud-lo  fundamental para entendermos outro processo, o processo de formao de pensadores. Um pensador que pensa como pensa entender que as diferenas nos alicerces do psiquismo entre ricos e miserveis, religiosos e ateus, intelectuais e alunos so mnimas. 


AS FORMAS DE PENSAMENTO 
      
      O pensamento dialtico e o antidialtico so as duas formas fundamentais de pensamentos conscientes. Cada um deles tem mltiplas subformas. Eles representam a matria-prima primordial das mais variadas classes de raciocnio, das simples s complexas, das dedutivas s indutivas, das lgicas s abstratas. 

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      Os pensamentos dialticos e antidialticos so os tijolos do conhecimento. Todo conhecimento que produzimos sobre ns mesmos, nossos medos, angstias, prazeres, intenes, segundas intenes, e sobre o mundo social, nossos filhos, amigos, atividades profissionais, bem como sobre nosso corpo e sobre o universo fsico  expresso atravs dos pensamentos conscientes dialticos e antidialticos. 
      H outro tipo fundamental de pensamento, o essencial. Ele  inconsciente e est na base da formao do pensamento dialtico e antidialtico. Na realidade, ele  o primeiro resultado da leitura da memria. Quando o Gatilho da Memria abre uma janela no crtex cerebral e posteriormente o Eu ou o fenmeno do Autofluxo a l, o primeiro resultado que ocorre, em milsimos de segundos, no  a produo do pensamento dialtico ou o antidialtico, mas a do pensamento essencial. Antes de surgir um pensamento consciente que expresse medo ou alegria, lucidez ou estupidez, aparece o pensamento essencial, que  inconsciente. 
      O dialtico e antidialtico, como estudaremos, so virtuais, e o virtual no pode surgir ao acaso. Ele tem de ser produzido por uma base real, e essa base  o pensamento essencial. Como o mundo dos pensamentos  um assunto que geralmente suscita dvidas, at mesmo quando dou aulas para alunos de ps-graduao, usarei uma metfora que pode ser reveladora para explicar as formas de pensamentos. Imagine uma pintura contendo rvores, lago, casa e montanhas, O que representam nela os pensamentos essencial, dialtico e antidialtico? 
      O pensamento dialtico  a descrio do quadro e o antidialtico  a forma das rvores, as dimenses e cores do lago,

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o estilo arquitetnico da casa, a anatomia das montanhas. Todo discurso, tese, sntese, sobre o quadro representa a classe dos pensamentos dialticos. O pensamento antidialtico, por sua vez, representa o corpo das imagens que contemplamos sem a descrio.  a arquitetura que agride e encanta os olhos, as nuances, as linhas gerais, o pano de fundo. Lembre-se de que o pensamento dialtico  menos complexo e profundo que o antidialtico. Ambos so as duas formas de pensamento consciente. 
      E o pensamento essencial, inconsciente, como  representado no quadro?  o pigmento da tinta, todas as molculas e tomos que foram pincelados e impregnados na tela. A tela representa a psique, ou mente, O pensamento essencial gera o dialtico e o antidialtico. 


O QUE SO E COMO SE FORMAM OS PENSAMENTOS CONSCIENTES? 
      
      O pensamento dialtico  produzido na infncia atravs do processo de mimetizao ou cpia sistemtica dos smbolos da linguagem, por isso pensamos  semelhana de uma voz inaudvel. O fenmeno RAM tem de arquivar milhes de palavras para formar milhares de janelas na MUC. O Eu, paulatinamente, comea a utilizar os smbolos sonoros arquivados e a aplic-los nas mais diversas situaes tempoespaciais. Desse modo, a criana comea a pensar dialeticamente em seu psiquismo e pouco a pouco coordena o aparelho de fonao para se expressar verbalmente. Este aparelho se torna um mero instrumento para canalizar a complexa produo dialtica de pensamentos. 

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      Como o pensamento dialtico  formado de um jogo de smbolos lingusticos lgicos e, portanto, reproduzveis, tudo que se relaciona a ele tem tambm de ser um jogo de smbolos, caso contrrio, neutraliza-se a compreenso. Por isso, os textos de leitura, o dilogo interpessoal, as atividades profissionais, a conduo de um carro, a operao de um computador so tramas lgicas de smbolos. E as pessoas sem audio? Como se forma nelas o pensamento dialtico? A sistematizao do simbolismo ocorre pela linguagem dos sinais ou linguagem libras. 
      Aprender a ler  aprender a linguagem dos smbolos. Interpretar a leitura  outra histria, depende de uma abertura muito maior de janelas da memria e entra na esfera do pensamento antidialtico, a mais complexa forma de pensar. H pessoas que repetem informaes como computadores, parecem notveis, mas so ingnuas, no inferem, no enxergam alm dos fatos, nem tm qualquer flexibilidade para lidar com situaes novas. Sabem pensar dialeticamente, mas no antidialeticamente. 
      O pensamento antidialtico, diferentemente do dialtico, surge espontaneamente no psiquismo sem a necessidade de interveno educacional. A educao, entretanto, pode enriquec-lo ou contra-lo. E, infelizmente, como veremos, normalmente o contrai. 
      O pensamento antidialtico, como o prprio nome indica,  antilgico, antilinguagem, antissimblico.  o pensamento que alicera as mltiplas formas de imaginao, percepo, intuio, abstrao, induo, anlise multifocal. Todos os pensamentos mais complexos precisam ter elevadas

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doses de pensamento antidialtico, embora eles nunca se expressem adequadamente no palco da linguagem. Esse palco pertence ao pensamento dialtico. As palavras no traduzem com justia os conflitos e a dor psquica. Por isso no  simples o tratamento psicoteraputico. O paciente tem de traduzir o intraduzvel. O senso comum sabe que mil palavras no traduzem uma imagem. 
      O pensamento dialtico surge no tero social, mas o antidialtico j est presente na mente do feto. No h ainda imagens mentais, mas h um rico imaginrio, induzido e estimulado atravs das leituras das janelas que contm as experincias fetais. Quem l essas janelas? Como vimos, os dois fenmenos inconscientes: Gatilho da Memria e Autofluxo. 
      Quando a criana nasce e comea a ter contato com o mundo das imagens fsicas, o pensamento antidialtico comea a ser excitado e estimulado por elas. Por isso nosso imaginrio se traduz frequentemente por imagens mentais. Atravs do pensamento antidialtico, imaginamos o futuro, resgatamos o passado, construmos personagens nos sonhos. 
      E as pessoas com deficincia visual total? Pensam por imagens? Elas tambm possuem um riqussimo imaginrio, embora este no seja estimulado pelas imagens fsicas, O imaginrio delas  fluido, multifocal, multiangular, surpreendente. Algumas pessoas cegas referem que at sonham colorido, sem nunca ter contemplado uma cor. Sua produo de pensamento antidialtico pode ser mais rica do que os que tm a viso preservada, devido  poluio visual a que estes so submetidos. Hoje em dia, o excesso de imagens 

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produzidas pela TV e pela internet pode comprometer e muito a criatividade. 
      Artistas plsticos, escultores, ficcionistas, costumam ter uma rica produo de pensamentos antidialticos, para produzir sua arte mas nem sempre dialtica. Por isso no  comum que sejam bons oradores. Pessoas tmidas, devido  sua introspeco, tambm tm frequentemente uma razovel produo de pensamentos antidialticos, mas, diante de plateias, ocorre uma contrao na produo dialtica. 


UM PENSADOR 
      
      Toda vez que falamos, discutimos, descrevemos, estudamos, estamos usando o mais lgico e bem formatado dos pensamentos conscientes, o dialtico. Embora seja o mais manipulvel, no  o mais amplo e complexo dos pensamentos conscientes. 
      O processo de formao de pensadores exige a utilizao no apenas do pensamento lgico-dialtico, mas em destaque o antilgico-antidialtico. A matria-prima que diferencia mentes comuns de mentes brilhantes  o pensamento antidialtico. Os pensadores, ainda que no tenham estudado as formas de pensamentos conscientes, aprenderam a usar intuitivamente o pensamento antidialtico para enxergar por mltiplos ngulos os fenmenos que presenciavam, bem como para questionar seus paradigmas e as verdades cientficas. Enfim, usaram-no para desenvolver o raciocnio multifocal/indutivo/dedutivo/abstrato. 

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      Como  difcil explicar o pensamento antidialtico, sua sofisticada imaginao, pois a explicao  frequentemente dialtica, no poucos desses pensadores foram tachados de loucos, insanos, estranhos. Einstein no brilhou como aluno nem como professor universitrio. Suas notas sem destaque e sua oratria frgil eram expresses solenes das dificuldades de produo dialtica. Foi trabalhar numa firma de patentes para sobreviver, um lugar que poderia ser um cemitrio para sua inteligncia. 
      Mas algo que certamente j havia se iniciado antes aconteceu naquela firma de patentes: ali ele foi perturbado, instigado, provocado pelo pensamento antidialtico. Seu Eu exercitava continuamente essa forma rebelde e transgressora de pensamento, embora no tivesse conhecimento cientfico dela. Saa das raias do pensamento lingustico e via-se sentado num raio de luz observando o que acontecia com o tempo e o espao. Loucura? Sim, loucura de um Eu que libertou sua imaginao, insanidade de um pensador. No  sem razo que ele intuitivamente acertou ao dizer que  mais importante a imaginao do que a informao. 
      Quem usa excessivamente o pensamento dialtico tem grandes chances de repetir conhecimentos, aplic-los, mas raramente de cri-los. Professores, executivos, arquitetos, psiclogos, mdicos que so demasiadamente lgicos, dialticos, contraem sua criatividade. Veem o mundo unifocalmente, e no multifocalmente. Libertar o imaginrio  essencial em todas as atividades profissionais. At nos romances. Casais excessivamente lgicos comeam com beijos e flores e terminam digladiando-se num frum. 

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 provvel que Einstein, logo aps ter-se formado, tivesse, em termos quantitativos, menos cultura de matemtica e fsica do que a maioria dos fsicos e matemticos da atualidade. No  a quantidade de tijolos que determina a beleza e sofisticao de uma construo, mas a inventividade de um engenheiro ou arquiteto. Com 27 anos, ainda imaturo, o jovem Einstein produziu os pressupostos bsicos da teoria da relatividade. 


OS ERROS DA EDUCAO MUNDIAL 
      
      Usando a metfora da pintura, o Eu no sabe exatamente como l a memria, como os pigmentos de pinturas emocionais e intelectuais (pensamentos essenciais) so formados e como o pensamento dialtico e o antidialtico so construdos a partir deles, pois so processos completamente inconscientes. Apesar disso, manipula com uma destreza incrvel fenmenos que esto alm dos seus limites de compreenso. 
      Um exemplo. Tente sair de olhos vendados de onde est e, sem nenhum apoio, procure encontrar a casa de um amigo que est num bairro do outro lado da cidade. Realize essa tarefa sem esbarrar em nenhuma parede, carro ou pessoa. Uma tarefa quase impossvel. Mas, ento, como entramos na cidade da memria, que  mais complexa que todas as cidades juntas, e encontramos os endereos em bairros to distintos dos tijolos que constituem nossos pensamentos? E como juntamos e reorganizamos esses tijolos em fraes de segundos? S no fica deslumbrado com essa cadeia de fenmenos quem nunca desenvolveu um raciocnio abstrato 

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mnimo para penetrar em camadas mais profundas da sua mente. 
      Quem se arriscou a entrar em seu psiquismo ficar assombrado com a complexidade existente. Ter vontade de conversar com as pessoas nas ruas, explorar seu inimaginvel mundo psquico. Enxergaro que os mendigos, os doentes mentais, os annimos sociais so seres humanos fascinantes, planetas incrveis a serem explorados. Voc tem essa vontade? Apesar de ter dezenas de milhes de leitores e ser publicado em muitos pases, jamais perdi essa vontade. Acho que cada ser humano esconde segredos admirveis, mesmo quando tropea, claudica e recua. Escrevi o livro O Vendedor de Sonhos com essa perspectiva. Conta a histria de uni multimilionrio que perde tudo e sai  procura de si mesmo. Nessa trajetria, ele encontra os miserveis da sociedade e fica simplesmente deslumbrado com cada um deles. 
      As mdias esto doentes, pois exaltam uma minoria em detrimento da complexidade da grande maioria. Induzem a formao de um Eu que se deprecia, perde a prpria rbita e se torna facilmente manipulvel. Os ditadores precisam do culto  celebridade, mas uma sociedade saudvel precisa de mentes livres. 


AS ESCOLAS VICIAM O EU NA CONSTRUO DOS PENSAMENTOS DIALTICOS 
      
      A educao mundial, por desconhecer os mecanismos de formao do Eu e as formas do pensamento, vicia a mente 

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das crianas com o mais pobre e restritivo deles, o pensamento dialtico, ainda que seja importante para desenvolver o raciocnio lgico, realizar provas, se comunicar. 
 possvel que, se no trabalharmos a inteligncia das crianas, elas percam a ousadia, a criatividade e at a espontaneidade. Muitos pais tm orgulho de falar sobre a imaginao e rapidez de raciocnio de suas crianas pr-escolares, mas, com o passar do tempo, silenciam sobre elas. No veem mais sua notoriedade. J observaram esse triste filme? Esses pais no notam que est ocorrendo uma contrao do pensamento antidialtico e uma substituio pelo dialtico, diminuindo o imaginrio. 
      O Eu controlado pela agenda escolar lgico-dialtica, em especial a partir do ensino fundamental, asfixia o desenvolvimento das habilidades que so produzidas pelo pensamento antidialtico e pelo raciocnio multifocal/abstrato, como a ousadia, o altrusmo, a flexibilidade, a autoconscincia, a resilincia.  uma perda irreparvel. 
      Em tese, os professores e diretores de escolas no tm culpa desse processo. A culpa  das polticas educacionais que produzem uma grade curricular engessada, que desconhece a multifocalidade e multiangularidade das formas do pensamento e as classes de raciocnio. Com o objetivo de preparar seus alunos para receber um diploma e exercer uma profisso, eles utilizam o pensamento mais manipulvel, formatado, fcil de examinar e fcil de reproduzir nas provas. Os mecanismos de formao do Eu ficam em segundo plano. 
      Claro que se devem transmitir as informaes com maestria, ensinar as matrias fundamentais e preparar bem 

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os alunos para uma profisso, mas jamais deveramos abrir mo das tcnicas pedaggicas que estimulam a formao do Eu imaginativo, criativo, livre, generoso, capaz de dar respostas originais em situaes estressantes. Educar , em primeiro lugar, formar um ser humano, em segundo, um profissional. Quem inverter essa ordem poder comprometer o futuro da humanidade. E quantas escolas na sia, Europa, Amrica, frica e Oceania a invertem? 
      Ser os melhores alunos da classe nem de longe garante sucesso emocional, intelectual, social e profissional, pois so necessrias habilidades antidialticas, Quem educa o pensamento antidialtico pode formar no apenas um ser humano saudvel e inteligente, mas tambm um profissional brilhante, O pensamento antidialtico  uma fonte de produo de novas ideias, um manancial para a construo at do pensamento lgico-dialtico. 
      Os professores devem se preparar didaticamente, reciclar seu conhecimento e teatralizar sua fala para poder encantar seus alunos, abrir as janelas da memria deles e provocar sua capacidade de concentrar e assimilar o conhecimento dialtico. Mas  preciso avanar. A seguir enumerarei dez tcnicas psicopedaggicas que so passveis de serem aplicadas em sala de aula para estimular a produo do pensamento antidialtico e expandir as melhores classes do raciocnio. 
      1. Estimular o debate de ideias e aplaudir as opinies e a expresso do pensamento de cada aluno. A participao  to ou mais importante do que o acerto das respostas. 

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      2. Interromper por cinco a dez minutos a aula curricular uma vez por semana e contar um captulo da histria existencial dos professores. Falar das dificuldades, perdas e aventuras que viveram. Antes de serem mestres de uma rea, os professores devem ser mestres da vida. 
      3. Contar as histrias dos pensadores durante sua produo de conhecimento, sua paixo pela cincia, rejeies e ousadias. 
      4. Estimular os alunos a contarem suas histrias, pelo menos aquilo que for possvel. As trs tcnicas acima contribuem para construir uma plataforma de janelas light na MUC que estimula a produo do pensamento antidialtico, que promove o processo de formao do Eu e alicera o desenvolvimento da sociabilidade e da resilincia, que  a capacidade de administrar perdas e frustraes. Todo esse processo melhora indiretamente o rendimento intelectual dos alunos. 
      5. Transmitir o conhecimento, pelo menos em alguns momentos, de maneira ldica e colocar msica ambiente em volume baixo na sala de aula para diminuir os nveis de ansiedade e estimular o prazer de aprender. O conhecimento assimilado com tempero antidialtico/emocional  arquivado de maneira privilegiada. 
      6. Ensinar usando metforas: imagens, ambientes, paralelismos. 
      7. Estimular o Eu dos alunos a proteger a emoo ensin-los a se doar sem esperar excessivamente o retorno e a entender que, por trs de uma pessoa que fere, h algum ferido. 

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      8. Estimular o Eu deles a gerenciar seus pensamentos: ensin-los a pensar antes de reagir e a expor, e no impor, as suas ideias. 
      9. Incentiv-los a olhar os fenmenos fsicos, psquicos e sociais por mltiplos ngulos, para ultrapassarem os limites do raciocnio unifocal e desenvolverem um raciocnio complexo/multifocal. 
      10. Estimul-los a pensar como espcie, atravs do exerccio de se colocar no lugar dos outros,  uma fonte excelente de pensamentos antidialticos que financia os alicerces mais notveis do raciocnio complexo/multifocal/indutivo/abstrato. 
      
      Essas tcnicas, se exercitadas sistemtica e cotidianamente, revolucionam o microcosmo da sala de aula, abrem o leque da inteligncia dos alunos e estimulam o processo de formao de intelectos brilhantes. 
      Os educadores tm o futuro da humanidade em suas mos, as crianas e os jovens. Tm a possibilidade de lavrar o solo de suas mentes, atravs de uma educao dialtica/antidialtica profunda, para que eles desenvolvam um Eu capaz de gerenciar a ansiedade, filtrar o estresse e ser altrusta para no adoecerem e serem tratados pelos psiquiatras! psiclogos, para no cometerem crimes e serem denunciados pelos promotores, para no amarem guerras e serem arregimentados pelos generais. 
      Como psiquiatra e pesquisador da mente humana, considero os professores to fundamentais que me curvo diante deles. No  exagero dizer que sem a educao e sem os 

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educadores nossos oceanos emocionais no teriam porto, nossas primaveras sociais no teriam flores e nossas aeronaves mentais no teriam plano de voo. 
      A educao familiar  igualmente fundamental no processo de formao de mentes saudveis. Mas estou particularmente preocupado que nessa sociedade altamente ansiosa e consumista a grande maioria dos pais no esteja conseguindo transferir seu capital intelectual/emocional para seus filhos. Transferir esse capital  transferir experincias existenciais bsicas para a prxima gerao,  transferir janelas light poderosas no psiquismo dos filhos que contenham ousadia, superao, garra, resilincia, autonomia, para que desenvolvam um Eu saudvel e inteligente, capaz de sair da esfera de proteo de seus pais e construir sua prpria histria. 
      Para realizar essa transferncia, os pais deveriam mudar sua agenda dialtica, deixar de ser apenas um manual de regras de comportamento e se transformar num manual de vida e de educao antidialtica. Deveriam cruzar seus mundos, falar das suas lgrimas para os filhos aprenderem a chorar as deles; deveriam abrir os textos da sua existncia e falar das suas perdas, angstias e dificuldades para seus filhos entenderem que drama e comdia, sucesso e fracasso fazem parte da historicidade de cada ser humano. 
      Pais que conseguem transferir apenas sua herana e seu sucesso social e no seu capital intelectual/emocional tm grande chance de gerar filhos com um Eu imaturo, inseguro, destitudo de ousadia e flexibilidade, que se tornaro 

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dissipadores do seu sucesso e torradores da sua herana. O capital financeiro e o sucesso no tm grande durabilidade, mas o capital das ideias se renova ao longo da existncia, cria razes diante das tempestades e sobrevive a elas... 

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CAPTULO 7 

A NATUREZA VIRTUAL DOS PENSAMENTOS

A SOFISTICADSSIMA NATUREZA DA CONSCINCIA 

      Estudamos as classes bsicas do raciocnio e os tipos ou formas dos pensamentos, agora estudaremos o mais complexo dos mecanismos de construo do Eu: a indecifrvel natureza dos pensamentos e, consequentemente, da conscincia existencial. A natureza dos pensamentos interfere muitssimo no progresso, alcance, qualidade, maturidade, eficcia do Eu. 
      Qual a distncia entre um pensamento dialtico e antidialtico e um objeto pensado? Entre, por exemplo, o que um pai pensa de um filho o que este realmente ? Fisicamente, a distancia entre eles pode ser de alguns metros, mas em relao  natureza dos pensamentos ela  infinita, 

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intransponvel. Qual a distncia que separa a mente de um psiclogo clnico da de um paciente depressivo? Suas poltronas podem ser separadas por um curto espao, mas as duas mentes vivem em dois mundos completamente distintos. Os seres humanos vivem em universos paralelos por causa da natureza virtual da conscincia existencial. Parece que entendemos as ideias, emoes, sonhos, pesadelos dos outros, mas o fazemos a partir de ns mesmos, pois vivemos em mundos mais distantes do que imaginamos. 
      Pais e filhos, professores e alunos, executivos e funcionrios, psiclogos e pacientes vivem numa solido muito maior do que acreditam ou sentem. Mas no me refiro  solido social,  solido do abandono fsico ou do autoabandono, mas sim  solido gerada pela natureza virtual dos dois tipos de pensamento consciente, o dialtico e o antidialtico. Chocante, mas potico. Espantoso, mas necessrio. 
      Estamos prximos, mas infinitamente distantes das pessoas. A virtualidade dos pensamentos pode nos abalar, mas sem ela jamais seramos uma espcie pensante, no desenvolveramos uma conscincia existencial tempoespacial, nunca resgataramos o passado e menos ainda pensaramos no futuro. Somente na esfera da virtualidade os pensamentos conscientes se libertam da realidade concreta e partem para as raias da imaginao. 
      Construmos nos sonhos ricos ambientes e personagens. Isso s  possvel devido  natureza virtual e plstica dos pensamentos conscientes. O passado  irretornvel, e o futuro  irreal, mas resgatamos o passado e nos alegramos ou nos culpamos com esse resgate, e construmos fatos 

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futuros, e somos estimulados ou amedrontados com essa construo. E novamente essa habilidade s  possvel pela fluidez indescritvel da conscincia virtual. 
      Se voc fizer uma viagem e se afastar dos seus filhos e amigos, poder recordar-se deles em seu psiquismo, lembrar-se de fatos e circunstncias que viveram juntos. Se o pensamento tivesse a necessidade vital de incorporar a realidade do objeto no ato de pensar, no seria possvel imagin-los, porque seria preciso t-los substancialmente na mente. A conscincia virtual libertou o psiquismo humano para ter virtualmente as pessoas, se relacionar, conversar, recordar decepes e alegrias. 
      Se no houvesse essa liberdade criativa e essa plasticidade construtiva na esfera da virtualidade, no nos recordaramos das pessoas que amamos, no sentiramos saudade quando elas partissem, no viveramos o aperto da solido nem choraramos. As lgrimas, sentimento de perda, mgoas, raiva, alegrias, amor, ocorrem porque h fascinantes diretores de cinema no estdio de nossas mentes: o Eu, como diretor principal, e o fenmeno do Autofluxo, como diretor coadjuvante. Eles leem as inumerveis janelas da memria e, na esfera da imaginao, criam dramas, romances e comdias fascinantes, ainda que, em alguns casos, perturbadores. 
      A esfera da virtualidade emancipou o psiquismo humano para pensar, criar, construir, mas tambm o aprisionou. A liberdade criativa e a plasticidade construtiva virtual trouxeram alforria para o imaginrio humano, mas o colocaram numa grande armadilha. Como no temos a 

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realidade do objeto pensado, podemos fazer diagnsticos completamente errados sobre eles. Como temos visto, podemos diminuir e minimizar ou at aumentar e maximizar o valor das pessoas. Podemos fazer anlises, observaes, julgamentos distorcidos. A esfera da virtualidade liberta o Eu, mas, paralelamente, exige que ele pense com maturidade para prevenir atrocidades. 
      O pensamento consciente, embora nunca atinja a realidade essencial do objeto pensado, pode se aproximar dele se, como vimos, o Eu desenvolver mltiplas habilidades, como raciocinar multifocalmente, expandir o pensamento indutivo/abstrato, refinar o pensamento antidialtico, aprender a pensar antes de reagir. 
      Um psiquiatra/psiclogo jamais tocar ou incorporar a essncia intrnseca dos ataques de pnico de um paciente. A dor, ansiedade e angstia desse paciente no se transferem pelo ar, no se comunicam pela sonoridade, nem se transportam pelo pensamento dialtico/antidialtico. O que se transfere  um sistema de cdigos que tenta definir, conceituar e caracterizar o ataque de pnico, seus sintomas e as causas que financiam seu pavor diante da expectativa da morte, mas nunca sua realidade intrnseca. Ambos, terapeuta e paciente, esto em mundos paralelos que se comunicam virtualmente, mas nunca essencialmente. 


EMBOSCADAS DA NATUREZA DOS PENSAMENTOS 
      
      Pensar parece to espontneo, mas  muito mais complexo do que imaginamos. Os pais e professores conhecem 

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seus filhos e alunos a partir de si mesmos, e no a partir da realidade psquica deles. Aqui h dois grandes problemas. Alm da distncia intransponvel gerada pela sua natureza virtual, a sua construo do conhecimento dialtico/antidialtico est sujeita a inmeras distores, o que expande esse distanciamento. O processo de elaborao dos pensamentos est invariavelmente contaminado pelo nosso estado de estresse, ambiente social, emoes, motivaes, cultura. A verdade, portanto,  inalcanvel pelo mundo dos pensamentos. 
      Educadores que conhecem minimamente as armadilhas do ato de pensar julgaro menos e compreendero mais, sero mais vidos em abraar e mais lentos para rejeitar, investiro no apenas nos alunos que tiram as melhores notas, mas tambm nos que tm pssimo desempenho, sabero colocar limites para formar mentes livres, e no servos para obedecer ordens. 
      Por que h tantas pessoas radicais nas sociedades modernas? Porque o Eu delas foi mal construdo e, como tal, usa o ato de pensar com atributos que o pensamento jamais teve. O pensamento consciente  virtual, jamais incorpora a verdade essencial, mas as pessoas extremistas, fundamentalistas, preconceituosas, do um status real ao pensamento virtual para excluir e ferir os outros. Essa  uma das maiores emboscadas em que o Homo sapiens cai ao longo do processo de formao da sua personalidade. Da prxima vez que virmos algum fazendo julgamentos severos, excluindo pessoas, expressando intensa teimosia, no abrindo mo em hiptese alguma do que pensa mesmo diante das evidncias 

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do contrrio, temos de ver neles defeitos graves na formao e no exerccio dos papis vitais do Eu. 
      O Eu que desconhece a natureza e os limites dos pensamentos conscientes pode utiliz-los como um deus. Nesse exato momento, h muitos neste belo planeta azul se matando, cometendo atos terroristas, discriminando povos e pessoas devido  pssima formao do Eu como gerente da construo de pensamentos. Entretanto, nenhum trauma, crise, perda, privao e, consequentemente, nenhuma zona de conflito justifica matar, ferir, destruir os outros. O Eu, mesmo tendo tido um ambiente horrvel na infncia e na adolescncia, tem habilidades bsicas que poderiam e deveriam lev-lo a atuar como autor da sua histria, se reciclar, se reconstruir, se reinventar. Mas ele nem sempre exerce essas habilidades. 
      H jovens que cresceram em ambientes agressivos e se tornaram generosos e outros que cresceram em ambientes generosos e se tornaram agressivos. Esses paradoxos no se devem apenas  carga gentica, ao ambiente educacional ou s janelas que foram formadas na memria central e perifrica, mas tambm  atuao do Eu como gestor psquico. Os computadores jamais experimentaro esses paradoxos, ainda que desenvolvam uma inteligncia artificial notvel. Por qu? Porque no tm e nunca tero um Eu. 


COMO APROXIMAR OS MUNDOS PSQUICOS 
      
      Nada  to inteligente como quando, em vez de apontar rpida e rispidamente a falha de algum, procuramos ampliar 

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a rea de leitura da memria, expandir as dimenses do raciocnio e procurar entender quem falhou, como falhou, por que falhou, em que circunstncia falhou, que emoes sentia no momento da falha, qual seu grau de conscincia sobre as consequncias de seus comportamentos. Nas relaes sociais, deveramos sair das raias do raciocnio simples/unifocal e caminharmos na pista da produo mais nobre do raciocnio complexo/multifocal. A virtualidade dos pensamentos exige uma maratona. 
      Romances so destrudos pelo excesso de confiana do Eu em julgar, apontar erros, excluir. Homens e mulheres no tm conscincia deque pensar  um processo virtual e, por causa disso, usam seus pensamentos para invadir e controlar seu parceiro ou sua parceira. Relaes entre pais e filhos so debilitadas porque grande parte das correes que os pais fazem  destituda de um raciocnio mais elevado. Um educador brilhante sabe que nunca atingir a realidade essencial dos seus filhos e alunos, mas, apesar dessa gritante limitao, poder encant-los com gestos, dilogos, sensibilidade, elogios. Poder plantar janelas light duplo P que aliceraro o Eu dos seus educandos. 
      Quem tem conscincia da virtualidade dos pensamentos e seus processos construtivos  muito mais cuidadoso em julgar. E no apenas isso,  mais habilidoso em se proteger. Sabe que entre ns e os outros existe uma barreira invisvel, virtual, que o Eu desconhece e, por desconhec-la no a utiliza. Nenhuma ofensa, decepo, traio, provocao pode nos atingir, a no ser que permitamos, pois os mundos psquicos no se comunicam essencialmente. 

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E essa permisso advm de uma interpretao ingnua que incorpora a realidade a partir da virtualidade. 
      Se me sinto ferido, chateado, angustiado peio comportamento do outro, no foi o outro que invadiu minha emoo, pois ele emitiu pensamentos virtuais atravs de suas palavras e gestos, que no tm esse poder. Fui eu mesmo que constru minha mazela emocional. A raiva, o dio, o cime, a inveja no se transportam essencialmente pelos cdigos lingusticos e visuais, precisam da cumplicidade do processo de interpretao do hospedeiro para se aninhar. Se algum o ofender muitssimo numa lngua que voc desconhece, no ficar perturbado, a no ser pelos gestos e pela tonalidade da voz. 
      O Eu que desconhece a barreira de proteo virtual paga carssimo pelas frustraes causadas pelos outros. Algumas pessoas nesse exato momento esto querendo matar seu ofensor ou morrer porque foram humilhadas, sem saber que toda dor que esto sentindo foi criada por elas mesmas. 
      Aprender a no gravitar na rbita dos outros  fundamental para ter uma mente livre. At psiclogos bem treinados podem se deixar invadir de maneira angustiante pelos seus filhos, parceiro(a), amigos. Reitero, ningum tem o poder de nos ferir, a no ser que permitamos ou que haja leso fsica. A virtualidade dos pensamentos nos liberta e nos protege, mas no sabemos usar essa proteo. 
      Se o Eu dos professores em todas as escolas do mundo fosse equipado com esse conhecimento, eles resolveriam com muito mais facilidade os conflitos em sala de aula. Diante de um aluno que o agride, em vez de agir unifocalmente

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pelo fenmeno ao-reao, ele se protegeria e o surpreenderia com um raciocnio complexo, tal como Apesar de ter me decepcionado, eu aposto em voc. Voc no  mais um nmero na classe. Mas um ser humano nico e com grande potencial para se superar. 
      Alm de se preservar, o professor provocaria o psiquismo do aluno agressor, estimularia o fenmeno RAM a arquivar janelas light duplo P nas regies mais nobres e centrais da memria dele, e estas estruturariam o processo de formao da personalidade do aluno, formariam uma mente saudvel e altrusta. Um educador que conhece os mecanismos de funcionamento da mente e os utiliza poderia prevenir suicdios, homicdios e a formao de psicopatas. 
      Infelizmente, encontrei alunos traumatizados por alguns de seus professores a ponto de no conseguir fazer provas, ler em pblico e expressar suas ideias com liberdade e conforto. 


A VIRTUALIDADE, AS VARIVEIS E A VERDADE 
      
      Vamos retornar  metfora da pintura. Imagine que ela tenha uma bela paisagem. As imagens das nuvens, lago, montanhas, representam pensamentos antidialticos, e toda descrio ou discurso sobre sua esttica, feito por admiradores ou por crticos, representam os pensamentos dialticos. Diante disso, pergunto: o que  essencialmente real? A contemplao das imagens, as descries feitas por admiradores ou as crticas realizadas por especialistas? Nenhuma. 
      De fato, no h nuvens, lagos e montanhas, nem as descries so verdadeiras. Mas crticas bem fundamentadas 

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no so reais? Depende do que definimos como verdade ou realidade. Se a realidade tiver o significado de verdade irrefutvel, de natureza concreta do objeto descrito ou pensado, as descries e crticas jamais sero reais. Os nicos elementos reais so os pigmentos da tinta e a estrutura do quadro. Nessa metfora, os pigmentos da tinta, como comentei no captulo anterior, representam o pensamento essencial, que  inconsciente, e o quadro representa a mente humana. Por ser substancial,  o pensamento essencial que fundamenta a produo dos pensamentos conscientes e virtuais, sejam eles dialticos, sejam antidialticos. 
      No sabemos como ocorre esse processo no inconsciente. Os pensamentos essenciais funcionam como matrizes ou como pista de decolagem para os pensamentos conscientes se libertarem. Quando assistimos a um filme, no temos a conscincia das ondas eletromagnticas, mas apenas dos personagens e ambientes criados a partir delas. Nessa metfora, as ondas representam o pensamento essencial, e os personagens e suas falas, os pensamentos conscientes. 
      Os pensamentos dialticos, por mais criteriosos que sejam, so sistemas de intenes que tentam conceituar, definir, teorizar, esquadrinhar o objeto pensado, mas jamais atingem a sua realidade. Nenhuma tese, postulado ou informao, por mais cientfico que seja,  essencialmente verdadeiro. Entretanto, se as informaes foram produzidas com pesquisas, metodologia, anlises de dados e sistemas comparativos, podero ser consideradas verdades cientficas, portanto, passveis de verificabilidade e de aceitabilidade universal. Mas, independentemente de todos os critrios, se estudarmos a natureza e a lgica da construo 

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do conhecimento, saberemos que a verdade cientfica no  a verdade essencial, absoluta, eterna. 
      Esses dias, um amigo, professor de medicina, brilhante cirurgio, especialista em transplante de pncreas, disse-me que a verdade na sua rea de conhecimento muda com muita rapidez. Excetuando a matemtica, a verdade irrefutvel  um fim inatingvel na cincia. Um ser humano que conhece os mecanismos de formao do Eu e as limitaes do pensamento consciente sempre ser um democrata das ideias, sempre estender a mo aos que pensam diferente dele. H muitos pequenos ditadores nas empresas, escolas, sociedades, porque eles desconhecem o funcionamento da mente e os mecanismos que constroem o Eu. 
      Jamais uma tese ou crtica jornalstica, poltica, literria, artstica, tem carter verdadeiro. Muitos crticos esto despreparados para exercer a crtica. Ainda que sejam peritos na sua rea de atuao, carregam nas palavras, agem como pequenos deuses que hasteiam a bandeira da verdade. Toda crtica deveria conter obrigatoriamente essas expresses tcnicas: eu penso, eu creio, em minha opinio. Caso contrrio, jornais e revistas sero autoritrios mesmo em sociedades democrticas. E no poucas vezes o so, ainda que no intencionalmente. 
      Os crticos deveriam saber que seus textos, alm de contaminados pelo momento histrico, cultural, emocional, so fundamentados na realidade virtual e no na realidade essencial do objeto criticado. Ainda que no perceba, o crtico fala muito mais de si mesmo do que do objeto que descreve, seja este um filme, um livro, ou uma obra de arte. 

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Ambos vivem solitariamente. Entre um crtico e o objeto criticado h um antiespao virtual que s pode ser aproximado com critrios inteligentes e alicerados na democracia das ideias. Mas em que faculdade de jornalismo se ensinam as armadilhas do pensamento e os papis fundamentais do Eu? 
      Essas armadilhas ocorrem em todas as esferas profissionais, em destaque aquelas em que h um trabalho intelectual intenso e saturado por altos nveis de estresse. Lembro-me de que um diretor de uma grande companhia de petrleo me pediu que orientasse seu time de gelogos. Por estarem apreensivos e quererem se destacar na companhia, alguns deles gastavam mais de 50 milhes de dlares para perfurar um poo com baixa probabilidade de conter petrleo. O Eu, sob as labaredas da ansiedade, pode dar um carter real ao pensamento virtual. 
      O Eu no  virtual, mas um fenmeno real, concreto, tal como a emoo ou os demais fenmenos que leem a memria. Mas, como centro consciente da psique, como gestor da mente humana, ele usa o pensamento virtual para conhecer a si e ao mundo e para se expressar. O problema ocorre quando o Eu, desconhecendo a natureza dos pensamentos, d um crdito fatal a eles. Uma barata pode se transformar num monstro, embora seja inofensiva. Um avio pode ser perturbador, embora estatisticamente seja o meio de transporte mais seguro. 
      Certa vez, uma mulher que amava muito seu parceiro brincou com a sexualidade dele, disse que ele no era homem. O Eu dele, emocionalmente imaturo e machista,

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sentiu-se profundamente ofendido, deu crdito fatal  brincadeira da mulher e procurou se vingar dela. Traiu-a. E contou por que a traiu. Transformou uma relao razoavelmente estvel numa relao conflituosa,  beira da falncia
      H muitas pessoas que tm uma idade emocional atrasada em relao  sua idade intelectual. Intelectualmente, elas tm 25, 30, 40 ou 50 anos de idade, mas, emocionalmente, no passam de adolescentes. Tudo ocorre s mil maravilhas no campo da razo, mas, quando adentram o terreno da emoo, afundam-se. Possuem, em muitos casos, um bom raciocnio lgico, mas no sabem ser contrariadas, criticadas, sofrer perdas, frustrar-se ou decepcionar-se. 
      O Eu comete erros grosseiros quando se torna um menino para administrar os focos de tenso no campo afetivo, social e profissional. Nesses focos, constri crenas falsas e toma atitudes inadequadas. Gerenciar a ansiedade  fundamental para fazermos escolhas inteligentes. A ansiedade tem nos deixado em dbito nas relaes sociais, dbito de generosidade, compreenso, pacincia, tolerncia. No conheo uma pessoa que no tenha tais dbitos com aqueles que mais ama. E no poucas tm um dbito enorme consigo mesmas, tm uma pssima relao com seu prprio ser. 


CAUSAS DA SOCIALIZAO 
      
      Quais as causas da nossa socializao? Por que o Homo sapiens no consegue viver s? Porque o ser humano no se isola. Mas os autistas no se isolam? Sim, mas no porque 

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querem, e sim porque os mecanismos de construo do seu Eu esto comprometidos. Por terem um deficit na atuao do fenmeno RAM e, consequentemente, um deficit na formao da MUC e da ME e, consequentemente, um deficit na contrao da construo de pensamentos, imagens mentais e fantasias a partir do fenmeno do Autofluxo, se produz tambm um deficit na formao do Eu e de suas pontes sociais. 
      O resultado  um isolamento social, com aumento dos nveis de ansiedade, expresso por movimentos repetitivos. Se o crtex cerebral de uma criana autista estiver preservado, podemos usar a tcnica da teatralizao da emoo constantemente para desbloquear a atuao do fenmeno RAM, superelogiando cada gesto positivo ou demonstrando entristecimento quando a criana nos decepciona (mas sem jamais usar a punio). Essa tcnica, se repetida diariamente diversas vezes por todas as pessoas que tm contato com a criana autista ( decepcionante porque muitas no colaboram), pode contribuir para formar um pool de janelas na MUC capazes de estimular o fenmeno do Autofluxo, promover, ainda que com limites, a construo do Eu e financiar pontes sociais razoveis. 
      Excetuando doenas como a dos autistas, o ser humano  marcadamente um ser social. Mas os anacoretas, budistas, monges no se enclausuram? Sim, eles se enclausuram para fins msticos. E, ainda que no convivam com ningum fisicamente, convivem com muitos personagens construdos em seu psiquismo. Criam, inclusive, complexas situaes sociais em seu imaginrio. 

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      E os pacientes psicticos, eles no se isolam? No. A no ser que tenham uma depresso gravssima, catatnica, em que seus pensamentos so embotados. Frequentemente, os pacientes em surto psictico tm uma riqussima socializao em seu psiquismo, mesmo que perturbadora. Ainda que tenham perdido os parmetros da realidade, constroem em seus delrios e alucinaes mltiplos personagens para romper o crcere da solido social da conscincia virtual. 
      H trs grandes causas que financiam a socializao humana, e elas aliceram quatro tipos de solido. Vou comentar sinteticamente essas causas e me ater neste livro aos tipos de solido. A primeira causa da socializao envolve as necessidades afetivas, a busca de proteo e a promoo da sobrevivncia. H inumerveis causas nessa primeira classe e levant-las  um raciocnio de mediana no de alta complexidade. A cooperao social, as atividades profissionais e as relaes interpessoais reforam os mecanismos de recompensa: prazer, segurana, proteo, troca. 
      A segunda grande causa da socializao humana se deve s matrizes de janelas na MUC (centro consciente da memria) e na ME (periferia inconsciente) que fundamentam a arquitetura, a representao e, consequentemente, a importncia das pessoas. No nos relacionamos com as pessoas apenas porque elas existem e so concretas, mas tambm porque esto representadas e tm significados em nossa memria. Se um pai precisa aumentar muito o tom de voz para se fazer ouvir  porque sua imagem foi malformada nos solos da memria dos seus filhos. Se tivesse sido bem formada, um tom de voz brando bastaria para obter um grande impacto emocional. 

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      Professores que precisam gritar ou se esgoelar em sala de aula para serem ouvidos tambm no foram bem construdos na MUC e ME dos seus alunos. As presses, as ameaas de punio, as comparaes de um aluno com outro, usadas por muitos mestres, so reflexos da debilitada arquitetura desenhada no psiquismo dos seus educandos. No h dvida de que nesses tempos modernos, pautados pela intensa ansiedade decorrente da sndrome do pensamento acelerado, pelo consumismo e pelo excesso de atividades,  muitssimo difcil realizar esse desenho psicoarquitetnico. 
      Falando especificamente sobre a MUC, ela  a rea mais importante para subsidiar os raciocnios corriqueiros usados nas relaes sociais dirias, tanto unifocais (lgico-lineares) como multifocais, abstratos, indutivos e dedutivos. Para desenvolver o raciocnio matemtico, acadmico, o Eu usa determinados grupos de janelas que esto agrupados no crtex, mas para um raciocnio interpessoal exige leituras multifocais. 
      Algumas pessoas so timas para desenvolver um raciocnio lgico/linear, mas no sabem interpretar sentimentos, perceber a dor dos outros. Outras so excelentes para tecer crticas polticas, mas so inbeis em tecer crticas interpessoais e construir relaes saudveis. Elas no conseguem encantar, envolver e influenciar seu parceiro(a), filhos, amigos, colegas de trabalho porque tm uma MUC social reduzida. 
      As pessoas autoritrias, inseguras, desconfiadas, portadoras de complexo de inferioridade so frequentemente vtimas de uma MUC social contrada. No poucas delas tm 

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altssima cultura acadmica na MUC, so ilibados mdicos, advogados, executivos, engenheiros, mas sempre enfrentam conflitos nas relaes sociais. No possuem uma quantidade de janelas saudveis para subsidiar a capacidade de elogiar, se doar, reconhecer erros, pedir desculpas, expressar suas intenes claramente, captar sentimentos, promover quem est ao seu redor, mas  possvel se reconstruir. 
      As pessoas gravemente tmidas, devido  contrao da MUC social, tm uma socializao fragilizada e frequentemente vendem mal a prpria imagem. Muitas so pessoas humildes, afetivas, preocupadas com a dor dos outros, mas passam a imagem de orgulhosas, insensveis e alienadas. Fazer terapia, teatro, curso de oratria pode ajud-las muito. Mas podero dar um salto na sociabilidade de seu Eu se treinarem diariamente a arte de perguntar (Voc precisa de algo?; O que posso fazer para ajud-lo?; Machuquei-o de alguma forma?), a arte de dialogar sobre suas experincias e a arte de elogiar. 
      Os mecanismos de construo global da memria representam a segunda grande classe das causas que financiam a socializao do Homo sapiens. Levantar essas causas e compreend-las  um raciocnio de densa complexidade multifocal. 
      A terceira grande classe de causas da socializao se deve  solido social paradoxal da conscincia virtual. Aqui se exige um raciocnio de altssima complexidade. Em primeiro lugar, por que solido paradoxal? Porque de fato  um paradoxo, um contraste: estamos fisicamente prximos das pessoas, mas infinitamente distantes delas. 

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      Por serem virtuais, os pensamentos conscientes, sejam dialticos, sejam antidialticos, produziram uma inimaginvel solido. Estamos socialmente ss, sempre ss, invariavelmente ss, mesmo que rodeados de milhares de pessoas. No temos conscincia dessa solido, mas sentimos suas labaredas a cada instante. Produzimos milhares de pensamentos, criamos personagens nos sonhos e no estado de viglia, construmos inumerveis relaes interpessoais, enfim, somos marcadamente seres sociais como tentativa constante de superar a barreira da conscincia virtual, transcender a comunicao mediada dialtica. 
      Pais e filhos, professores e alunos, casais, amigos se relacionam frequentemente no apenas para satisfazer as necessidades afetivas, de cooperao social, sobrevivncia ou porque tm sua representao arquivada na sua memria, mas tambm para romper as barreiras e superar a dramtica distncia imposta pela conscincia virtual. Temos conscincia virtual deles, mas no temos sua realidade concreta, sua essncia. Lembre-se da metfora do quadro. Temos a imagem antidialtica e a descrio, a definio e o conceito dialtico, mas no os pigmentos da tinta. Por mais prximos que estejamos deles, ainda estamos em universos paralelos, virtualmente separados. No estranhe esta frase, mas reflita sobre ela: a impossibilidade da incorporabilidade da substancialidade psquica dos outros pela racionalidade na esfera da virtualidade produz mundos paralelos, onde estamos prximos e infinitamente distantes. 
      Como esse assunto  de extrema complexidade, vou discorrer agora sobre os quatro tipos de solido para explic-los melhor. Embora os dois primeiros tipos de solido  

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a solido social e o autoabandono  tambm ocorram pela barreira da conscincia virtual, os dois ltimos a atingiro frontalmente. 


QUATRO TIPOS DE SOLIDO EXPERIMENTADOS PELO HOMO SAPIENS 
      
      H quatro tipos de solido psicolgica, sociolgica e filosfica. Dois esto ligados ao estado de abandono: a solido em que os outros nos abandonam e a solido em que ns mesmos nos abandonamos. E os outros dois tipos de solido esto relacionados  natureza dos pensamentos dialticos e antidialticos: a solido social da conscincia virtual e a solido intrapsquica da conscincia virtual. 
      O primeiro tipo de solido advm da dor de ser abandonado por amigos, colegas, parentes, parceiros(as), filhos. Essa solido  intensa e clida e, embora ocorra a partir do comportamento dos outros,  sempre construda em ltima instncia por ns mesmos. Sentir-se excludo, preterido, colocado em segundo plano asfixia o prazer de viver. 
      Doar-se e no ter o retorno, amar e no ser correspondido, se entregar e ser trado so experincias que confeccionam uma dor emocional dramtica, principalmente se o Eu se colocar como vtima, como o mais desprivilegiado dos seres. H mulheres que tm seu parceiro como um deus. Perd-lo  como perder o ar que respiram e o sentido que impele sua existncia. Um Eu autnomo, ainda que sofra o drama da solido social, jamais gravita na rbita dos outros, jamais perde sua liberdade em funo de algum abandono. 

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      A segunda trata da solido do autoabandono.  a solido do Eu que desiste de si mesmo, que se entrega ao seu pessimismo, conformismo, morbidez, humor depressivo, fobia social, agorafobia, obsesso, impulsividade, timidez grave. Essa solido  muito mais angustiante do que a social, e pode ser um estgio mais avanado dela. Se o mundo me abandona mas eu no me abandono, a solido  suportvel; mas, se as pessoas me rejeitam e eu tambm me desprezo, a solido  intolervel. 
      Pessoas cronicamente deprimidas podem se autoabandonar por acreditar que esto condenadas a viver miseravelmente, que jamais resgataro o prazer de um viver estvel e duradouro. Do mesmo modo, pacientes portadores de sndrome do pnico, anorexia nervosa, transtorno obsessivo, farmacodependncia e outros transtornos que se arrastam durante anos podero entrar na esfera da inrcia e se autoabandonar. H pessoas que tm dois ou trs fracassos profissionais e se abandonam, acham-se incapazes e programados para o derrotismo. H outras que passaram por uma sequncia enorme de fracassos, mas no desistiram dos seus sonhos nem chafurdaram na lama do conformismo. 
      O Eu que se autoabandona tem crenas terrveis e falsas, entre as quais a de que esgotou o leque de tentativas de superar seus conflitos e no encontrar dias felizes. A pior doena no  a doena do doente, mas o do doente. Por mais grave e crnica que seja uma doena, o Eu tem potencial para reeditar o filme do inconsciente, reorganizar as janelas traumticas poderosas e reescrever sua histria. 

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      O terceiro tipo de solido trata-se de uma experincia mais ntima, incompreensvel e impactante.  a solido da conscincia virtual. Como comentei, entre ns e o mundo social e fsico existe um espao insupervel. Vivemos em mundos paralelos que se comunicam virtualmente. 
      Por que o Homo sapiens desenvolveu o ato de beijar? Porque ele descobriu intuitivamente que os beijos vencem a barreira da virtualidade e nos colocam diretamente em contato uns com os outros. Ao longo das geraes mudam-se as roupas, a maneira de falar, de se expressar, de interpretar, mas o beijo, esse ato antiqussimo, jamais caiu ou cair em desuso. Os beijos, os abraos, os toques, as carcias e as relaes sexuais rompem a barreira da virtualidade dos pensamentos conscientes e nos colocam em contato fsico direto com as pessoas. 
      A conscincia de que pensamos e somos um ser nico no teatro da existncia  a maior conquista da mente humana. Mas essa conscincia, por ser virtual, nos afastou de tudo e de todos. O pensamento virtual, por um lado, libertou o nosso raciocnio e o nosso imaginrio, por isso podemos sonhar, criar personagens, imaginar o futuro, mas, por outro, nos colocou numa tremenda solido. 
      Todas as relaes que construmos ou criamos em nosso psiquismo tm por objetivo superar a solido paradoxal da conscincia virtual. De acordo com a teoria da Inteligncia Multifocal, o ser humano no  um ser social apenas porque ele  educado para s-lo, pelas necessidades afetivas, de cooperao e sobrevivncia, nem somente pelo pool de experincias arquivadas no crtex cerebral ao longo do 

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processo de formao da personalidade, mas sim pela ansiedade vital intrnseca e inconsciente de romper o crcere da virtualidade da conscincia. 
      Pessoas casam-se e separam-se diversas vezes, mas no deixam de fazer uma nova tentativa de se relacionar. Que ser humano  este, que sabe que construir relaes lhe d muitas dores de cabea, mas ainda assim nunca deixa de constru-las? Compreender as causas dessa solido  um raciocnio complexo/multifocal/indutivo/abstrato. 
      Reis precisam de bajuladores, e bajuladores precisam de reis.  desgastante frequentar estdios, clubes, cidades superpopulosos, mas isso movimenta a emoo e d prazer. Os adolescentes se atritam, e as crianas se engalfinham, mas vivem frequentemente grudadas umas s outras. 
      O excesso de atividade, de informao, de consumo, pode expandir excessivamente os nveis de ansiedade, que, por sua vez, expande a insatisfao gerada pela solido da conscincia virtual. Relaciona-se muito, mas se tem migalhas de prazer. 
      Quem gerencia seus pensamentos, dialoga, abraa, elogia, se doa, brinca, tem muito mais possibilidades de superar a solido social da conscincia virtual e, consequentemente, tem mais habilidade de superar a solido social gerada pelas decepes, perdas, rejeies, traies, abandonos. Quem no exige muito dos outros nem de si tem muito mais versatilidade e relaxamento nesse processo. 
      De outro lado, quem fica ensimesmado, isolado, entrincheirado em sua insegurana, com medo de falar de si mesmo, com dificuldade de se entregar e dividir seus sentimentos, 

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pode viver nveis mais dolorosos da solido da conscincia virtual. Mas h excees, em especial se tais pessoas amarem as artes, a escrita, a msica, enfim, se tiverem atividades que compensem as trocas sociais. 
      Escritores, por mais incomuns que sejam, libertam seu imaginrio no apenas para construir protagonistas de suas tramas, mas tambm para se entreter com sua prpria histria. Samuel Beckett era antissocial, mas seus personagens e a projeo do seu prprio Eu nesses personagens de alguma forma o socializavam. Essa fascinante e inimaginvel solido faz com que nosso Eu simplesmente no consiga viver s. Um processo maravilhoso e completamente inconsciente. 
 a primeira vez que toco nessa produo de conhecimento. Desenvolvi-a sistematicamente h mais de 15 anos e, por ser difcil traduzi-la, s agora, no meu 30 livro, a abordo. No tpico seguinte, discorrerei sobre o quarto tipo de solido, a solido virtual do Eu. Vimos que a conscincia virtual produz a solido social e uma procura desesperada pelo outro, agora precisamos ver que ela tambm produz a solido do Eu em relao a si mesmo. 


A SOLIDO DO EU 
      
      A conscincia virtual no apenas nos distancia irremediavelmente do mundo em que estamos, mas tambm do mundo que somos. Tudo o que pensamos sobre ns mesmos  um sistema que conceitua, define e tenta caracterizar-nos, mas nunca alcana a nossa realidade intrnseca, em destaque a emoo. O Eu est virtualmente distante das pessoas 

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que o circundam, mas, quando usa o pensamento para pensar em si mesmo, tambm o est. Esse  o quarto tipo de solido enfrentado pelo Homo sapiens, essa espcie incrivelmente complexa, e dramaticamente solitria. Apesar de todas as consequncias, felizmente somos assim. 
      O pensamento consciente  virtual, mas a emoo  real, substancial, concreta. No importa como a pensamos e interpretamos, ela  sempre real, sentida, vivida, experimentada. Uma pessoa pode ser um brilhante psiclogo ou psiquiatra, pode analisar com critrio e maturidade seus medos, alegrias, dinmica emocional, mas nunca seus pensamentos alcanaro a sua realidade emocional. Pode pesquisar os fenmenos que constroem os prprios pensamentos, esquadrinhar a histria da formao da sua personalidade e mapear todas as suas janelas e zonas traumticas, mas haver sempre um antiespao entre seu pensamento e sua essncia. 
      Entre o que somos e o que pensamos ser h uma barreira virtual paradoxal. Estamos prximos e infinitamente distantes de ns mesmos. Mas isso no  angustiante? Depende. Sem o antiespao produzido entre o pensar e o ser, entre o Eu e sua essncia, no teramos uma ansiedade vital, que  saudvel, normal e fundamental para movimentar a construo de pensamentos essenciais, dialticos, imagens mentais, emoes. Sem essa ansiedade primordial, no seramos eternos buscadores de nossas origens. Sem ela, no teramos sede de conhecimento, no desenvolveramos um raciocnio abstrato, no nos interiorizaramos. 
      Os astrnomos procuram a origem do universo, os bilogos pesquisam os genes para procurar a origem das 

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clulas, os qumicos procuram as partculas subatmicas, os psiclogos procuram a origem do processo de formao da personalidade, os ateus procuram teses para explicar a origem da vida, os religiosos procuram Deus para explicar a origem, da existncia. Quem controla essa busca ansiosa? NINGUM. O ser humano vive uma busca incansvel de si mesmo e de suas origens. E isso  uma inevitabilidade, e no um sinal de fragilidade. Dentre todas as causas que poderiam explicar essa busca pelas origens, a fundamental  que h um antiespao entre a conscincia virtual e o mundo em que ela se conscientiza, entre o pensamento e o objeto pensado. 
      O Eu  essencial, real, concreto, mas entende o mundo e se entende, interpreta o universo social e o universo psquico, por meio do pensamento virtual, o que cria um antiespao e gera uma fascinante e necessria ansiedade vital. Mas essa ansiedade vital, se no for gerenciada pelo Eu, assume contornos doentios. 
      A ansiedade vital s entra nos patamares doentios quando nos entulhamos com os excessos: excesso de preocupao, de informao, de atividade, de pensamentos sobre o futuro, de ruminao do passado, de supervalorizao do que os outros pensam de ns, de necessidade de estar em evidncia social. Infelizmente, a sociedade dos excessos nos conduziu a desenvolver uma ansiedade coletiva doentia. O anormal  beber na fonte da tranquilidade, e o normal, na fonte da ansiedade. 
      Muitos sentem um vazio existencial inexplicvel, mesmo sendo reconhecidos socialmente ou estando debaixo 

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dos holofotes da mdia. Outros no se sentem realizados, mesmo sendo muito produtivos. Milhes de jovens, insatisfeitos em seu psiquismo, projetam essa insatisfao num consumismo desesperador. Quanto mais consomem, menos prazeres tm. Mulheres, mesmo estando dentro do padro tirnico de beleza imposto pela mdia, sempre colocam defeitos no prprio corpo. 
      H muitas pessoas que se sentem solitrias mesmo em meio a multides, aplausos, assdio, brilho social. E no conseguem entender por que se sentem assim, O problema no  s a solido social paradoxal da conscincia virtual, mas a solido intrapsquica paradoxal da conscincia virtual. Um mapeamento analtico de sua histria no detecta traumas, conflitos, janelas killer que justifiquem sua penetrante solido. 
      Eles procuram fora o que deveria ser encontrado dentro de si. No usam a solido da conscincia virtual a seu favor, no se procuram com inteligncia, no tornam seu Eu um engenheiro criativo de ideias e autodilogos, capazes de nutrir uma relao potica e romntica consigo mesmo. Infelizmente, essa  mais uma das funes vitais do Eu que no  lapidada e educada no sistema educacional. Como vimos, um Eu mal construdo pode desenvolver uma introspeco doentia, mrbida, pessimista, autopunitiva, no contemplativa. 
      Para auxiliar o Eu nessa magna tarefa de superar a barreira da virtualidade, a buscar a si mesmo e vivenciar o prazer, entra em cena um complexo fenmeno inconsciente, o Autofluxo. Como comentei, o fenmeno do Autofluxo  

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um diretor coadjuvante que mantm o fluxo contnuo de construes psquicas desde a aurora da vida fetal. Produz milhares de pensamentos e imagens mentais dirias. E um dos grandes objetivos  aliviar a solido do Eu, entret-lo, distra-lo, envolv-lo. 
      Sem esse fenmeno, provavelmente a solido intrapsquica da conscincia virtual geraria uma depresso coletiva na espcie humana. O Eu no  suficiente para produzir um rico filme mental para supri-lo de prazer, alegria, satisfao. Assim como buscamos fontes de lazer, como esportes, msica, literatura, cinema, h uma fonte intrapsquica excelente gerada pelo fenmeno do Autofluxo. 
      Esse fenmeno l a MUC e a ME inmeras vezes por dia, nos levando a dar inmeros passeios pelo passado e pelo futuro. Quantas vezes o Eu fica impressionado com esses passeios e se pergunta: de onde saram essas imagens e pensamentos?. Na realidade, vieram da ao do fenmeno do Autofluxo. Alguns viajam tanto que no se fixam no presente. Voc conhece pessoas que ficam dez minutos ou mais ouvindo outras pessoas, mas no fundo no escutaram nada? 
      Se o fenmeno do Autofluxo falha, seja por pensar excessivamente, gerando a sndrome do pensamento acelerado, ou por produzir pensamentos pessimistas, mrbidos, autopunies, autocobranas, enfim, por no produzir pensamentos e imagens mentais prazerosas, sentimos angstia, ansiedade, inquietao e vazio existencial no poucas vezes inexplicveis. Do mesmo modo, quando o Eu no qualifica ou gerencia os pensamentos e emoes que ele mesmo produz, pode se tornar vtima desses construtos. 

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      O Eu necessita do Autofluxo como a maior fonte de entretenimento humano. Mesmo quando dormimos, esse fenmeno produz um incrvel roteiro nos sonhos. Cada sonho  uma histria. Quem liberta adequadamente e nutre o fenmeno do Autofluxo vive uma grande aventura, uma existncia saturada de sabor, imaginao, criatividade. 
      O que os bebs ficam fazendo com seus olhares fixos? Libertando seu imaginrio atravs da ao do Autofluxo. Por que as crianas tm curiosidade? Por que os poetas fazem suas poesias? No apenas para discorrer sobre nuances para se aproximar de um modo diferente do mundo, mas tambm de si mesmos. 


A ETERNA PROCURA DO EU 
      
      Nosso Eu tem um poder embotado, contrado, minimizado, que, se for liberto e exercitado, pode transformar as falhas em oportunidade para crescer, o desprezo pode ser transformado em nutriente para ser forte; as perdas, em canteiro para cultivar alegria; as crises, em possibilidade de escrever o mais belo romance com a existncia... 
      Num dos meus romances psiquitricos, O Futuro da Humanidade, um dos personagens, Falco, um filsofo,  vtima de surtos psicticos. Infelizmente, foi banido da sua universidade, sociedade, famlia, mas seu Eu, em meio  sua confuso mental, foi atrs do mais notvel de todos os endereos, um endereo dentro de si mesmo. E l ele descobriu e se tornou ntimo da arte da crtica e da dvida, atravessou inimaginveis desertos psquicos e se reorganizou, fez as pazes consigo mesmo. 

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      Observe o movimento humano, alunos estudando, casais se amando, amigos dialogando, religiosos meditando ou orando, ativistas lutando pelos seus direitos, polticos apontando caminhos, cientistas pesquisando, todos procurando os mais diversos endereos. Essa  a essncia do que somos, e nada  to fascinante. Podemos e devemos per correr muitos caminhos, mas, em especial, deveramos ser caminhantes que andam no traado do tempo em busca de si mesmos. 
      A virtualidade da conscincia existencial nos introduz no oceano inimaginvel da solido paradoxal onde estamos prximos mas infinitamente distantes de tudo. Esse oceano solitrio nos impele a buscar ansiosamente a ns mesmos e aos outros. Sem o que o Homo sapiens seria um ser errante ilhado e no incontrolvel e maravilhosamente social. 

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CAPTULO 8 

A AUTOCONSCINCIA
      
      O sonho da psiquiatria, psicologia clnica, sociologia, filosofia e psicopedagogia, em minha opinio, deveria se formar um Eu saudvel, autor da prpria histria, que tenha bem trabalhadas sete grandes funes vitais: 
      1. Autoconscincia e, consequentemente, a capacidade de interiorizar-se/observar-se/mapear-se. 
      2. Gerenciar os pensamentos e, consequentemente, administrar a ansiedade. 
      3. Proteger a emoo e, consequentemente, desenvolver a resilincia. 
      4. Colocar-se no lugar dos outros e, consequentemente, pensar como e para a espcie e o meio-ambiente e desenvolver uma sociabilidade madura. 
      5. Libertar o imaginrio e, consequentemente, desenvolver a criatividade e a capacidade de pensar antes de reagir. 

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      6. Construir, reconstruir e reeditar as janelas da memria. 
      7. Conhecer os mecanismos bsicos de sua formao. 
      
      Se no currculo de qualquer escola de ensino fundamental, mdio e universitrio se colocasse uma disciplina que contemplasse essas funes vitais, teramos grandes possibilidades de formar coletivamente uma casta de mentes saudveis, pensadoras, sensveis, altrustas. Poderia haver uma revoluo educacional. Em breve, como todo mortal, encenarei o ltimo ato da existncia no admirvel e espantoso teatro do tempo. Ficam nossas sementes. Espero humildemente que este livro contribua para esse grande sonho. 


A AUTOCONSCINCIA 
      
      O quinto sofisticado mecanismo de construo do Eu  a autoconscincia. Autoconscincia  a capacidade do prprio Eu de se conhecer, ter conscincia de si mesmo, se identificar, dar significado e relevncia a si. Muitos falam o dia inteiro a palavra Eu, alguns so at egocntricos e eglatras, mas, por inacreditvel que parea, desconhecem o que  e quem  o seu Eu e, mais ainda, que esse Eu deve administrar sua mente. 
      Todo ser humano egocntrico, egosta, orgulhoso e individualista tem importantes defeitos na construo do Eu. E entre esses muitos defeitos est a dificuldade do Eu de se colocar contra a parede, confrontar sua arrogncia, reciclar seus pensamentos tolos, impugnar suas ideias fixas. So fortes porque usam o poder para controlar os outros, mas so 

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frgeis porque no sabem usar esse poder para se autocontrolar. E talvez o maior defeito seja no ter autoconscincia 
      A autoconscincia  o grau de envergadura e visibilidade do Eu para se autoenxergar e se autoconhecer. Mas como desde que samos do tero materno somos arremessados para o mundo perceptvel ao sistema sensorial, ns no desenvolvemos as habilidades mnimas que financiam a autoconscincia. Crianas, adolescentes e adultos raramente se perguntam sistematicamente quem sou, o que sou, quais so minhas atribuies como ser humano, quais so minhas funes como autor da minha histria, que habilidades desenvolvi para gerir meu psiquismo. 
      Quem no tem autoconscincia vive porque est vivo, vai  escola, frequenta um grupo social, pratica uma religio, vai a um clube, assiste a filmes, tem uma atividade profissional, mas no se deslumbrou com a complexidade da existncia e, consequentemente, com seu papel como ator psquico e social. A existncia  um fenmeno absurdamente sofisticado, uma loucura inimaginvel, um espetculo indizvel, O que  existir? O que  ser? Ningum sabe. Milhes ou bilhes de palavras teolgicas, filosficas, psicolgicas, por mais belas e profundas, que tentem esquadrinhar a existncia so poeira atirada ao vento. 
      A autoconscincia nunca vai definir a existncia, mas pode contempl-la, admir-la, se assombrar positivamente com ela. Em especial se tiver autoconscincia de que  um ser nico no palco da existncia, de saber que possui um Eu. Quem tem uma autoconscincia magrrima viver sempre uma existncia miservel, vai se definir pelo saldo 

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da conta bancria, ttulos acadmicos, status social. Ter uma viso mope do fascinante espectro da vida. 
      Onde esto os jovens que andam pelos shoppings e ficam espantados no com roupas ou celulares, mas com o fenmeno da existncia? E os que so capazes de se questionar com suas prprias palavras: Eu existo, que loucura  essa?. Onde esto os profissionais que fazem uma parada estratgica no calor do seu trabalho para refletir sobre o show surpreendente da existncia, belssimo, mas brevssimo? Somos centelhas que por instantes cintilam e depois se dissipam quase sem deixar vestgios. Parece que as pessoas s acordam quando tm um ataque de pnico ou algum acidente de percurso em sua massacrante rotina. 
      Voc acha que algum terrorista teria coragem de explodir o prprio corpo, ou um assassino, de atirar num ser humano, ou ainda um executivo, de humilhar um funcionrio se o Eu deles tivesse entrado em camadas mais profundas da autoconscincia? Impossvel. As agressividades intensas s surgem quando o Eu, como piloto na psique, no sabe voar, vive se rastejando. 
      Discriminar e se autodiminuir tambm so agressividades densas. Toda pessoa que se aumenta ou se diminui, que  autoritria ou submissa, que exclui os outros ou se pune no desenvolveu autoconscincia consistente. Todo ser humano que quer ser um grande personagem na sociedade, um poltico poderoso, uma celebridade, um esportista de alta visibilidade, apenas porque isso traz dinheiro e status, tambm tem baixos nveis de autoconscincia. No tem aspiraes filosficas mais profundas. Atira-se na corrente social sem pensar quem  e o que . 

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      Eu sou um lixeiro, algum diria. Sim, mas acima de tudo  um ser humano to sofisticado mentalmente quanto o prefeito da sua cidade. Eu sou depressivo, mas  to complexo quanto o seu psiquiatra, e, como tal, jamais deveria sentir-se inferior a ele e inibido em question-lo. Eu sou um bilionrio, listado pela revista Forbes. Sim, mas se no descobrir que ser um ser humano  muitssimo maior do que todos os seus bens materiais, ento o dinheiro o ter empobrecido, me tornado miservel. S a autoconscincia regula nosso status. 
      O problema no  haver grupos, tribos e classes sociais na sociedade, o problema  quando essas castas se colocam acima dos outros, lutam ferozmente pelo seu espao, se digladiam. Tais comportamentos denunciam que o Eu no desenvolveu a autoconscincia. Um Eu autoconsciente sabe que no  sempre independente, mas interdependente, reconhece que vive numa ilha psquica, mas dentro de um continente social. Supera o individualismo, mas no abre mo da individualidade 
      Tem os pelo menos 3 trilhes de clulas em nosso corpo trabalhando gratuitamente como usinas para existirmos. E o Eu no tem controle sobre nenhuma delas. Abrimos milhares de janelas da memria para lermos um texto. E nenhuma delas foi localizada sob a luz fsica pelo Eu. Produzimos inumerveis cadeias de pensamentos para entender o mundo e nos compreender. E nenhuma delas se desprendeu do inconsciente para a esfera da virtualidade consciente por vontade do Eu. Um Eu inteligente tem um mnimo de conhecimento da teia da vida e se curva 

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fascinado e agradecido. Um Eu autoconsciente minimiza o orgulho e maximiza a humildade. 


O EU AUTOCONSCIENTE E OS INSTRUMENTOS DE NAVEGAO 

      A autoconscincia  produzida por trs habilidades: se interiorizar, se observar e se mapear. So instrumentos invisveis, mas fundamentais para se conhecer e ser sereno e estvel. Mas essas habilidades no so estimuladas pelo sistema educacional. Parece que s se tem a chance de aprend-las quando se frequenta consultrios de psicoterapia, o que  um erro. Elas deveriam ser ensinadas s crianas antes mesmo dos sete anos de idade, pois representam mecanismos fundamentais para a formao de um Eu saudvel e inteligente. 
      Aprendemos a nos mover tempoespacialmente atravs do nosso sistema sensorial. Se no tivermos limitaes fsicas, nada ser to simples quanto andar, percorrer, ir, partir. Mas como nos mover dentro da nossa mente? Como nos localizar tempoespacialmente em nossa memria? A falta de instrumentos tangveis ou visveis  um dos maiores desafios para o autoconhecimento e, consequentemente, para o desenvolvimento da autoconscincia. 
      Onde esto nossos medos em nosso crtex cerebral? No sabemos. Deque janelas emanam comportamentos tmidos, impulsivos, intolerantes ou radicais? Desconhecemos. Um neurocirurgio pode apontar com uma caneta determinadas reas do crtex mas qualquer espao, por mnimo que seja,  to grande que contm milhes de informaes. 

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      Como o Eu se localiza nesse novelo de janelas? No sabe e talvez nunca saiba, pois o processo  inconsciente. Ele entra como um raio em mltiplas reas do crtex cerebral que contm os smbolos da lngua, experincias emocionais, existenciais, intenes, desejos, ginga, percia. Em todas essas reas, ele abre janelas, utiliza as peas e as organiza com incrvel maestria. 
      As reas que o Eu mais utiliza esto na MUC, mas nem sempre a MUC  um bairro central nico. Assim como nosso centro de circulao na cidade inclui vrios bairros, a MUC tambm inclui vrios grupos de janelas que esto em reas distintas do crtex cerebral. Mas, com incrvel habilidade, o Eu se move de olhos vendados na cidade da memria, acerta o alvo e realiza com xito o ato de pensar. 
      Excetuando situaes momentneas de desconexo tempoespacial das janelas, que nos do a sensao de um branco, sem saber o que estvamos pensando, o Eu tem uma habilidade impressionante de se locomover em nossa memria sem a necessidade de um sistema visual. Todo ser humano se move de maneira espetacular, mas h diferentes habilidades nessa movimentao, resultando em diferentes construes de pensamentos. Alguns so prolixos, falam sem parar, outros so mais contidos; alguns se perdem em detalhismos, outros so sintticos; alguns so unifocais, outros so multifocais. A complexidade do raciocnio depende dessas habilidades e estas dependem de tcnicas pedaggicas para se desenvolver. 
      Todavia, movimentar-se no crtex cerebral, abrir janelas da memria, resgatar informaes e organiz-las para 

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construir pensamentos, no quer dizer desenvolver a autoconscincia. Faz-se necessrio para isso o desenvolvimento de outras habilidades: se interiorizar, se observar e se mapear. Essas habilidades fundamentam o raciocnio abstrato. Como abordei, sem esse raciocnio, o Eu no tem bssola para se autoconhecer e ter conscincia de si mesmo. 


A ARTE DE SE INTERIORIZAR 
      
      Interiorizar-se  voltar-se para dentro de si.  percorrer as ruas e avenidas do prprio ser. A maioria das pessoas fica na superfcie do seu psiquismo porque no treina se interiorizar. No entra em camadas mais profundas e, quando entra, sofre por antecipao, resgata culpas, se angustia com um pessimismo.  vtima de uma introspeco mrbida. Isso no  se interiorizar,  se punir. 
      Interiorizar-se  uma habilidade que, se o Eu desenvolver, circular com mais desenvoltura no escuro da memria e garimpar com mais eficincia e rapidez as experincias mais nobres que possui. Todos temos um rico estoque de experincias espalhadas por grandes reas do crtex cerebral, mas no as acessamos nos focos de tenso. Repetimos os mesmos erros como se nunca tivssemos passado por dificuldades. 
      Se o Eu fosse educado para utilizar a capacidade de se interiorizar como instrumento de navegao para circular na cidade da memria, seria possvel desenvolver um raciocnio muito mais brilhante do que normalmente se tem. Grande parte das pessoas que apresentam comportamentos arrogantes, reativos, compulsivos, ansiosos tm aporte de experincias para desenvolver raciodnios surpreendentes.

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Por que no desenvolvem? Por que seu Eu  um pssimo navegante nas guas psquicas, no sabe se interiorizar.  um especialista em se exteriorizar. 
      O Eu com essa especialidade, como comentei, se vicia em determinados circuitos cerebrais e age instintiva e estupidamente.  fundamental que o Eu, se quiser desenvolver a autoconscincia, use sistematicamente a tcnica ser fiel a si mesmo, caso contrrio, ser escravo desses circuitos cerebrais viciosos. Como se realiza essa tcnica? 
      Primeiro, superando a ditadura da resposta: no reagir impulsivamente, rebater, contradizer, dar o troco. Usar a barreira da conscincia virtual para se proteger. Segundo, consultando-se, fazendo um stop introspectivo, mergulhando dentro de si para encontrar respostas inteligentes. Terceiro, nesta caminhada interior, bombardear-se com a arte da pergunta. Deveria ser feito o mximo de perguntas num curto espao de segundos: Quem sou? Quem o outro ? Por que estou comprando sua ofensa? Quais so as experincias que eu tenho? Que alternativas possuo? As perguntas, como vimos, ajudam no processo de se interiorizar e abrir as janelas da memria. 
      No  o tamanho da memria ou a genialidade gentica que determinar a eficincia da sua utilizao, mas a maneira como o Eu se interioriza e explora as memrias. 


A ARTE DE OBSERVAR 
      
      A segunda tcnica para desenvolver a autoconscincia  aprender a se observar. Essa arte da inteligncia  fundamental para o Eu se autoconhecer, se esquadrinhar, penetrar 

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em espaos mais ntimos da sua estrutura. Sem aprender a nos observar, somos um carro  deriva, um barco sem leme, atropelamos as pessoas e nos acidentamos sem ter conscincia do que est acontecendo em nossas mentes e no mago dos outros. 
      Observar no  dar uma olhadela superficial em nosso psiquismo, nos meandros de nossa mente, mas sim exercitar um olhar atento, acurado, por isso  uma arte que vem depois da arte de se interiorizar. Primeiro, se fixa no quadro; depois, se o observa atentamente. 
      Meditar no reflete necessariamente a arte de se observar, embora tambm possa ser til.  possvel passar dcadas meditando e no analisar nossas mazelas, no reconhecer nossa pequenez, imaturidade e loucuras. O que estou propondo no  uma tcnica de meditao, mas uma tcnica psicolgica pata o Eu se conhecer, descobrir seus papis, limites, conflitos. 
      Deveramos gastar uns cinco minutos uma ou duas vezes por dia, no trabalho, dirigindo o carro, deitados antes de dormir, observando quem somos, questionando se temos sido maduros, lcidos, coerentes com os outros, conosco, com nossos sonhos. Deveramos prestar ateno por onde estamos caminhando, que tipo de histria emocional e social estamos construindo, como est nossa qualidade de vida.  to pouco tempo, mas to fundamental. Entretanto, a indstria do lazer nos sufocou. As pessoas chegam em casa e a primeira coisa que fazem  ligar a TV ou ler um jornal. No exercemos o autodilogo prazeroso, relaxante, agradvel. 

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      O que  espantoso  que atualmente a indstria do lazer, poderosa e diversificadssima, no est produzindo a gerao mais alegre, contemplativa, relaxada mas sim a mais triste, depressiva, insatisfeita e menos interiorizada que j existiu. 
      H pessoas que esto  beira de um ataque de nervos ou de um infarto e no gastam migalhas de seu tempo observando e procurando alternativas para se reciclar, mudar de rotas, se cuidar. Aqui se incluem tambm executivos, mdicos, intelectuais e lderes espirituais de excelente nvel. Essas pessoas no abandonam os outros, procuram sempre que possvel ajud-los, mas no se importam que elas mesmas se abandonem. So ticas com todos, menos consigo mesmas. Jamais deixam os feridos pelo caminho, mas se deixam em ltimo lugar na escala das suas preocupaes. Autodestroem-se. 
      A arte de se interiorizar  muito til para darmos respostas brilhantes nas relaes sociais, e a arte de se observar  muito til para darmos respostas brilhantes para ns mesmos. A exteriorizao da existncia tem debilitado o desenvolvimento da autoconscincia e da sensibilidade.  provvel que a maioria das crianas e adolescentes esteja desenvolvendo uma insensibilidade preocupante devido ao excesso de atividades e de consumo. Elas ferem seus pais, mas no sentem a dor deles. Machucam seus colegas e reagem como se nada tivesse acontecido. So rpidas em exigir que suas necessidades sejam supridas, mas so lentas para se doar. 
      J repararam como as crianas da atualidade querem em primeiro lugar, em segundo e em terceiro lugar que suas 

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necessidades sejam atendidas? O egosmo, o egocentrismo e o individualismo so consequncias de um Eu mal construdo, destitudo de autoconscincia. 
      A generosidade, solidariedade, tolerncia, autocrtica e capacidade de se colocar no lugar dos outros nascem no solo da autoconscincia, e a autoconscincia nasce no solo da arte de se interiorizar, observar e se mapear. Sem desenvolver tais habilidades, podemos preparar profissionais para executar tarefas, combatentes para as guerras, mas no seres humanos conscientes do espetculo insondvel da existncia e que amam se doar. 


A ARTE DE SE MAPEAR / SE REORGANIZAR 
      
      Um dos defeitos mais graves do Eu como gestor psquico  a dificuldade de se mapear. Primeiro, nos interiorizamos; segundo, nos observamos; e terceiro, nos mapeamos. A arte de se mapear  um passo alm da arte de se observar. observar-se  se perceber de maneira genrica, mas se mapear  se perceber de maneira especfica,  enumerar e esquadrinhar nossos conflitos para se reconstruir.  um processo teraputico, mas pode ser exercido educacionalmente no para nos tratar, mas para reorganizar nossa histria. 
      Mapear-se  entrar em contato com nossa realidade sem mscaras e disfarces. Voc entra em contato com sua realidade? Um Eu que no tem coragem de se mapear detalhadamente carregar por toda a sua histria seus traumas. Sabe aquelas pessoas que nunca mudam a dinmica da sua ansiedade, fobias, egocentrismo, pessimismo ou timidez? No  porque suas mentes no selam complexas e no tenham

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potencial para reconstrurem a sua histria, mas sim porque, entre outros instrumentos de navegao, o Eu delas no aprendeu a se mapear de maneira aberta e transparente. 
      Sem a arte de se mapear no  possvel superar a necessidade neurtica de ser perfeito, reescrever as janelas killer fracas e, em destaque, as janelas poderosas (duplo P) que estruturam a personalidade. Lembre-se de que toda construo tem suas vigas e pilares de sustentao, o mesmo ocorre com a personalidade. Sem mapear essas janelas, no temos como nos reorganizar e reciclar os pilares que estruturam nossas mentes. Quanto mais o Eu tiver dificuldade de checar suas zonas de conflito, mais o tratamento psicoteraputico poder se prolongar, seja na terapia analtica, seja na cognitiva, poiso Eu ter menos condies de exercer seus papis fundamentais. Sem mapa ns nos perdemos, at em nossas mentes. 
      Conheo casais que se digladiam h dcadas. No se separaram, mas vivem num inferno emocional. E arrastaro seus conflitos, no mudaro, porque o Eu deles se recusa a se interiorizar, se observar e se mapear sem disfarces. Um Eu imaturo constri defesas infantis, aponta as falhas dos outros, mas nunca as suas, O Eu s pode reconstruir suas rotas, gerenciar sua ansiedade, proteger sua emoo se tiver um mapa nas mos para se movimentar no intangvel e escuro universo mental. Sem nos conhecermos minimamente, no desenvolveremos autoconscincia, e, sem autoconscincia, ficaremos confusos nos solos do nosso psiquismo. Atiraremos para todos os lados, mas no acertaremos os alvos fundamentais. 

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      Voc pode incorporar milhes de dados sobre fsica ou matemtica e continuar a ser o mesmo depois de toda essa trajetria. Mas se penetrar em si mesmo, se observar continuamente e se mapear de maneira crua e transparente, ainda que no com a eficincia de um excelente terapeuta, nunca mais ser o mesmo. Ter subsdios para pensar em outras possibilidades e reeditar sua histria. Mapear-se gera projetos de mudana, mas um conhecimento superficial gera desejos fugazes, sem sustentabilidade. 
      Por exemplo, uma pessoa que tem pavor de falar em pblico poder continuar insegura a vida toda se no aprender a se interiorizar, a se observar, a se mapear de maneira inteligente. Sabe que deve se reciclar, ouviu conselhos mil, mas no tem habilidade para se superar. O conhecimento superficial de nossos conflitos gera desejos, e desejos produzem janelas light fracas, com baixo poder de atrao e agregao. 
      Mas se o Eu sair do superficialismo, mapear seu complexo de inferioridade, questionar continuamente como ele se manifesta, como foi construdo, por que no foi superado, etc., construir janelas light duplo P que estabelecero uma nova agenda para deixar de ser servo desse complexo. Gritar silenciosamente em seu psiquismo, hastear a bandeira da liberdade primeiro dentro de si, e depois no teatro social. Passar a levantar as mos, expor o pensamento e debater ideias, enfrentar o medo do deboche e do escndalo, escrever, assim, um novo captulo na sua histria. 
      Certa celebridade do cinema tinha pavor de crticas na imprensa. Elas simplesmente destruam o nimo dela e seu 

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prazer de viver. Depois de conhecer alguns mecanismos de formao do Eu e mapear, pelo menos minimamente, seu psiquismo, partiu para romper seus grilhes. Em vez de se intimidar, procurou o que detestava, as reportagens que a criticavam. E, enquanto lia essas matrias, abria janelas traumticas e dava um choque de lucidez na sua emoo hipersensvel. Queria deixar de ser escrava do que os outros pensavam e falavam dela. Autoconsciente do seu valor e das suas falhas, passou a gerenciar a ansiedade. Libertou-se, reeditou as janelas killer duplo P. As crticas deixaram de esmag-la e se tornaram nutrientes da sua superao. 


UM EU ESPETACULAR 
      
      O processo de construo do Eu ao longo da histria foi sempre fragilizado e comprometido. As pessoas que brilharam em seu Eu o desenvolveram intuitivamente, como Buda, Confcio, Moiss, santo Agostinho, Spinoza, Hegel. H uma pessoa em particular que analisei e que me deixou embasbacado. 
      Seu Eu era pleno gerente da sua mente, mesmo nos ambientes mais inspitos e aparentemente insuportveis. Sabia proteger sua emoo e filtrar estmulos estressantes como os homens mais lcidos no o souberam. Seu Eu era to fascinante que propositadamente escolheu uma das piores estirpes de alunos para ensinar as funes mais complexas da inteligncia, como a arte de se interiorizar, se observar, se mapear, pensar antes de reagir, colocar-se no lugar do outro, expor e no impor as suas ideias, pensar como espcie.

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Seu nome? O Mestre dos Mestres, ou, simplesmente, o carpinteiro de Nazar. 
      Seus alunos eram mentalmente agitados, inquietos, agressivos, tinham a necessidade neurtica de poder e de controlar os outros. Com tais qualificaes psquicas, como poderiam encarar uma prostituta como um ser humano nico? Como poderiam considerar um leproso to importante quanto um rei? Como poderiam expor suas ideias se tinham sede de poder? Joo, o mais amvel, props eliminar literalmente quem no andasse com seu mestre. Era quase impossvel trabalhar o Eu deles para ser autoconsciente, autnomo, altrusta, solidrio, resiliente. Uma perda de tempo. 
      Mas o professor desses alunos era tambm um jardineiro do psiquismo. Antecipando-se em mais de 2 mil anos no tempo, plantou janelas no epicentro da memria deles, na MUC. Deu-lhes lies chocantes, borbulhantes, espantosas, inesquecveis para estruturar o Eu deles. 
      Fiquei admiradssimo ao mapear seus comportamentos no seu ltimo jantar. O professor estava diante dos seus alunos, que sempre lhe deram dor de cabea. Ele sabia que em horas vivenciaria uma dor inimaginvel, golpes insuportveis. E as piores decepes no viriam dos seus inimigos. 
      Qualquer um bloquearia o instinto da fome naquele jantar, no conseguiria engolir pequenas pores de comida. Estava angustiado porque sabia que seus alunos ainda estavam muitssimo despreparados para ter um Eu auto-consciente nos focos de tenso, capaz de gerenciar a ansiedade, abraar os diferentes, investir cm quem os frustrasse e doar-se sem esperar o retorno. 

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      Como ensinar essas lies complexas nas suas ltimas horas de vida? Impossvel por meio de palavras. Deveria reunir suas ltimas gotas de energia para se preocupar apenas com sua dor e seu caos. Tinha conscincia de que as palavras, por mais bem colocadas que fossem, gerariam janelas light frgeis que no alicerariam a construo de um Eu inteligente e saudvel. Mas, para assombro da psicologia e educao moderna, quando as palavras seriam estreis, ele se transformou numa metfora viva e bombstica. 
      Pegou uma toalha, uma bacia de gua e silenciosamente se curvou aos ps dos seus alunos. Em minha anlise destituda de religiosidade, me perguntava atnito Que professor era este que, no auge da fama, teve a coragem de se dobrar aos ps de alunos que frequentemente o decepcionavam, eram inquietos, radicais e conflitantes?. 
      Seus alunos ficaram abalados, assombrados, surpreendidos. O fenmeno RAM (registro automtico da memria) entrou rapidamente em ao e comeou a registrar de maneira privilegiadssima no mago da memria deles janelas light com altssimo poder de atrao e agregao. O Eu deles foi sugado por essa janela e todos os pensamentos e emoes que produziam agregavam novas janelas, formando zonas light que alicerariam a construo de um Eu saudvel. 
      Pedro, o agitado e irritadio discpulo, ficou escandalizado. Longe de mim, professor, que me lave os ps, bradou. Mas o professor penetrou nos olhos dele e lhe disse: Se eu no os lavar, voc no ter parte na minha histria. Pedro se calou e continuou a expor seu psiquismo ao arteso da inteligncia. 

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      O Mestre dos mestres, em sua metfora viva, parecia dizer: Vocs me decepcionaram e ainda me frustraro ao mximo, me abandonaro, me negaro, me trairo. Mas neste jantar e atravs destes gestos declaro que jamais desistirei de vocs. Se quiserem fazer parte da minha histria, tero de replicar esse ensinamento at o dia do seu ltimo suspiro existencial. Jamais esqueam que um Eu frgil aposta nos que aplaudem, um Eu maduro exalta os diferentes e  capaz de investir o melhor que possui naqueles que o decepcionam.... 
      Quando Pedro o negou pela terceira vez, poucas horas depois desse episdio, ele, ferido, sangrando e com edemas labiais e periorbitrio, no podia dizer palavra. Mas, para perplexidade da psicologia, ele o alcanou com seu olhar e parecia bradar silenciosamente: Eu o compreendo, eu o compreendo. 
      Que professor  este que nunca abandona seus alunos, mesmo que tenham tirado as piores notas e tido os comportamentos mais reprovveis? Que mestre  esse que compreende o aparentemente incompreensvel. Que professor  este que sempre investiu sua inteligncia nos mecanismos da formao do Eu? Ele protegeu a emoo de Pedro, mesmo quando este o apunhalava. Sabia que a solido do autoabandono poderia esmagar Pedro com o sentimento de culpa e gerar sua autodestruio. O Mestre dos mestres, mais uma vez, no foi vtima das suas mazelas, mas autor da sua histria em momentos em que era quase impossvel gerenciar a ansiedade, a fobia, a rejeio e a dor fsica. 
      Muitos admiram seus grandes atos, mas foi nos gestos mais subliminares que ele revelou uma maturidade emocional

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sem precedentes. Infelizmente, as religies falharam em no estud-lo do ngulo da psicologia, sociologia e cincia da educao. Se os praticantes de todas as religies, inclusive das no crists, vivessem suas metforas, seus pensamentos e suas teses, teramos uma humanidade muito menos agressiva e instintiva e muito mais generosa e inteligente. Esse homem esculpiu madeiras, mas tambm se tornou um arteso especialista em esculpir a mente humana. 
      Eu no defendo uma religio, mas, pelos olhos da cincia,  fascinante v-lo acreditar no ser humano e na sua transformao quando tinha todos os motivos para declarar que a espcie humana era invivel. Nunca o silncio gritou to alto e gerou em pouco tempo os mais nobres raciocnios complexos, abstratos e indutivos. Nunca o amor deixou o eco das palavras e se materializou para alcanar pessoas que no conheciam a arte de amar. 

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CAPTULO 9 

O GATILHO DA MEMRIA: UMA FESTA PARA A QUAL O EU NO SE CONVIDOU

O Eu NUTRE-SE DAS JANELAS QUE NO ABRIU 
      
      O sexto mecanismo de construo trata da atuao do fenmeno do Gatilho da Memria. J comentei esse fenmeno em outros livros e nesta obra, mas neste captulo farei uma abordagem diferente. Por estranho que parea, o Eu entra numa festa para a qual no se convidou e nutre-se de pratos que no elaborou. 
      Deixe-me explicar. O fenmeno do Gatilho ou Autochecagem da Memria, como o prprio nome indica,  o fenmeno que abre as janelas do crtex cerebral diante de cada estmulo fsico (imagens, sons, experincias tteis, 

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gustativas, olfativas) e de cada estmulo psquico (pensamentos, imagens mentais, desejos, fantasias, ideias). Nesse exato momento, o texto que voc est lendo fornece um pool de estmulos fsicos que expressam os smbolos da lngua, que, por sua vez, acionam o Gatilho da Memria, que abre automaticamente milhares de janelas, que levam a compreender, decifrar, interpretar cada palavra do quebra-cabea do texto. 
      Esse mecanismo  inconsciente. No  o Eu que procura e localiza essas janelas, mas o Gatilho da Memria, que  uma espcie de copiloto dele. Ele  como um polvo cujos tentculos abrem mltiplas janelas simultaneamente, financiando nossa compreenso e assimilao mais imediatas do mundo que somos e no qual estamos. Uma compreenso mais acurada depender da elaborao do Eu. 
      Motoristas dirigem carros por grandes trechos e, de repente, quando o Eu toma cincia da trajetria percorrida, fica impressionado com as manobras e atitudes tomadas nesse percurso. Parece que no foi ele quem as tomou. Na realidade, grande parte foi produzida pela ao do fenmeno do Gatilho da Memria. Vez ou outra, quando se necessita de uma manobra ou deciso mais refinada, o Eu toma o controle desse piloto coadjuvante e processa essas manobras. 
      O Gatilho abre as janelas, e o Eu delas se nutre. Portanto, o Eu, como fenmeno consciente, entra no processo de construo de pensamentos e emoes j iniciado por um fenmeno inconsciente. Quando somos jovens, ser penetra numa festa pode at ser divertido, mas, quando adulto, isso 

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 constrangedor. O mesmo ocorre com o Eu nos campos da memria. O Eu entra como penetra nas festas para as quais ele no foi convidado e para as quais nem ele mesmo se convidou. Esse mecanismo ocorre diariamente centenas de vezes, O problema  quando as festas se tornam um drama, uma fonte de terror, medo, ansiedade. 
      O Gatilho abre uma janela, e o Eu comea a utilizar as experincias e informaes nela contidas para produzir pensamentos e emoes. Se a janela for traumtica e o Eu no souber gerenciar o processo de leitura, se torna refm dela. Uma crtica, rejeio, desaprovao, tom de voz exaltado, detona o Gatilho da Memria, que abre em fraes de segundos algumas reas killer, levando o Eu a mergulhar em guas turbulentas. Imagine se estivermos debaixo de cobertores aquecidos e uma pessoa nos arrancar da cama e nos atirar numa piscina de gua fria. Isso que parece uma agresso sem precedente, ocorre no teatro psquico com certa frequncia. S no nos espantamos porque esse processo ocorre desde a nossa infncia. Psicoadaptamo-nos a ele, embora no deixemos de nos pertubar, angustiar e sofrer. 
      Pessoas que tm ataques de pnico, transtornos obsessivos, fobia de avio, claustrofobia, fobia social ou que tm grandes preocupaes com doenas, com o futuro e com a opinio dos outros detonam o Gatilho da Memria para reas traumticas, saem de um ambiente confortvel para uma piscina de gua fria. Tudo  to rpido que o Eu no tem sequer tempo para pensar. O Eu s conseguir se livrar dessa festa ou do prato azedo e fermentado propiciado

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pelo Gatilho da Memria segundos depois de j t-lo experimentado. 
      Sem o Gatilho da Memria, no entenderamos milhares de estmulos visuais e sonoros, no leramos nem decifraramos os cdigos da lngua, mas, com ele, tambm entramos em frequentes armadilhas. Nada pode ser to constrangedor, fragilizar tanto o Eu quanto ser vtima de um crime que ele no cometeu. Tudo se complica no psiquismo porque o Eu, desconhecendo esses mecanismos, aceita sua condenao, aceita seu presdio, fica nutrindo-se daquela janela sem saber que no foi ele quem a abriu e sem saber que pode e deve sair da esfera dela. 
      H inumerveis pessoas que se atritam, se ofendem, tm ataques de fria, crises de indignao, enfim, entram num confronto que o Eu no pediu para entrar. Ningum compraria alimentos estragados num supermercado, mas no supermercado da mente humana compramos e pagamos caro. Somos espertos n mundo de fora, mas completamente ingnuos no mundo de dentro. Por desconhecermos os mecanismos de formao e atuao do Eu, inmeras atrocidades e acidentes ocorreram na histria e continuam acontecendo em nossas existncias. 
      Pais podem ser ponderados com seus filhos em alguns momentos, noutros, quando desrespeitados, podem agir com insanidade. Executivos so equilibrados quando esto navegando em guas calmas, mas, quando so desafiados, podem ficar irreconhecveis, O Eu pode ser muito flutuante se no souber desarmar as bombas que o Gatilho da Memria prepara para ele. Voc sabe desarm-las? Aprender a 

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se interiorizar, se observar e se mapear pode mais uma vez ajudar muito. 


UM GERENTE DE BANCO QUE ERA PSSIMO GERENTE PSQUICO 

      Um gerente regional de um banco certa vez me trouxe o filho de cerca de 20 anos porque o rapaz era inseguro, ansioso e intolerante. Recebi os dois nos primeiros minutos da consulta, O pai mostrava um tom de voz pausado, suas palavras eram coerentes e afetivas. Logo antes de sair da sala para que eu pudesse atender a seu filho, este o contrariou. Imediatamente, o pai o agrediu fisicamente. Deu-lhe um tapa. Foi espantosa a reao dele. 
      O pai tambm estava doente e alimentava a intolerncia e ansiedade do prprio filho. No sabia se proteger. Estava to fragilizado que pequenas frustraes detonavam seu Gatilho da Memria e geravam reaes incontrolveis. Geria pessoas e contas de clientes abastados no seu banco, mas no sabia gerir sua psique. Seu Eu estava em dbito constante com a pacincia e a generosidade. Ambos, pai e filho, eram enclausurados por determinados circuitos da memria. 
      Raiva, ansiedade, indignao, medo e cime surgem inicialmente a partir do Gatilho da Memria, mas um Eu inteligente imediatamente se refaz e deixa de ser servo do processo que ele no iniciou. Se o Eu no tiver autoconscincia e maturidade, se no desenvolver habilidades para se reciclar continuar por horas e dias embriagando-se 

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dessas janelas. Eis o pior crcere. Uns so presos por barras de ferro, outros por algemas psquicas. 
      Certa vez, uma pessoa deu uma conferncia e brilhou em sua exposio. Ao terminar, algum subitamente se levantou na plateia e lhe fez uma crtica injusta. Imediatamente, o Gatilho disparou, levando-o para uma janela traumtica. A carga de tenso dessa janela bloqueou milhares de outras, impedindo seu Eu de ter acesso a informaes que poderiam subsidiar sua flexibilidade e capacidade de responder. Poderia reagir com maestria, mas seu Eu foi encarcerado, no conseguia pensar. No parecia a mesma pessoa. 
      Angustiado e sentindo-se afrontado, partiu para o ataque, reagiu agressivamente  crtica. Se seu Eu agisse como gerenciador da psique, se interiorizaria, agradeceria a crtica, deslocaria o processo de leitura para outras zonas, que, por sua vez, financiariam respostas interessantes e, consequentemente, transformaria a crise numa oportunidade para crescer e debater suas ideias. Mas o que fazemos com as crises? Somos refns delas ou as gerenciamos? 


ADAPTABILIDADE E FLEXIBILIDADE 
      
      Certa vez um funcionrio pblico apareceu interrompendo uma das minhas conferncias aos gritos. Ela esbravejava contra o prefeito que estava na plateia assistindo  explanao. Reclamava altissonante por melhores salrios para a sua categoria. A plateia se agitou. 
      Em vez de me perturbar, respirei profundamente, fiz silncio por alguns instantes e depois disse que ela tinha 

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o direito de fazer seus protestos, mas que as pessoas presentes tambm tinham o direito de ouvir a conferncia. A plateia aplaudiu. Em seguida, pedi-lhe gentilmente que se manifestasse em outra oportunidade. Ela silenciou, prestou ateno, e eu continuei minha preleo. 
      J fui premiado diversas vezes em minhas palestras com falhas no microfone, mesmo quando usava aparelhos de ltima gerao. Em vez de criticar os organizadores e ser vitima do Gatilho da Memria, sempre brinco que isso foi programado para treinar a superao do estresse dos ouvintes. 
      Certa vez, o som falhou e no voltou. Havia mais de mil participantes. No tive dvida, falei aos gritos. Se os atores na Grcia antiga falavam aos brados nos imensos teatros, por que eu no o poderia? Se no for possvel o Eu mudar o ambiente, ele deve mudar a si mesmo. Se no o fizer, ser vtima, e no ator principal do seu script. 
      A flexibilidade e adaptabilidade so caractersticas que todos devemos procurar. E no h gigantes. Alguns grupos de estmulos estressantes no nos afetam tanto, outros nos fazem claudicar. O nosso Eu deveria ser sempre uma construo inacabada. Humildade no  sinal de fragilidade, mas sim um raciocnio de alta complexidade e multifocalidade uma grande couraa de um Eu experiente. 


O PNICO E O EU DOENTE 
      
      Infelizmente, devido a meus compromissos nacionais e internacionais, no tenho mais tempo de atender meus pacientes, algo que sempre amei fazer. Fiz mais de 20 mil 

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sees de psicoterapia e nessa caminhada percebi que cada ser humano tem um tesouro soterrado em seu psiquismo, por mais doente que esteja. Encontrei pessoas fascinantes, que sofreram muito, mas que poderiam ter prevenido seu transtorno se tivessem desenvolvido algumas das habilidades fundamentais do Eu. Deixe-me contar mais um caso. 
      Um reitor de uma universidade me procurou com ataque de pnico. Havia passado por outros profissionais e tomado antidepressivos em dosagens corretas. Nada o fazia melhorar nem estabilizava sua emoo. J no tinha prazer em trabalhar ou sair de casa. Embora fosse culto, seu Eu era passivo, no liderava sua psique, no gerenciava sua ansiedade. Os ataques de pnico dramticos detonados pelo Gatilho da Memria encenavam um teatro de terror e faziam dele um mero espectador. Sentia-se s portas da morte. 
      O crebro humano no est programado para morrer, sempre clama pelo direito  vida, mesmo quando algum pensa em morrer ou se matar. Se o crebro tem sede de viver, imagine a masmorra em que ele se encerra num ataque de pnico, onde o Eu d um crdito fatal a uma morte surreal, fictcia. O crebro sempre compra as verdades do Eu ainda que elas sejam falsas. A consequncia neste caso? Uma srie de reaes psicossomticas, como taquicardia, falta de ar, sudorese, que imploravam a esse intelectual que fugisse da situao de risco. Mas como fugir de si mesmo? Seu medo era dantesco. 
      Gosto de entrar nas causas inconscientes dos conflitos psquicos, pois elas fornecem elementos para o Eu reeditar as janelas da sua memria, filtrar estmulos estressantes, 

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superar seu drama emocional. Mas, nesse caso, mesmo conhecendo as causas que aliceravam sua sndrome do pnico e sua fobia social, esse paciente continuava passivo. 
      Diante disso, percebi que precisava instigar seu Eu a sair da esfera da virtualidade e exercer seus papis fundamentais. Pedi-lhe que fizesse continuamente uma mesa-redonda com o fantasma do medo da morte e da ansiedade. Questionasse os fundamentos, causas, dimenses e consequncias. Mas ele, apesar de gerenciar centenas de professores e funcionrios, no sabia gerenciar seu psiquismo. Solicitei, ento, que, aps o banho, pegasse uma toalha, projetasse seu medo e ansiedade nela, a torcesse, confrontasse e criticasse continuamente e com doses elevadas de emoo contra o medo de morrer, as imagens mentais aterradoras e a fragilidade do Eu. Tambm pedi que usasse a arte da crtica e da dvida para reciclar, qualificar e impugnar os pensamentos mrbidos. 
      Fez por vrias semanas esse exerccio. Os medicamentos que tomava e, em especial, o atrito intrapsquico produzido pelo Eu no apenas o fizeram sair das fronteiras das janelas killer abertas pelo Gatilho da Memria como tambm reescrev-las de uma nova forma. Superou-se. 
      A dificuldade do Eu em usar o instrumento do pensamento para atuar no campo psquico sempre demonstrou a fragilidade do Homo sapiens. H pessoas que no tm o mnimo autocontrole da sua ansiedade, mau humor, inveja, cimes, depresso, obsesso. 
      Sabem onde tropeam, mas caem todos os dias na mesma vala. Se o Eu aprendesse a liderar o processo de construo 

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de pensamentos e das emoes, as profisses de psiquiatria e psicologia clnica teriam muito menos ocupaes, pois as pessoas teriam ferramentas para prevenir os transtornos psquicos. Os presdios se transformariam em museus, pois a criminalidade diminuiria muito nas sociedades modernas. Mas em que escola ou universidade se equipa o Eu para ter esse autocontrole? Quem submete o psiquismo ao seu pleno gerenciamento? Devemos ser todos eternos construtores do Eu se quisermos ser felizes e saudveis. 

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CAPTULO 10

O EU CONSTRUTOR E RECONSTRUTOR

      A existncia humana  um labirinto complexo de se transitar. Num momento, estamos sorrindo; noutro, chorando. Numa ocasio; somos aplaudidos, noutra, esquecidos. 
      Num momento, somos heris; noutro, fracos. Numa temporada, somos imbatveis; noutra, derrotados. 
      Quem pode controlar todos os fenmenos da existncia? Ningum Mal conseguimos controlar as variveis que nos envolvem, Como o tempo, emoes, pensamentos, motivaes. Quem tem um Eu plenamente saudvel? Quem est preparado para todos os eventos da vida? Ningum! Quem acha que est preparado  porque est atravessando um perodo de bonana, sade, herosmo. Desconhece o labirinto da existncia. 
      Uma coisa  certa, tudo  incerto; h curvas imprevisveis em toda trajetria existencial. Ricos e miserveis, 

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intelectuais e iletrados, so todos espectadores de um mundo que no dominam completamente. Numa existncia pautada por surpresas, procurar dentro de certos limites ser autor de nossa histria  fundamental para a sade psquica. 
      Ser autor de nossa histria no  ser imbatvel nem ter uma vida coroada de sucessos. No  ter uma emoo continuamente saudvel, nem deixar de experimentar crises psicossociais. No!  atravessar com dignidade os terremotos psquicos procurando escrever nessa travessia os textos mais importantes de nossa personalidade. E ter um Eu que sai da superfcie intelectual, liberta o pensamento imaginrio, mergulha dentro de si e mapeia seus conflitos. Um Eu que cobra menos e abraa mais, que no ama excluir, mas  apaixonado por apoiar, inclusive a si mesmo. 
      O brilhante pintor Van Gogh, devido a suas habilidades plsticas, podia brincar com a tinta e criar obras-primas, mas seu Eu no tinha habilidades para brincar com a emoo e pintar quadros que retratassem a segurana e o jbilo em situaes tensas. Como veremos no prximo livro, seu Eu era hipersensvel. No tinha proteo emocional. No tolerava errar, no suportava as crticas, em especial dos ntimos. Pequenas rejeies o afetavam muitssimo. Sua emoo era terra de ningum, e no uma propriedade exclusiva. Abalado por uma amizade fragmentada, seu Eu tomou uma atitude extrema. Para mostrar fidelidade a um amigo, cortou a prpria orelha e a enviou a ele. Como pode um gnio das artes plsticas chegar ao extremo da autopunio? 
      No  fcil construir relaes saudveis. Como comentei, 80% das demisses dos executivos so decorrentes no de incompetncia tcnica, mas de inabilidades sociais, 

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como lidar com perdas, frustraes, fracassos, motivar pessoas, trabalhar em equipe, se relacionar com pessoas difceis, saber corrigi-las, corrigir rotas. S  possvel construirmos relaes saudveis se construirmos um Eu saudvel. Grandes seres humanos que brilharam nas empresas sucumbiram nas guas do psiquismo. 


OS INSTRUMENTOS DE NAVEGAO DO EU 
      
      J pensou se o Eu tivesse um instrumento consciente para saber onde esto localizados os cimes, fobias, ansiedade, hipersensibilidade no crtex cerebral? Certamente, no percorreramos esses bairros da memria. J pensou se soubssemos onde se localizam as janelas que contm as experincias que nos fizeram transbordar de alegria? Certamente nos ancoraramos nessas reas. Mas, sem GPS ou bssola para localizar o mapa dos conflitos psquicos, o Eu percorre os circuitos da memria e entra em campos minados. 
      Algumas pessoas choram, dizendo que detestam ser impulsivos, mas, quando percebem, j estouraram. Outros prometem que no mais sero tmidos, mas, quando esto nas reunies de trabalho, detonam o Gatilho da Memria e comeam a jantar na mesa da insegurana. Onde est o Eu delas? Que funes ele no aprendeu? Sem compreender e exercer as funes vitais do Eu, todo conselho, orientao, pensamento positivo se dilui no calor das tenses. 
      Onde est nosso Eu, pilotando nossa psique ou sendo controlado? Aprendi que ningum  digno do conforto emocional 

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se no usar suas crises para nutri-la. Ningum  digno da maturidade se no aprender humildemente a reconhecer sua estupidez e a usar suas crises para nutri-la. Ningum  digno da mais excelente liderana se no usar seus temores para constru-la. 
      Muitos tm medo de ter contato com seu prprio ser e falar da sua histria. No investiram o Eu de coragem para reconhecer que so falveis, pedir desculpas e comear tudo de novo, ainda que ningum acredite neles. Eles sufocaram a oportunidade de crescer debaixo do manto da insegurana. Gostamos de falar dos nossos sucessos, mas nos calamos sobre nossos desertos emocionais: fracassos, lgrimas, perdas. Eu j passei por desertos psquicos importantes, e todos eles foram fundamentais para estruturar meu Eu. 
      Na juventude, eu era um dos mais seguros, extrovertidos e sociveis da minha turma de amigos. No era um dos mais brilhantes alunos de medicina, mas era um dos mais crticos. Desde o incio da faculdade nunca consegui aceitar o que as pessoas me diziam sem passar pela minha crtica. Aprendi desde cedo que um aluno que no  capaz de questionar seus professores, pelo menos em alguns momentos, no  digno da arte de pensar. Ao discordar deles, no queria mostrar superioridade, mas que estava pensando. Isso acontecia em destaque nas aulas de psicologia e psiquiatria. No poucas vezes, escrevi de modo diferente o contedo que me passavam. 
      Por tais atitudes, alguns me viam como uma pessoa segura e determinada. Mas os defeitos na construo do Eu nem sempre so visveis. Meu Eu era mal construdo em reas importantes. No sabia proteger minha psique nem qualificar meus pensamentos. Por influncia gentica (minha me era hipersensvel e tinha tendncia  depresso), por cobrar 

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excessivamente de mim mesmo e no saber trabalhar perdas e frustraes, atravessei o vale indecifrvel da angstia. 
      Desenvolvia raciocnios unifocais, lineares, simplistas, punitivos e pessimistas, e meu Eu, ingnuo, dava um crdito fatal a eles como se fossem verdades absolutas. No usava o pensamento antidialtico para raciocinar multifocalmente, para enxergar por mltiplos ngulos meus estmulos estressantes e me reciclar. No confrontava minhas ideias perturbadoras. Era passivo, um escravo no territrio da emoo. 
      No sabia mapear a minha histria nem reconhecer as janelas killer duplo P que estruturavam minha personalidade. Minha me, por exemplo, querendo me ajudar a ser responsvel, quando eu tinha cinco para seis anos disse que meu canrio morreu de fome por minha culpa, porque no tratei dele. Ao invs de me ensinar a lidar com o fim da existncia, minha me, sem querer, intensificou minha dor. No poucas vezes deitei na cama chorando, me colocando no lugar do canrio que pouco a pouco morrera de inanio. Talvez nem tenha sido essa a causa da morte dele, mas aquelas palavras ditas inocentemente podiam gerar, e geraram em mim, uma janela traumtica com alto poder de ancoragem/atrao do Eu e alto poder de agregar novas janelas e produzir uma zona traumtica. Isso me transformou em uma pessoa hiperssensvel  frustao, o que me levou a ser hiperpreocupado com a dor dos outros, uma funo nobre mas exagerada que propicia o caminho para a depresso. 
      Admiro muito minha me, mas nossos pais, ainda que maravilhosos, por desconhecer os mecanismos de construo do Eu, podem provocar traumas subliminares sem que o saibam. E o pior  que crescemos e corremos o risco de 

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reproduzi-los. Pais que comparam um filho com o outro, usam palavras radicais como Voc s me d desgosto, Voc erra sempre, Voc no tem jeito podem plantar janelas killer. Educadores que, como vimos, chamam a ateno dos alunos em pblico, tambm podem incorrer nessa grave falta. Devemos sempre corrigir em particular e elogiar em pblico. 
      Em minha histria, desconhecia a arte da dvida, da crtica e da determinao estratgica. Usava a lei do menor esforo para me superar. Tentava me distrair ou negar minha dor emocional. Era um espectador que se sentia incapaz de mudar as cenas do filme de terror. Queria interromper o filme psquico, como o querem quase todos os que sofrem. Mas como poderia desviar meus olhos de mim mesmo? Como poderia fugir dos fantasmas que emanavam das janelas da minha memria e me assombravam? 
      Chorei muito. Entrei em contato com minha fragilidade e pequenez. Tomava banho, e as gotas de gua pareciam roar e ferir minha pele. Sou psiquiatra, e meus livros so usados por muitos psiclogos, mas, na poca, h quase 30 anos, como um simples estudante de medicina, tinha preconceito de procurar um profissional de sade mental.  to bom procurar ajuda,  to relaxante reconhecer que no somos perfeitos, mas eu e muitos dos meus colegas tnhamos preconceitos. Reconhecer que estava doente era sentir-se diminudo. Um erro crasso. 
      Para sobreviver, comecei a me interiorizar e, aos poucos, a me observar e depois me mapear. Fiquei dias e semanas analisando meus pensamentos perturbadores, minhas ideias estpidas, minhas imagens mentais angustiantes. 

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E anotava tudo. Foi um tmido comeo, mas despertei para deixar de ser espectador passivo e comear a reciclar minha dor emocional. E fiz uma grande descoberta, ainda que bvia: tenho um Eu. Esse Eu no apenas executa tarefas, mas tambm pode atuar em minha mente. No tinha uma autoconscincia elevada desse Eu, nem sabia que poderia gerenciar meus pensamentos nem reeditar as janelas da memria, mas foi fascinante, embora incipiente, esse insight. 
      No sabia que estava desertificando a MUC e que as janelas traumticas da ME estavam fornecendo matria-prima para meus pensamentos mrbidos e minha crise emocional. Afinal de contas, estava sendo preparado para ser um mdico, mas no para gerenciar minha mente, para saber proteger o corpo, mas no minha emoo. Como em todas as universidades do mundo, no tnhamos aulas sobre os mecanismos de construo do Eu. 
      E continuava anotando tudo. No comeo eram dezenas de pginas, depois se tornaram centenas. Desse modo, comecei a esboar o comeo de uma nova teoria psicolgica. Timidamente, pensei: ou serei vtima do meu sofrimento ou o enfrentarei e procurarei administr-lo. Comecei a perceber que o Eu perde todas as vezes que se inferioriza, coloca sua cabea debaixo do tapete da sua misria, culpa os outros pelas suas falhas. Comecei, assim, a entender pouco a pouco os fascinantes mecanismos de construo do Eu. 


A DOR PSQUICA, A MAIOR ESCOLA 
      
      A minha dor emocional foi minha escola e meu mestre. No decorrer da faculdade de medicina, comecei a penetrar na 

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histria dos pacientes. Depois de uma aula prtica sobre cncer, infarto, cirrose, meus professores e colegas iam embora, mas eu frequentemente ficava. Queria saber muito mais do que sobre rgos e tecidos, queria conhecer o psiquismo deles. Desejava conhecer as lgrimas, alegrias, sonhos, pesadelos, ideias perturbadoras que permeavam suas mentes. E anotava tudo. Eu os ensinei, mas eles me ensinaram muito mais. Eles no tinham status social, estavam se tratando gratuitamente, eram pobres, mas descobri que eram psiquicamente ricos. Ficava fascinado com o borbulhante universo psquico daqueles simples annimos. No sexto ano da faculdade, ficava quatro horas por dia numa sala do diretrio acadmico, saturada de entulhos e com milhares de caixas de medicamento (amostras grtis) espalhadas pelo cho, escrevendo minhas ideias numa velha mquina Olivetti manual. Foi o comeo da minha histria como escritor. 
      Formei-me, e o exerccio da psiquiatria e da psicoterapia aumentou minha sede de conhecimento sobre o funcionamento da mente e expandiu minha trajetria como pesquisador terico. As centenas de pginas se tornaram milhares. Nessa caminhada, entrei em reas do processo de construo do Eu, dos tipos de pensamentos, sua natureza, o processo de interpretao, os papis conscientes e inconscientes da memria. Nunca mais fui o mesmo. Para quem entra nessas reas da psique, status e fama tornam -s elementos imaturos numa existncia to breve. Durante esse processo, um sonho calou fundo em minha alma, contribuir com a cincia e com a sociedade, democratizar o acesso a ferramentas que poderiam ampliar os horizontes da inteligncia e prevenir transtornos psquicos. 

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      No comeo foi dificlimo publicar. Rejeies fizeram parte do meu cardpio. Parecia que esse sonho era um delrio do meu Eu. Mas, depois do clido e seco inverno, surgem as mais belas primaveras. Por fim, a dor emocional solitria gerou minha sede de conhecimento, se tornou um sonho, que se converteu em sementes, que se transformaram em 30 livros e que tm sido plantadas em dezenas de milhes de leitores em mltiplos pases. Que mrito tenho? Nenhum. Depois que estudei a natureza dos pensamentos e a formao do Eu, me sinto um ser humano em contnua construo, um caminhante que procura por si mesmo e pelos outros para superar a solido da conscincia virtual. 
      Aprendi que, dependendo do caminho que tomamos, podemos nos tornar os maiores algozes de ns mesmos. Como comentei, h pesquisas que dizem que o nmero de transtornos psquicos est explodindo na atualidade. Cinquenta por cento das pessoas cedo ou tarde desenvolvero algum deles. [1. Institute for Social Research da Universidade de Michigan.]  provvel que um em cada dois de ns seja afetado. E, se considerarmos o estresse moderno capitaneado pelo excesso de atividades, informaes e preocupaes, dificilmente vamos encontrar algum plenamente sadio. 
      Descobri que vale a pena viver a vida apesar dos vales de lgrimas e de frustraes. O Eu deve decifrar os segredos de uma mente emocionalmente rica, saudvel, criativa, inventiva.  muito difcil mudar a personalidade, mas mudar, lapidar, equipar e educar o centro gestor da personalidade, o Eu,  possvel. A existncia deveria ser uma academia de inteligncia para continuarmos sempre a nos construir. 

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      A aeronave de nossas mentes pode alar voos altos ou rastejar.  uma pena que pouqussimas pessoas procurem entrar em camadas mais profundas do seu ser atravs de um autodilogo inteligente, relaxante e produtivo.  uma pena maior ainda que vivamos numa sociedade to superficial, que encara se procurar e conversar consigo como loucura. 
      Loucura  conversar com todos que nos rodeiam, mas nos calar sobre nossa histria. Loucura  criticar o mundo de fora, mas no criticar nossos fantasmas, no reciclar nossos medos, no dar um choque de lucidez em nossos pensamentos dialticos e antidialticos perturbadores. Loucura  desligar os motores de nossos carros para que no sofram desgastes, mas no desligar as nossas mentes, ou gerenciar nossos pensamentos para no estressar intensamente o nosso crebro. Loucura  distinguir inmeros sons ao nosso redor, mas no escutar a voz agradvel e inaudvel do antiespao do pensamento virtual que clama para procurarmos por ns mesmos e mudarmos nosso estilo ansioso de vida. Loucura  consumir produtos e servios e esquecer que aquilo que o dinheiro no compra, como a arte de proteger a psique e de se interiorizar,  fundamental para a sade de psquica. Loucura  viver em casas e apartamentos confortveis, mas no ter lugar dentro de si para descansar e relaxar. Sim, loucura  o Eu se autoabandonar nesta belssima e imprevisvel existncia e no usar sua inteligncia para se reconstruir nem se reinventar... 

FIM 
(do primeiro volume) 

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      Todo o contedo deste livro  apenas parte da produo de conhecimento do autor Augusto Cury sobre a teoria da Inteligncia Multifocal. O autor ainda tem mais de duas mil pginas no publicadas 

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Volume dois 
O Eu Estressado: Mecanismos de Superao 
      No livro A fascinante construo do Eu, foram estudados alguns importantes mecanismos de formao do Eu e algumas das habilidades que se devem adquirir para ter sade psquica e social numa sociedade altamente ansiosa. No segundo livro, que completa esta obra, O Eu Estressado: Mecanismos de Superao, a ser publicado no futuro, se completar a viso da teoria da Inteligncia Multifocal, sobre os mecanismos bsicos da construo do Eu e sobre os vrios tipos de Eu doente: o Eu tmido, ansioso, hiperpreocupado, hiperpensante, hipersensvel, engessado, radical, inseguro, impulsivo, neurtico pelo poder. Tambm se discorrer sobre as ferramentas que o Eu deve usar para se superar. 

Prximo romance 
      O prximo romance do Dr. Cury ser histrico-psiquitrico, intitulado O Colecionador de Lgrimas versus Hitler. Nele, o autor no atua apenas como ficcionista, mas tambm usa suas habilidades como pesquisador e autor de uma teoria sobre o funcionamento da mente para descrever de maneira surpreendente a psicopatia de Hitler e de seus asseclas, como Himmler, Goering, Goebbels, e discorrer sobre alguns dos mecanismos sociais e psicolgicos que o lder do Reich 

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usou para seduzir o inconsciente coletivo de uma das naes mais cultas do seu tempo. O clido e inimaginvel drama dos judeus e outras minorias  analisado em detalhes. 
      O autor mostra que se os nazistas tivessem aprendido minimamente o raciocnio complexo, o pensamento abstrato e a capacidade de colocar-se no lugar dos outros, jamais teriam cometido as atrocidades que conhecemos. O autor acredita que as guerras no so produzidas primeiramente pelas armas, mas sim por uma educao superficial que contrai o dilogo e o altrusmo. O ser humano tem graves limitaes para ser o gerente do seu psiquismo, mas nada, nenhum trauma, nenhuma perda ou privao, justifica violar os direitos dos outros, e menos ainda extirpar o direito deles de construir a sua prpria histria. 

Quem quiser conhecer a Academia de Inteligncia criada pelo Dr. Augusto Cury, que tem contribudo com milhares de alunos para a construo do Eu e o desenvolvimento das funes mais complexas da inteligncia, da promoo da emoo e das relaes interpessoais, acesse 
www.academiadainteligencia.com.br 
www.escoladainteligencia.com.br 

Este livro foi composto em Sabon MT para a Editora Planeta do Brasil em novembro de 2011. 


